Quem pediu a volta do No Doubt?

Na Mira do Regis

Há onze anos nossos ouvidos estavam sem ouvir uma nota sequer desta turma. Neste período, a única exceção foi o assassinato de uma linda canção do Talk Talk, "It's My Life", que acabou incluída na coletânea The Singles 1992-2003, um apanhado das canções mais vagabundas que você pode imaginar.

Depois de começarem a carreira tentando aprender a tocar ska, o quarteto formado pela vocalista Gwen Stefani, o baixista Tony Kanal, o guitarrista Tom Dumont e o baterista Adrian Young conseguiu fazer com que o álbum Tragic Kingdom, lançado em 1996, se tornasse onipresente nas paradas. Graças a um "impre$$sionante" apoio das MTVs, que na época ainda eram levadas em consideração como formadores de opinião de gente que não estava muito acostumada a pensar por si próprias.  O resultado foi que uma música ridícula como "Don't Speak" virou hit e a salada pop/rock/dance/reggae/ska de araque finalmente cozinhou o cérebro da molecada abestalhada.

Alguns discos depois - incluindo o único álbum realmente bom que a banda gravou, Rock Steady, lançado em  2001 e curiosamente o último antes da longa pausa que a banda fez a partir de 2004 -, minados pelo ego gigantesco de Stefani e incapazes de segurar a onda do sucesso, cada integrante foi para o seu lado. A cantora platinada bem que tentou, mas não conseguiu nada além de nos torturar com seus discos ridículos em carreira solo, um pior que o outro, a tal ponto que logo veio o descrédito por parte da "crítica especializada" que antes babava ovo para qualquer coisa que ela fizesse.

Mas como nada é tão ruim que não possa piorar e todo mundo precisa — com justiça! - pagar as suas contas, a banda não apenas voltou às atividades como acaba de soltar um dos discos mais execráveis dos últimos tempos, Push and Shove.

É, ninguém pediu, mas o No Doubt voltou.

O motivo da inclusão deste álbum na categoria "Meus Deus, que Merda é Esta?" é o punhado de músicas horríveis que os quatro 'meliantes musicais' entregaram ao público sem o menor pudor. Entregando letras que são autênticos hinos para frustrados sentimentais de miolo mole, a banda se mostra musicalmente vazio, sem inspiração e indigna de qualquer tipo de elogio.

"Settle Down" tem introdução ao estilo "Oriente misterioso", tipo trilha de programa que vende tapetes "persas" na TV, o que acentua ainda mais a sensação de que a canção parece um troço que acabou ficando de fora de algum disco recente da Shakira. "Looking Hot", "Gravity", "Undercover" e "One More Summer" soam como se Madonna tentasse ser roqueira depois de ouvir toda a discografia da Kylie Minogue. Quando surgem as baladas então... Meu Deus! "Easy" e "Undone" são daquelas capazes de levar até mesmo os fãs do Roxette ao vômito compulsivo. Tudo soa patético e com discursos totalmente abjetos.

Já vi gente chamado um troço como "Sparkle" de "reggae", o que certamente fez o cadáver do Bob Marley dar 584 piruetas dentro do caixão. Pior ainda é a imperdoável faixa título, na qual a banda soa como um cover do Black Eyed Peas formado apenas por integrantes gripados.

A banda só acerta um pouco a mão nas duas últimas canções do disco, mas aí a coisa toda já acabou, né? Infelizmente, nem mesmo as simpáticas "Heaven" e "Dreaming the Same Dream" deixam de propiciar uma inenarrável sensação de alívio ao final da audição.

Olha, pelo menos o No Doubt não deixou de me impressionar por um aspecto. Com este Push and Shove, Gwen e seus cúmplices atestaram mais uma vez como uma banda pode construir uma discografia baseada em uma total perda de tempo e desperdício de grana, produção e de trabalho de produtores e outros profissionais envolvidos. Incrível...