Bienal de São Paulo: romances LGBTQIA+ ganham mais visibilidade no mercado literário

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Autores de romances LGBTQIA+, Juan Jullian, Clara Alves e Luiza de Souza falam sobre sobre retorno da Bienal do Livro de São Paulo. (Divulgação/Fernanda Machado)
Autores de romances LGBTQIA+, Juan Jullian, Clara Alves e Luiza de Souza falam sobre sobre retorno da Bienal do Livro de São Paulo. (Divulgação/Fernanda Machado)

A Bienal do Livro de São Paulo fez seu grande retorno no último sábado (2) após um jejum de quatro anos. Na programação, atrações para todos os públicos de leitores, com pautas cada vez mais plurais.

Essa é a primeira vez que o evento acontece após a tentativa de censura que ocorreu na Bienal do Rio de Janeiro, em 2019, quando o então prefeito da cidade, Marcelo Crivella (PRB), liderou uma tentativa de censura ao gibi “Vingadores - A Cruzada das Crianças”. A história entrou na mira dos preconceituosos por conter uma ilustração de dois garotos se beijando.

A resposta do público veio rapidamente, e não apenas esgotaram os quadrinhos da Marvel, como também se uniram para dar ainda mais visibilidade a obras escritas e protagonizadas por pessoas LGBTQIA+, movimento que se espalhou pelas redes sociais.

Juan Jullian, autor de “Querido Ex”, participava do evento quando viu a procura por seu livro, que até então estava publicado apenas em versão digital, disparou. “Lembro que quando eu cheguei em casa, achei que o sistema da Amazon tinha errado”, contou em entrevista ao Yahoo. “Foram mil download do e-book em um único dia. Até então, eu tinha um pouco mais de mil download, então fiz um dia dez vezes mais do que tinha feito em meses, parecia surreal”.

A obra passou 100 dias em primeiro lugar na lista de LGBTQIA+ da Amazon, ganhou ainda mais repercussão nas redes sociais e Jullian foi convidado para assinar um contrato de publicação com o grupo editorial Record.

Clara Alves, autora de “Conectadas”, também estava no evento e lembra de como foi difícil presenciar a tentativa de censura. “Foi horrível ver o quanto ainda precisamos lutar simplesmente pra sermos aceitos. Ver que não temos o direito de existir. De escrever histórias sobre quem somos, como amamos” disse.

De volta ao evento com “Romance real”, um conto de fadas entre duas garotas, que apresenta uma família real britânica sob uma ótica mais otimista, Clara ressalta a importância da representatividade não apenas na literatura, mas em todos os setores da sociedade. “Mais do que levar aos leitores um sorriso no rosto, você está oferecendo a esperança de um final feliz para pessoas que nunca tiveram a oportunidade de se enxergar nessas histórias. Você está oferecendo a chance de alguém sonhar com um futuro melhor, com um mundo mais respeitoso, com um amor simples, sem preconceitos, sem medo.”

“Romance real foi minha forma de trazer representatividade para os clássicos clichês que eu cresci lendo e assistindo, mas nunca entre pessoas LGBTQIAP+. Mais do que nunca, eu queria instigar: clichê pra quem?”, explicou. “Que pessoa LGBTQIAP+ se enxergou nos contos de fadas, nas comédias românticas das décadas de 1980, 1990, 2000, sem ser como o personagem secundário estereotipado e eternamente solteiro? Acredito que essa seja a contribuição de Romance real: ressignificar as histórias que até hoje sempre foram protagonizadas por pessoas hétero, cis, brancas, padrão.”

Essa é também a temática de “Arlindo”, HQ escrita pela ilustradora Luiza de Souza, mais conhecida na internet como @ilustralu. A história surgiu como webcomic que apresenta a história de um adolescente de uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte, que sonha encontrar seu lugar no mundo.

“É uma história sobre encontrar seu lugar no mundo e sobre perceber que quando a gente é uma pessoa LGBTQIA+ isso permeia a nossa existência inteira (família, amigos, escola, tudo), não apenas os nossos relacionamentos”, explica Luiza, que publicou o quadrinho pela editora Seguinte, em 2021. “Arlindo puxa você pela mão pra mergulhar na história e olhar o mundo com a perspectiva dele, gosto de pensar que não é necessário fazer parte da comunidade LGBTQIA+ pra se identificar com ele, ou com a mãe, a vó, a tia, ou os amigos dele. Acho que contribui como um exercício de empatia.”

A história foi criada depois do resultado das eleições de 2018, com a intenção de mostrar como o discurso de ódio era nocivo para crianças que ouviam. “Acredito que os leitores de Arlindo vão desde pessoas como eu, que cresceram sem ter espelhos como esse pra se enxergar quando eram mais jovens (e se empolgaram muito com os pontos de nostalgia), ao público mais novo que se vê nesses personagens e pode construir uma relação mais positiva com a própria história - e isso é a coisa mais incrível de reparar a cada review que o quadrinho recebe. O povo chega empolgado com as músicas de Pitty e Sandy & Junior e se surpreende com os momentos mais profundos da HQ”, brincou.

Em meio a tantas mudanças, Jullian classifica a Bienal de 2019 como transformadora e um ponto de virada para a literatura nacional. “Foi um episódio histórico. Eu nunca tinha visto tantos autores LBGTQIA+ juntos, me voluntariei para empacotar os livros na ação do [empresário e youtuber] Felipe Neto, assisti a mesa de autores LGBTQIA+, que acabou virando uma passeata. Estar lá com meu livro para o alto, com todos aqueles leitores, todos aqueles autores, no momento em que ainda estava começando, foi muito forte, muito potente e empoderador em um certo sentido. Me senti acolhido”, afirmou.

Depois de três anos, a nova edição da Bienal de São Paulo chega com gostinho de reencontro. “Vai ser um dos maiores eventos literários pós-pandemia e estou muito animada para (re)encontrar amigos e leitores de tantos lugares, conversar sobre livros e sentir de novo o acolhimento que só o mundinho literário consegue me dar. Vai ser incrível!”, completou Alves.

Luiza de Souza participou da Bienal do Livro de São Paulo nos dias 2 e 3 de julho em sessões de autógrafo na Arena Cultural e na Editora Seguinte. Depois do primeiro fim de semana Clara Alves também vai participar do evento nos dias 6, 7, 8, 9 e 10 de julho. Confira:

Já Juan Jullian marcará presença na Bienal nos dias 08, 09 e 10. Além de sessões de autógrafo, ele vai participar de uma mesa do Submarino sobre sua experiência como autor e roteirista.

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