Se hay autoritarismo, soy contra

Amigo Gay


Esta semana eu senti vergonha de ser brasileiro. Sério. Como há muito tempo não acontecia, tive vontade de me disfarçar de estrangeiro, adotar um sotaque gringo e fazer cara de indignação e surpresa diante da insinuação de ter nascido na terra brasilis. Na raiz de todo esse constrangimento está a forma selvagem com que a blogueira cubana Yoani Sánchez foi recebida pelos nossos conterrâneos em sua passagem por algumas cidades do país.

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Sob acusações de ser espiã da CIA, traidora da Revolução e agente do imperialismo “estadounidense” (existe palavra mais ridícula do que essa?), Yoani foi impedida de dividir sua experiência de como é viver sob o regime autoritário chefiado inicialmente por Fidel Castro e posteriormente assumido por seu irmão Raul. A blogueira foi arrancada da posição de homenageada em eventos sobre liberdade de expressão e direitos humanos e catapultada para o papel de vilã por uma turba de pseudointelectuais e defensores de uma ditadura que se arrasta por décadas e que isola os cubanos do resto do mundo, condenando a população daquele país à pobreza que, se não é extrema, é muito maior do que a maioria de nós julgaria humanamente aceitável.

O que mais me estranha nessa história toda nem é a defesa pública de uma ditadura, ou a admiração a um regime autoritário por pessoas que desconhecem suas falhas, uma vez que só entraram em contato com ele por meio de livros de história e pelo relato romantizado de turistas. A parte mais bizarra disso tudo é a agressividade, a fúria com a qual essas pessoas atacaram Yoani por tornar público algo que todos nós sabemos, embora alguns prefiram ignorar: a população de Cuba tem suas liberdades cerceadas pelo Estado. Como se ela tivesse cometido um crime ao apontar o problema de dentro para fora.

Ao que tudo indica, os partidários de Fidel admiram tanto o regime dele que passaram a acreditar que posicionamento se defende na força e no grito e não com debate e argumentação. Sabe gente, tanta coisa boa em Cuba, como a universalização do ensino e saúde de qualidade, os charutos e os mojitos, e a gente vai copiar justamente a parte que eles mesmos deveriam se envergonhar. Não estou dizendo que tudo aqui é lindo, limpo e eficiente. Também temos problemas sistêmicos que precisam ser resolvidos e uma mudança na ordem social viria bem a calhar. O que não dá é para enfiar as coisas goela abaixo dos outros, porque o problema nunca é ser contra ou a favor: é não haver espaço para diálogo.

Por fim, fica a mensagem da amiga Flavia Braz, que denuncia com muito mais talento do que eu a incongruência, a miopia e a hipocrisia desse bando de revolucionários de butique que, se pudessem, financiariam a Revolução com o cartão de crédito internacional pago pelo pai. Desde que, é claro, ela acontecesse em algum lugar bem distante do alto de Pinheiros.

Eles andam com a barba por fazer e um furo discreto e proposital na camiseta que de velha só tem a intenção de assim se parecer. Falam mal da Globo, da elite (?) e dos Estados Unidos. Com whisky 12 anos brindam a revolução cubana em meio a muvuca da Vila Madalena.

Bebem para engolir e entorpecer o ‘pretinho atrevido’ que condena de forma ‘vil’ a formação de quadrilha, a corrupção. ‘Ele foi 'instrumento de vingança' da direita’, grita o outro empunhando o copo e se equilibrando na cadeira do bar caro com cara de bar barato.

Pagam com cartão de crédito. ‘Pode incluir os 10%, chefia’. O carro reflete as feições dos amigos que abraçados cambaleiam juntos entoando o hino da internacional comunista. Trôpegos se apoiam para dividir o cigarro, os sonhos de mudar o mundo, acabar com a direita e pagar o vallet. ‘Vinte reais, amigão’.

No domingo embarcarão para Cuba. Poderiam estar na Disney – de novo -, ou tentando novamente aquela descida impossibilitada pelo excesso de neve em Aspen. Mas preferem a ilha e seus moradores educados, uniformizados e pobres.

Trarão dezenas de retratos de Che e algumas caixas de Cohiba. Passarão alguns dias em Havana para desfrutar da música, dos mojitos e das belas morenas que nunca tomaram banho de piscina. Voltarão contando que lá todo mundo tem educação boa e gratuita, que a saúde é de primeira, tal qual as morenas. E que mergulhar em Cuba foi uma das experiências mais fascinantes de toda sua vida.

Esquecerão de dizer, por fim, que nas praias de areia branca e mar azulzinho os cubanos só entram carregando bandeja. Mas quem se importa? ‘O whisky estava barato no free shopping’”

*Tá com dúvida se casa ou compra uma bicicleta? Não sabe se liga ou não para o pretê do escritório? Precisa de uma dica de receita para impressionar os amigos? Tem alguma história boa para dividir? Quer jogar conversa fora? Manda um e-mail para amigo_gay@yahoo.com.br. Quem sabe não eu não tenho um bom conselho para te dar.