Lulu app: como o machismo atinge todos nós

Todos os dias, de manhã, saio de casa com a mesma pergunta na cabeça: vou conseguir aguentar o mundo lá fora? Todos os dias pessoas que não conheço, que nunca vi na vida, que nunca teria vontade ou interesse de conhecer, falam o que pensam sobre mim sem eu ter a mínima intenção de saber.

Essa é a realidade da mulher. Todos os dias, totalmente cobertas ou de roupas curtas e decotadas, ouvimos a opinião alheia sobre nossos corpos, aparência e atitudes. Opinião de pessoas que nunca, sequer, falaram conosco ou dividiram minutos da nossa vida.

E aí aparece um aplicativo em que mulheres podem fazer isso com os homens. Pronto, todo mundo passa a achar que a objetificação é um problema, que os pobres homens não mereciam isso e que é extremamente perigoso falar sobre coisas que podem machucar os outros sem se preocupar com as consequências.

Calma aí, a gente fala sobre isso diariamente há anos e só agora as pessoas conseguiram notar quão errado é julgar e rotular as pessoas? Só quando você tira os privilégios velados que os homens carregam sem se importar é que objetificar virou pecado? Ou só objetificar homens é errado?

Julgar, objetificar e rotular pessoas por seu comportamento ou atitudes é errado. Ponto final. Não há discussão sobre isso. Mas eu, assim como milhares de pessoas por aí, somos humanos – é, tem uma parte das pessoas que são deuses e não sentem algumas coisas como nós, que ainda não atingimos a perfeição – e nos damos o direito de sentir um pouquinho de prazer quando quem nos machuca é machucado da maneira exata que age.

Talvez o aplicativo seja só mais uma besteira que vai durar uma semana e eu e algumas pessoas cansadas de lutar por um mundo melhor estejamos encontrando esperança onde não tem, mas o que vi nos últimos dias foram homens morrendo de medo que seus segredos caíssem na internet. Muitos desses homens também achavam ok quando fotos de garotas caiam na rede, já que elas eram burras de ter feito as imagens.

Vale lembrar que uma piada, por exemplo, é transgressora e engraçada quando é sobre o opressor. Quando ela é sobre o oprimido é apenas babaquice.

Meu sonho, nesse momento, é que a dor e o medo de ser humilhado publicamente apenas por ser quem você é transforme esses homens. Faça com que, cada vez que eles forem abrir a boca para fazer comentários sobre o corpo de uma desconhecida, algo dentro deles doa e soe como uma atualização do Lulu. “Nossa, eu não queria que fizessem isso comigo”, deve ser o pensamento que cada um deles vai ter.

É errado. Mas sou humana. Acredito que posso melhorar, mas por alguns dias eu quero ter, sim, o prazer de ver os privilégios sendo tirados, de ver a bastilha pegando fogo e de deixar que as pessoas notem, sozinhas, que o mundo não precisa mais desse tipo de relação tão superficial.

A parte triste de tudo isso é ver como as mulheres se sentiram poderosas com tão pouco: um aplicativo em que você faz análises superficiais de homens com quem você convive usando apenas palavras pré-definidas por alguém. Quando isso soa como libertário você não sente que vive totalmente presa em uma liberdade de mentira?

Há males que vem para o bem. E há oportunidades de transformar o sentido das coisas. Esse aplicativo poderia ser base para outro que aponta os caras que forçam a barra para transar, os caras que agridem e que colocam a dignidade da mulher em risco. Que tal deixar o mundo melhor transgredindo a utilidade que se espera das coisas?

Não tenho respostas ou a pretensão de te-las. Prefiro dividir uma visão com um recorte diferente do que você encontra por aí e incentivar você a pensar, questionar e buscar mais informações para deixar o mundo melhor para todos nós.

Você tem alguma dúvida sobre sexo? Manda para mim no preliminarescomcarol@yahoo.com.br e siga-me no Twitter (@carolpatrocinio).

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos