A morte de Celso Blues Boy torna o blues ainda mais triste

Na Mira do Regis

Celso Blues Boy passou a vida inteira fazendo o impensável: blues cantado em português. Sempre achei muito curiosa esta batalha quixotesca que Celso fazia questão de não abandonar. Muito mais pelo estranhamento causado por ouvir tal gênero cantado em nossa língua do que por qualquer teoria acerca dos conceitos culturais que levaram à criação do blues em um ambiente que em nada lembra o Brasil.

Celso morreu ontem pela manhã em sua casa, em Joinville, para onde havia se mudado alguns anos atrás, vitimado por um câncer na garganta.

Assim como não deu a menor bola para a doença quando ela surgiu — ele sistematicamente renegou qualquer possibilidade de tratamento e jamais deixou de fumar os seus seis maços de cigarros diários -, Celso sempre deu de ombros para qualquer tipo de moda musical vigente ou para críticos que chamavam sua música de cafona enquanto ouviam aqueles discos horrendos que o Talking Heads, Smashing Pumpkins, Strokes e outras bandas "mudérrrrrrnas" faziam. E isto acabou por angariar o respeito e simpatia de muita gente.

Não foram poucas as pessoas que acabaram montando boas bandas por causa dele, como o pessoal do Blues Etílicos e do extinto Big Allanbik, só para citar dois exemplos de dois ótimos grupos surgidos pela influência musical de Celso. Para muitos, uma de suas canções, "Aumenta que isso aí é Rock 'n' Roll" era um hino. Faz sentido...

Ok, ele era muito melhor guitarrista do que compositor — você sabia que é dele o solo que se ouve na clássica "Rock das Aranhas", do Raul Seixas e que ele tocou um bom tempo com Sá & Guarabira e Luiz Melodia? -, mas mesmo que a maioria de suas composições soasse de maneira mais genérica que o desejável, Celso sempre tinha umas duas ou três boas cartas escondidas nas mangas de cada um de seus discos. Também pesava contra ele o fato de sua voz ser tão expressiva quanto a de um dono de uma loja de materiais de construção, o que certamente afastou muita gente de seu som.

É uma pena que ninguém tenha sacado que estes "defeitos" é tornavam suas apresentações ao vivo — grande parte delas no Circo Voador, onde era quase um "residente" - recheadas de uma espontaneidade praticamente ausente em outros palcos musicais brasileiros. Foi exatamente isto que o levou a tocar, por exemplo, no Festival de Montreux, na Suíça, onde foi aplaudido de pé por uma plateia bastante exigente por vários minutos. Ninguém passava ileso por qualquer uma de suas apresentações.

Ele era um cara tão gente fina que conquistou até mesmo o lendário B.B. King, a ponto de ele ter feito algo impensável: emprestado a sua mitológica guitarra "Lucille" para que Celso desse um 'canjinha' no show que ele fez no Rio de Janeiro em 1986.

Sim, uma das máximas do gênero diz que "é impossível tocar o blues sem estar triste". Mas como duvidar de que isto é papo furado quando Celso mostrou que sua força de vontade em se dedicar às suas paixões — o blues, o rock e a sua guitarra — não o impediu, mesmo com a doença em estado avançado, de subir em cima de um palco e arrasar em uma de suas derradeiras apresentações, como bem mostra o vídeo abaixo? Que ele sirva de exemplo para muitos…