Lulu Santos acerta na ousadia ao revisitar repertório do Roberto e Erasmo Carlos

Na Mira do Regis

Se existe algo do qual Lulu Santos jamais possa ser acusado é o ser um “artista acomodado”. Muito pelo contrário, ele sempre está se metendo ma várias barcas – algumas bem furadas, diga-se de passagem – na hora de se expressar como cantor, compositor e instrumentista. E seu mais recente disco, Lulu Canta & Toca Roberto e Erasmo é mais uma prova desta inquietude.

Ao contrário do que faz a grande maioria de artistas que vez por outra revisitam a obra da mais famosa dupla da música brasileira, Lulu simplesmente mexeu – e muito – em todos os arranjos das canções em relação ao que foi gravado originalmente por Roberto e Erasmo. Assim, a primeira audição do álbum torna-se uma experiência extremamente excitante tanto pela surpresa causada pelas novas abordagens como pelo respeito em relação às linhas melódicas dos vocais.

As referências sonoras empregadas por Lulu ao longo do disco são as mais diversas. “As Curvas da Estrada de Santos” foi simpaticamente arranjada como aquelas baladas típicas dos anos 50 e traz uma fugaz participação de Késia Estácio, uma das candidatas apadrinhadas por Lulu no programa The Voice. Aproveitando a fonte da referida década, Lulu mostra que domina muito bem a linguagem do rockabilly suingado em “Minha Fama de Mau”, algo ainda mais evidenciado pelo certeiro solo de guitarra feito por ele.

É claro que Lulu injeta em cada arranjo uma atmosfera sônica cheia de “polens roqueiros”, como em “Sou uma Criança Não Entendo Nada”, transformado em um daqueles tipos de rocks mais safados que existem – no bom sentido, claro -, com uma “vibe” meio southern com slides de guitarra que evidencia o fato de que Lulu ouviu muito Allman Brothers na vida. Da mesma forma, “Festa de Arromba” se transformou em uma quase homenagem a Chuck Berry e “Quando” tem uma levada boogie blues rock mais cadenciada, nada frenética, que encaixou muito bem na canção. Ele nem se faz de rogado em termos de liberdade de ação e até volta à levada original por alguns compassos lá no meio da música.

Mas as surpresas mais divertidas aparecem quando Lulu ousa ainda mais. Isto vale para as transformações de “Se Você Pensa” em um “xote-reggae” e “Como é Grande o Meu Amor por Você” em algo muito próximo de uma “valsa/blues”. Outros belos achados foram a inclusão de uma levada reggae ensolarada em “Eu Te Darei o Céu” e as pinceladas de soul em “É Preciso Saber Viver”. Isto sem contar a cafoníssima “Emoções”, que recebeu um tratamento tão delicado que acaba soando como uma “chanson française” abrasileirada.

Tudo aqui é perfeito? Não. “Você Não Serve Pra Mim”, com a participação do ótimo baixista Jorge Ailton nos vocais, é irregular, pois se acerta na pegada mais pop e cadenciada, erra quando os vocais aparecem em falsetes que beiram o insuportável. Só que tal equívoco se torna um detalhe menor quando você percebe que Lulu manteve a pegada de balada em “Sentado à Beira do Caminho”, mas acrescentou uma condução rítmica mais rebuscada e criativa, além de vocais perfeitamente contidos, soando quase como – guardadas as devidas proporções, obviamente - uma mistura de Steely Dan com Doobie Brothers. E também vale um ponto positivo o balanço irresistível, conduzido por um piano Fender Rhodes espertíssimo, de “Não Vou Ficar”, esta com a participação de outro candidato do The Voice, Marquinho Osócio.

Se quiser ouvir o disco na íntegra, clique aí embaixo. Você vai ter a exata noção de que Lulu Santos, quando erra, erra para valer, mas quando acerta... Sai debaixo!