Em meio a crise causada pela pandemia, Black Friday é vista como oportunidade

Davi Rocha
·Editor de Tamo Junto e Comida, HuffPost Brasil
·7 minuto de leitura

Uma das datas mais esperadas do ano finalmente está chegando: a Black Friday. Se todos os anos a última sexta-feira de novembro já é esperada com ansiedade por milhões de consumidores, neste ano a coisa não vai ser diferente.

De acordo com o Google Trends, o interesse pelo assunto subiu mais de 125%. Na manhã da quinta-feira (19), a ferramenta apontava o aumento significativo das buscas pelos seguintes termos: “quando começa black friday”, “black friday ponto frio”, “black friday brasil data”, “promocao black friday” e “adidas black friday”. Estes dados podem variar de acordo com a data da busca.

No Instagram a hashtag #blackfriday2020 já tem mais de 225 mil publicações neste domingo divulgando promoções de roupas, panelas, caixas de ferramentas, viagens, cupons de descontos para diversos sites, videogames, alimentos, entre outra infinidade de produtos.

No Twitter diversos termos relacionados ao evento já foram parar nos Trending Topics, como “Kindle” e “R$ 1,99″, que se referem, respectivamente, ao preço do leitor da Amazon e o preço da assinatura do serviço Kindle Unlimited. Até o TikTok tem conteúdo sobre a Black Friday, as tags #blackfriday e #blackfridaybrasil acumulam mais de 500 milhões de visualizações.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a expectativa é de que, neste ano, a data movimente R$ 3,74 bilhões no setor e seja o recorde de vendas no varejo nacional. Se confirmada, será um crescimento de 1,8% em relação ao ano passado, quando o faturamento marcou R$ 3,67 bilhões.

Qual a influência da pandemia na Black Friday de 2020?

Mas como é possível que se venda tanto em meio a uma pandemia como a que vivemos neste ano? Vale lembrar que as pessoas perderam seus empregos ou tiveram suas jornadas de trabalho e salários reduzidos. No Brasil atualmente são 13,8 milhões de desempregados, 31 milhões de pessoas trabalhando na informalidade e 5,9 milhões de desalentados (aquelas pessoas que já desistiram até de procurar emprego), de acordo com dados o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

(Photo: Anna Ostanina via Getty Images)
(Photo: Anna Ostanina via Getty Images)

Mesmo com este cenário, a expectativa é alta na vendas e no consumo, mas sem longas filas e lojas físicas lotadas. Pedro Eugenio, fundador e presidente da associação BlackFriday.org.br, acredita que “vai ser totalmente diferente do que a gente estava acostumado. Aquela loucura das pessoas correndo pelas lojas, pegando, tumultuando ou gerando filas. A gente deve enxergar uma nova Black Friday, muito forte no digital”.

A grande tendência também se enxerga por causa da própria pandemia, já que, para se proteger do vírus, muita gente passou a consumir mais pela internet, o que levou ao crescimento nos números. A CNC projeta que houve um crescimento de 45% nas vendas pela internet entre março e setembro deste ano. A expectativa é de que as vendas na Black Friday tenham aumento de 61,4% em relação ao ano passado.

Mas e o cenário de crise não afetaria o poder de compra dos consumidores? Segundo Eugenio, as vendas da Black Friday crescem em momentos bons ou ruins da economia do País, e acabam impactando outras datas fortes do comércio, como o Natal.

“Quando a gente vê perda de poder aquisitivo dos consumidores, a Black Friday é vista como uma oportunidade de comprar aquele item que a pessoa precisa com desconto maior. Neste caso, a data acaba diminuindo um pouco a venda de outros períodos. Quando o momento é bom, a Black Friday faz até crescer as vendas de Natal.”

E as tais ‘Black November’ valem a pena?

Hoje em dia não é incomum o mês de novembro começar com ofertas de Black Friday. As marcas fazem de tudo para aproveitar para vender mais que o normal, destaca Pedro Eugênio: “quem se preparou, se organizou e criou essa presença digital para o consumidor já está fazendo uma Black Friday por dia”. Isso fica claro pela quantidade de promoções envolvendo a data de diversas marcas.

