Deixem o espírito de Chorão descansar em paz

Na Mira do Regis

Assim como todo mundo, fui pego de surpresa com a morte de Chorão.

Sei que você hoje vai ler um monte de matérias a respeito do falecimento do cara - inclusive tem umas boas aqui mesmo no Yahoo! – e que a maioria vai trazer uma retrospectiva da carreira do cara, suas polêmicas, seus sons, bla bla blá, bla bla blá, bla bla blá... Por isto, vou me abster de entrar neste campo e me deter em pequenas observações que fiz em relação a ele e o seu grupo.

Entrevistei Chorão em duas ocasiões, quando fiz extensas matérias com os músicos de sua banda nos tempos em que fui editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera, todas publicações voltadas ao universo dos instrumentistas. Em ambas as ocasiões, saquei que o vocalista era um cara muito boa praça, divertido e desbocado, daqueles tipos perfeitos para passar a tarde inteira em um boteco falando mal de todo mundo no meio artístico a bordo de gargalhadas e entornando galões de cerveja. E também percebi que ele tinha uma forte personalidade pela maneira como defendeu alguns de seus pontos de vista. É claro que isto me causou boa impressão. O que pode ser pior que entrevistar um artista bunda-mole e politicamente correto, que não quer se comprometer ao emitir suas opiniões e acha tudo “lindo e maravilhoso”? Um saco, né?

Já o som da banda, calcado em infinitas horas de dedicação a ouvir discos de punk hardcore, ska e hip hop, mais o mergulho dentro do universo skatista - por intermédio do próprio Chorão, um dedicado adepto do esporte -, fez com que os caras arrebanhassem um respeitável séquito de fãs, cuja idade mental nunca ultrapassou os 14 anos de idade. Não para mim, que já nasci velho, mas para a molecada, as canções do Charlie Brown Jr. – e notadamente as letras de Chorão - diziam muito.Talvez porque o vocalista fosse realmente um “menino crescido”.

Bem como lembrou o colega André Barcinski em seu blog Uma Confraria de Tolos, na Folha Online, Chorão e seu grupo fizeram parte de uma geração do rock nacional surgida nos anos 90 – inclua aí os Raimundos, por exemplo – que não fizeram a menor questão de “pedir a bênção” da velha MPB capitaneada por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento.

Se eu pegar cada disco que o Charlie Brown Jr. gravou até hoje, consigo pinçar apenas umas duas ou três canções em cada álbum que sejam exemplos daquilo que considero como “músicas legais” – e olhe lá. Por isto, sei que vou ficar puto da vida ao ler colegas da imprensa que jamais gostaram da banda tecendo uma enxurrada de elogios aos discos, louvando Chorão como um “grande poeta de sua geração” e outras barbaridades. Este tipo de “canonização” que todo artista recebe quando morre ainda me deixa de saco cheio. Vide o que aconteceu com Renato Russo, Cazuza e Kurt Cobain, só para citar exemplos mais recentes de glorificação indevida.

Só peço a Deus que a morte de Chorão não gere aberrações como homenagens no Fantástico, discos em tributo ao som da banda e moleques usando camisetas com a fisionomia do vocalista no rosto do Che Guevara. Deixem o espírito do cara em paz...