Bienal de São Paulo esvazia pavilhão no Ibirapuera para fazer ecoar vozes ancestrais

CLARA BALBI
·4 minuto de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO - SP - BRASIL - 13.11.2020 -  A Bienal de Sp. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO - SP - BRASIL - 13.11.2020 - A Bienal de Sp. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lar de eventos que costumam atrair multidões, como a SP-Arte, é estranho ver o pavilhão Ciccillo Matarazzo, no parque Ibirapuera, vazio como agora. O branco impera. As curvas dos mezaninos parecem ainda mais impetuosas, formando o que parece de longe uma fortaleza desenhada à mão livre.

Esse vazio espacial é central na concepção de "Vento", espécie de prévia da 34ª Bienal de São Paulo que tem início neste fim de semana.

Para explicar a mostra, Jacopo Crivelli Visconti, diretor artístico desta edição, faz um paralelo com a obra que batiza a mostra - "Wind", da pioneira da performance americana Joan Jonas. Da mesma forma como no vídeo os bailarinos ilustram a força do vento ao tremer de frio, na exposição as poucas obras espalhadas por quase 25 mil metros quadrados chamam atenção para a distância entre elas.

O vazio não faz, porém, com que o visitante se sinta isolado. Como boa parte dos trabalhos fazem uso de sons - quase dois terços dos 21 artistas participantes exibem instalações sonoras e vídeos -, ele parece estar o tempo todo acompanhado de vozes.

A maioria delas é indecifrável. É o caso dos assobios que a colombiana Gala Porras-Kim faz ecoar no espaço, na verdade um diálogo entre indígenas zapoteca. Como na língua deles o sentido das palavras depende do tom em que são enunciadas, os assobios eram usados para enganar os colonizadores.

Ou ainda dos cantos que o povo maxakali usa para preservar a memória dos seres que eles perderam, enumerando, por exemplo, dezenas de subespécies de animais, muitas delas extintas.

Os cantos, aliás, são um dos "enunciados" da mostra, objetos que não são obras de arte, mas dão pistas sobre os assuntos que estão no cerne desta edição da Bienal. O outro "enunciado" é um vídeo do sino de Ouro Preto, o único cujo repique lamentou a morte de Tiradentes e que, em 1960, foi levado para a inauguração de Brasília a pedido de Juscelino Kubitschek. Crivelli Visconti diz que ele serve como um chamado a refletir sobre como a história sempre se repete, mas de formas diferentes.

É uma ideia que perpassa muitos dos trabalhos ao redor. A brasileira Regina Silveira resgata uma série que produziu no auge da ditadura e que ressoa até hoje, em que projeta sombras deformadas de símbolos de uma identidade brasileira. A americana Deanna Lawson remixa uma canção ancestral com filmagens de grandes eventos organizados pela comunidade negra nos Estados Unidos. A sérvia Ana Adamovic reencena uma prática comum entre as crianças iugoslavas na época de Tito.

Vale lembrar que essa repetição também é uma das principais estratégias conceituais desta edição da Bienal.

Antes do coronavírus, a organização pretendia apresentar no pavilhão solos de três dos artistas participantes precedendo a abertura oficial. Também anunciou a realização de mostras individuais de outros participantes em cerca de 25 museus e espaços culturais da cidade no mesmo período da Bienal.

Com a pandemia, porém, só um dos solos previstos para o pavilhão foi aberto ao público, o da peruana Ximena Garrido-Lecca, inaugurado com uma performance do sul-africano Neo Muyanga. E só metade das exposições em instituições parceiras estarão em cartaz na época da Bienal, adiada para setembro do ano que vem.

Agora, o visitante sente um gostinho dessa proposta ao ver os mesmos trabalhos apresentados por Garrido-Lecca e Muyanga em fevereiro num novo contexto. E também ao avistar trabalhos de Antonio Dias e de Joan Jonas, ambos com retrospectivas em cartaz - ele a alguns metros do pavilhão, no MAM, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, ela na Estação Pinacoteca.

É uma "escala intermediária" entre os solos inicialmente programados e a Bienal principal, diz Crivelli Visconti. Ele ressalta, porém, que a experiência de visitar o pavilhão no ano que vem será bem diferente - cada uma das "peles" que recortam o espaço deve reunir mais trabalhos do que a exposição de agora inteira.

Todas as mudanças de rota ocasiadas pela pandemia foram incorporadas a "Vento", aliás. "De nenhum ponto de vista seria uma derrota para a gente dizer, como fazemos em várias legendas, que essa performance teria lugar, que essa exposição aconteceria", diz Crivelli Visconti.

Ele argumenta que a vontade de essa abertura sempre esteve impressa no projeto desta Bienal, norteada pela ideia de ensaio. "Então mesmo numa situação inesperada como a que vivemos, o projeto continuou fazendo sentido. Inclusive, acho que ele se tornou ainda mais pertinente do que prevíamos."

Paulo Miyada, braço direito de Crivelli Visconti na organização do evento, concorda. "Essa equipe foi anunciada no começo de 2019. Se você fosse pensar se era o momento mais tranquilo de pensar uma Bienal no Brasil, provavelmente diria que não. Cada vez ficava mais palpável o estado de emergência em que vivíamos", ele afirma.

"Depois, ainda tivemos a cidade coberta de cinzas, a pandemia, agora o Amapá está no escuro. Neste momento, justamente, é muito bom estar num espaço em que isso tudo possa ser discutido coletivamente. E agora que o público vai entrar nessa conversa, isso é muito forte. É nossa razão de ser."

VENTO

Quando: Qua., sex. a dom., 11h às 19h. Qui., 11h às 20h. Abertura sáb. (14). Até 13/12

Onde: Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera

Preço: grátis (agendamento p/ 34.bienal.org.br)

Performance: Paulo Nazareth apresenta uma performance de abertura nesta sex. (13), às 18h, transmitida pelo Instagram @bienalsaopaulo