(Photo: Panuwat Dangsungnoen via Getty Images)
(Photo: Panuwat Dangsungnoen via Getty Images)

Eugênio explica que este cenário é construído pois existe um comportamento do consumidor que é caracterizado como “retração pré-Black Friday”, que é quando o consumidor para de comprar para esperar as ofertas da data. ”É muito ter uma queda muito forte nesse momento. Para tentar reverter um pouco essa lógica, as lojas começaram a tentar entregar a Black Friday antes da data principal, antecipando as promoções e para poder dar conta da demanda de pessoas”, detalha.

Esse comportamento se dá pois o brasileiro está amadurecendo e entendendo como funciona esse grande dia de ofertas. Isso pois a Black Friday começou no Brasil só em 2010.

Se você não é tão jovem, deve lembrar que, por muitos anos, a Black Friday era algo que o brasileiro via só através de reportagens que relatavam a data nos EUA – com aquelas filas enormes de americanos buscando as melhores ofertas. Não era incomum ver vídeos com empurra-empurra e brigas entre pessoas disputando TVs, videocassetes (lembra deles?) ou micro-ondas.

No Brasil a primeira edição foi tímida, com participação de poucas marcas. Como era algo novo, por alguns anos empresas e lojas não estavam preparadas para venderem tanto em um único dia. Além disso, acontecia a prática que ficou conhecida como Black Fraude, quando os produtos aumentavam muito de preço nas vésperas do evento para fingir um desconto e depois ganhavam um falso desconto.

“Nos primeiros anos o consumidor tinha a sensação de que era fraude, um erro. Por exemplo, o anúncio da TV era difícil comprar online. Tudo isso era caracterizado como fraude. O consumidor falava que era fraude, mas era uma dificuldade de atender muita gente neste momento. Houve esse amadurecimento e planejamento”, lembra Eugênio.

“Teve amadurecimento por parte do consumidor, do varejo, da indústria, de todo o ecossistema que atende esse mercado. Inclusive de logística, pagamento e antifraude. É muito comum uma pequena, média e grande loja ter um faturamento trinta vezes maior do que em um dia normal.”

Tiago Baeta, fundador da E-Commerce Brasil, destaca também que esta Black Friday vai ser diferente pois o mercado brasileiro, mesmo com a pandemia, está mais preparado que nunca para a data que se tornou a principal para o comércio eletrônico.

“O mercado está muito mais maduro para encarar a Black Friday. Por exemplo, o investimento de logística dos grandes e-commerces foi muito alto. A entrega e a qualidade dos serviços vai ser muito alta. Vai ser recorde de vendas e recorde na qualidade dos serviços prestados”, explica. Além disso, a data é a mais importante para o comércio online, ultrapassando o Natal em volume de vendas.

O que esperar das ofertas de 2020?

Uma pesquisa do Instituto Ipsos apontou que 58% dos brasileiros pretendem fazer compras durante a Black Friday e o top 5 das preferências do público vai para produtos de tecnologia; eletrodomésticos; roupas e calçados; produtos de beleza; e móveis, decoração e casa.

(Photo: S847 via Getty Images)
(Photo: S847 via Getty Images)

De acordo com Baeta, as expectativas de descontos agressivos não são tão altas, visto que, por causa da pandemia, muitas marcas tiveram de trabalhar com ofertas o ano todo. “A gente ficou em Black Friday cinco, seis meses, por causa da pandemia. Vendeu-se muito e existe um desabastecimento do mercado todo. Então não existe sobra de produtos para queimas tão grandes de preços. Porém, sim, vamos ter descontos e vários produtos com serviço de qualidade muito maior.”.

Ao mesmo tempo, graças às adaptações do comércio eletrônico, necessárias por causa da pandemia, novas categorias entraram com força no e-commerce brasileiro, é o que detalha Baeta. “Supermercados, farmácias, casa e decoração, por exemplo, ganharam força. Videogames, mobilidade, elétrica, que não eram tão fortes, devem distribuir mais. Neste ano não deve ficar mais tão concentrado como era antes. E categorias novas devem assumir destaques.”

Segundo um estudo da CNC com mais de 2.000 preços de produtos nos últimos 40 dias, consoles de videogames, notebooks, games para PC, calças masculinas e aspiradores de pó são os produtos com mais chances de terem descontos. Alguns itens batem com os mapeados pela pesquisa da Ipsos.

Se quiser aproveitar bem as ofertas, a dica mais importante e mais certeira é escolher antecipadamente quais produtos você realmente precisa e quer comprar e monitorar os preços por alguns dias para saber se vale a pena o investimento.

(Photo: sobolicha11 via Getty Images)
(Photo: sobolicha11 via Getty Images)

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.