Descanse em paz, Hélcio Aguirra

Na Mira do Regis

Ontem foi um dia muito triste. Não apenas para mim, pois perdi um grande amigo, mas também para qualquer pessoa que conhecesse Hélcio Aguirra, que fosse amigo também ou apenas um fã de seu trabalho.

Ele foi embora repentinamente, aparentemente por causa de um ataque cardíaco enquanto dormia. Melhor assim, sem sofrimento. Seria muito injusto ver um cara bacana como ele - sempre com um sorriso na boca e com uma propensão a falar “abobrinhas” em divertidos papos pela noite paulistana - deitado em uma cama de hospital, sofrendo com dores e não podendo fazer aquilo que mais gostava: tocar guitarra. E ele foi um guitarrista dos bons. Ou melhor, um dos mais incríveis guitarristas que este país já viu.

Ele era a personificação mais roqueira que o instrumento poderia ter por aqui, uma terra na qual fazer heavy metal nos anos 80 era visto com escárnio por quem só idolatrava as bandas lá de fora. Pois o cara teve a manha de fazer parte de uma banda – Harppia - que teve o peito de fazer heavy metal com letras em português e ainda por cima criar riffs tão marcantes quanto àqueles que ouvíamos de bandas internacionais em um álbum que é quase uma unanimidade positiva para quem gosta de metal: A Ferro e Fogo, de 1985.

Depois disto, naquele mesmo ano, Hélcio reuniu outros amigos e formou um grupo importantíssimo para a história do rock nacional. Não aquele rock que aparecia nos programas do Chacrinha e nos “Globos de Ouro” da época, muito mais new wave e alegrinho, sem peso. Com o Golpe de Estado, Hélcio deu a esperança a todo moleque metido a guitarrista e com espinhas na cara que era possível injetar distorções musculosas e solos melódicos dentro de um hard rock genuinamente nacional. Ele era simplesmente a resposta perfeita contra o enxame de guitarristas bunda moles “fritadores de notas” que se achavam o máximo em sua masturbação egocêntrica. Sem contar o seu profundo conhecimento a respeito de amplificadores e válvulas... E assim foi por quase trinta anos!

Sem qualquer sombra de dúvida, ele e seu grupo mereciam ter melhor sorte na carreira, mesmo dentro de um mercado musical em que sempre imperou a descartabilidade próxima ao retardamento mental. Mas agora não é hora de reclamar disto, de ficar com “mimimi” a respeito do que poderia ter acontecido se as pessoas realmente reconhecessem a validade do trabalho do Hélcio. Sei que ele foi o ídolo de muita gente e é isto o que importa no final: o legado que a gente deixa para quem fica zanzando pelo planeta.

Adeus, meu amigo...