Temos o “nosso Michael Jackson” e seu nome é Xuxa

O enorme fardo da fama excessiva costuma cobrar seu preço de maneira arrasadora: fazendo com que o "alvo" se feche como uma concha gigante e passe a viver trancafiado em um castelo de fantasia, criado para acomodar uma realidade paralela bem quentinha e aconchegante, sem críticas, sem dissabores, sem aborrecimentos.

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No mundo luminoso e 'baba ovo' da TV e do show business em geral, é comum encontrar gente que se refugia no sucesso do passado — e suas infinitas adulações — para não ter que lidar com a realidade. Foi assim com Michael Jackson e tantos outros. Foi e ainda é assim com Xuxa.

Em seu depoimento meticulosamente editado ao Fantástico no domingo (20), ela externou grande parte da bizarrice de sua vida, não sem antes tomar cuidado de não revelar assuntos que não conviessem para a ocasião. Havia algo de beatificado em seu rosto, em suas expressões. Seu aparente "sofrimento" durante o depoimento me pareceu de uma sinceridade muito, mas muito enganosa, como se realmente acreditasse que estava abrindo o seu coração diante das câmeras de modo genuíno. Nada é tão artificial quanto isto no mundo das novelas.

Decepções amorosas todo mundo tem, mas Xuxa falou disto como se os romances com Ayrton Senna e Pelé fossem contos-de-fada que não deram certo por causa de um destino "malvado".

Nem critico o fato de ela só agora revelar que foi abusada quando era criança em inúmeras ocasiões por gente conhecida. Seu trabalho assistencial talvez precise de um "exemplo de dentro" para fazer com que outras pessoas não tenham medo de denunciar abusos de este tipo. Neste sentido, ela foi corajosa, embora muito tardiamente para quem decidiu se levantar contra isto.

Agora, está na cara que isto foi uma sórdida tentativa de alavancar a audiência de duas atrações da Rede Globo de uma vez só: o caidaço Fantástico, que não consegue sequer escapar da gozação pelo fato de o jogador Herrera, do Botafogo, recusar a escolher a "música dos três gols", e o próprio programa de Xuxa.

Consigo ver a cara de satisfação dos executivos da emissora antes e depois da exibição do programa, esfregando as mãos de um modo sórdido e salivante, quase orgásmico, tão odioso quanto a atitude dos molestadores da própria Xuxa. Quase chego a apostar que ela vai aparecer em TODOS os programas da Globo, como que fazendo uma via sacra de penitências, arrependimentos, olhos marejados e fofocas baratas.

Infelizmente, vale qualquer coisa nos dias de hoje para se conseguir um mísero ponto a mais de audiência. E infelizmente, a própria falta de escrúpulos dos artistas e subcelebridades contribui muito para isto.

Já disse isto uma vez em um programa de TV e todo mundo ficou horrorizado, mas ninguém discordou: Xuxa e suas paquitas foram um dos maiores estímulos à pedofilia que já vimos na TV! Porra, botar menininhas de 14, 15 anos , com shortinhos curtíssimos, bundinhas arrebitadas, pernas maravilhosamente torneadas, loirinhas, serelepes, todas a serviço de coreografias ridículas e subservientes a um "rainha" com o mesmo estereótipo e igualmente infantilizada mesmo já sendo adulta é o quê? Um manifesto pela cultura no Brasil? Qualé...

Foi a partir daí que as crianças se sentiram impelidas a uma sexualidade precoce e, claro, ao consumismo desenfreado, um processo que parece não ter volta ou fim e que afetou, afeta e vai afetar todas as gerações futuras.

O que a - realmente linda em termos estéticos - Xuxa de hoje e a Rede Globo fizeram no domingo passado foi usar um "confessionário televisivo" para trazer de volta a fama — e a audiência — do passado. Para isto, valeu até inventar uma patética história de proposta de casamento feita pelo staff do Michael Jackson. Aliás, o próprio Michael usou a mesmíssima estratégia — depoimentos "emocionados" e "verdadeiros" — na época em que foi acusado de pedofilia e estava no fundo do poço em termos financeiros.

Triste e deprimente, não?

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