Dividir a conta do motel: se o prazer é dos dois, porque os gastos seriam de um só?

Então você está lá, curtindo aquela sensação de relaxamento e tranquilidade que a gente sente depois de uma sessão bacana de sexo. Você toma um banho gostoso e se arruma meio chateada porque o período do motel está quase acabando e você e o gatinho vão ter que voltar para o mundo real. Na saída do estabelecimento, uma surpresa: o sujeito vira para você e pergunta se você pagar a sua parte com cartão ou dinheiro. Como você reage? A)Paga numa boa; B) Paga, mas deixa claro que não curtiu a ideia; C) Ri da cara dele e se faz de loca, afinal, ele só pode estar brincando se acha que você vai pagar o motel; D)Paga, mas nunca mais olha na cara do sujeito. Sinto informar, minha cara, mas se você escolheu qualquer alternativa que não a letra A você sofre de um caso incontestável de machismo internalizado.

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Não existem respostas certas quando o assunto é a forma como nos relacionamos com as pessoas. No entanto, as escolhas que fazemos e as posturas que assumimos dizem muito a respeito da forma como vemos o mundo. Muitas vezes, sem nem perceber, estamos repercutindo e reforçando conceitos com os quais não concordamos simplesmente por repetirmos alguns comportamentos sem parar para pensar sobre o que eles realmente significam.

Eu vivo escrevendo sobre a construir um mundo em que homens e mulheres coexistam como seres iguais em deveres e direitos. Um mundo no qual não há espaço para nenhuma ideologia que pregue a fragilidade feminina ou a supremacia masculina. Um mundo em que a única coisa que separa o que homens e mulheres podem ou devem fazer é a vontade de ambos. A ideia de que é o homem quem tem que pagar pelo jantar, pelo ingresso do cinema, pelo taxi, pelo motel ou qualquer outro coisa que surja durante o tempo que o casal está junto é ir na contramão disso tudo. Esse tipo de discurso reforça a ideia de que o cara é o único provedor e a moça não tem condições de andar por aí com as próprias pernas. Sério, que em pleno século XXI, ainda tem cara que curte a ideia da donzela indefesa presa na torre e ainda tem mulher que se presta a esse papel. Preguiça.

Achar absurda a ideia de rachar a conta do motel dá a impressão que a parte feminina do “trato” é dar prazer para o homem e a masculina é financiar o lance. Algo como “Se você quiser transar comigo vai ter que arcar com os custos da experiência”. Não sei para vocês, mas isso não faz o menor sentido para mim. Afinal, se o prazer foi dos dois, porque só um tem que abrir a carteira?

Achar que o cara é mão de vaca ou pobretão por estar querendo dividir as contas e que ele não deveria te chamar para sair se não tiver bala na agulha é o equivalente feminino de gritar “gostosa” para a moça parada na calçada. Ou seja, você está fazendo isso muito errado. Se para você a grana é condição indispensável para rolar um encontro com o pretê não reclame ou estranhe se ele achar que pode se comportar como um cretino só porque tem dinheiro.

Entendo que, muitas vezes, pagar tudo é uma tentativa do cara de ser gentil. É legal poder levar alguém que você gosta a um restaurante bacana ou proporcionar uma experiência legal para quem está ao nosso lado. O problema não é o gesto, é a obrigação do gesto. Porque é ela que reforça o machismo. Não precisa se ofender ou começar uma discussão sobre o papel dos gêneros na sociedade pós-moderna se o sujeito se oferecer para pagar o cinema. Ele só quer passar uma boa impressão. Aceite a oferta, mas compre a pipoca. Tenho certeza que ele vai curtir a sua postura.

Ok, nem sempre a situação é tão simples. Nesses casos, conversar sempre é um bom caminho a seguir. Sempre vale dizer que você topa arcar com uma parte dos gastos. Se você estiver sem grana, penso que seja melhor avisar. Assim o sujeito se programa e pensa em um programa que ele consiga pagar. E caso ele diga que não rola porque a grana está curta, sem essa de denegrir a imagem do cara dizendo que ele é um pobretão. Afinal, a não ser que você tenha pai rico ou seja uma profissional super bem sucedida, você também tem que rebolar para que o salário dure o mês todo. Por que com ele teria que ser diferente?