Beyoncé faz 41 anos colocando a negritude no topo e reivindicando a House Music

Beyoncé completa 41 anos (Foto: Kevin Winter/Getty Images for The Recording Academy)
Beyoncé completa 41 anos (Foto: Kevin Winter/Getty Images for The Recording Academy)

Por João Vitor Borges (ojoaoborges)

Beyoncé Giselle Knowles-Carter, nascida em Houston, TEXAS, completa 41 anos de idade neste domingo (4), e com certeza não pretende parar. Em tempos em que o etarismo impera, Beyoncé fica mais velha e potencializa proporcionalmente suas habilidades fazendo história na música, cinema, moda e produção audiovisual.

A Queen B como costuma ser chamada pelos fãs, se consolidou como uma das artistas mais premiadas de todos os tempos e a multiartista preta mais influente de sua era. São mais de 118 milhões de álbuns vendidos segundo a Columbia Records; ganhou mais prêmios Grammys do que qualquer outro artista, sendo 28 prêmios no total, seus singles já foram 12 vezes número #1 na Billboard e todos seus álbuns solos ficaram em primeiro lugar.

Além disso Beyoncé acumula diversas turnês super lucrativas e milhões de fãs no mundo todo, somente no Instagram a diva acumula mais de 274 milhões de seguidores.

Beyoncé durante cerimônia do Grammy em Los Angeles, nos EUA em 14 de março de 2021(Foto: Kevin Winter/Getty Images for The Recording Academy)
Beyoncé durante cerimônia do Grammy em Los Angeles, nos EUA em 14 de março de 2021(Foto: Kevin Winter/Getty Images for The Recording Academy)

E trilhando o sucesso por quatro décadas, Beyoncé está pronta para tomar a pista de dança de volta, surge poderosa na capa de seu novo álbum intitulado RENAISSANCE com uma referência a lenda da Lady Godiva, que sofre com a angústia de seu povo e se submete a subir e desfilar nua em um cavalo para atender ao desejo do rei em troca de facilitar a vida do povo, que em respeito a Godiva fecha as janelas e não a expõe, frustrando o rei que a tenta humilhar.

Beyoncé na capa do
Beyoncé na capa do "Renaissance”, sétimo álbum de sua carreira. (Foto: Divulgação)

Beyoncé monta um cavalo espelhado, mas não para atender devaneio de rei, somente para dizer que volta para dominar e que levará o povo que a respeita junto e além disso, deixar claro que está reivindicando o que foi tirado do povo preto. O house music que foi passando por um processo de embranquecimento e passou de Donna Summer para quem Beyonce faz referência no álbum. Bey is back!

Nem tudo que reluziu para Beyoncé foi ouro…

Beyoncé conhece os holofotes desde muito jovem, foi empresariada e acessorada pelo seu pai desde criança tal qual Michael Jackson, e essa comparação é bem justa em vista de que a relação dos dois passou por altos e baixos. Em 2011, a artista tomou os rumos da própria carreira e demitiu o pai.

Ser a número um não te livra da violência racial

“Não tinha mais o meu pai, eu tinha somente um empresário”. Outro contexto que precisamos deixar explícito é sua independência em relação ao casamento com o rapper e produtor musical, Jay Z.

Muitos boatos e fofocas já rolaram, mas uma coisa é certa: Beyoncé sozinha detém os rumos de sua carreira, e apesar de ser apaixonada monetizou todas as polêmicas e controlou toda a narrativa mesmo após uma traição admitida publicamente pelo marido, resolvendo com terapia tomando decisões importantes e incisivas, e muito trabalho duro como uma boa virginiana faz.

… I took some time to live my life But don't think I'm just his little wife

Ser a número 1, não te livra do Racismo….

Beyoncé sempre direcionou seus trabalhos para a exaltação do sentimento feminino e para suas narrativas amorosas, escreveu e lançou canções poderosas para as mulheres desde o Destiny Child, mas sempre sofreu com as críticas de que sua obra era superficial, e até mesmo de que ela não era preta o suficiente dependendo do contexto. Que sua música não alcançava todos os seus fãs em representatividade, e que tinha medo de abordar “questões reais de sua comunidade” como a LGBTQIA+Fobia e o racismo.

A questão é que na maioria das vezes esse incômodo e os questionamentos vinham de tabloides e críticos brancos, a comunidade em si, principalmente fora dos EUA pode sim em algum momento ter se confundido em relação ao quanto a cantora se posiciona na indústria, mas existe uma cobrança desproporcional com relação à tudo que Beyonce faz, ultrapassa o limite do questionamento porquê na verdade é racismo.

Apesar da cantora ter que lidar diariamente com o racismo até mesmo com seus filhos e marido, porquê ser a número 1 não te livra da violência racial, Bey decidiu novamente ressignificar sua carreira e transcendeu sua persona ao auge da representação da cultura preta no mundo todo com o lançamento do álbum "Lemonade" em 2016, colocando as questões raciais e seu posicionamento de forma explícita como tema central do trabalho.

A violência policial com as pessoas pretas, a objetificação das mulheres afro-americanas, e o racismo estrutural são amplamente abordados na obra audiovisual, o álbum sozinho vendeu mais de 2,5 milhões de cópias só no ano do seu lançamento.

Lemonade, Beyoncé
Lemonade, Beyoncé

I'm dark brown, dark skin, light skin, beigе, fluorescent beigе, bitch, I'm black...

Queen B, foi novamente questionada sobre o quão preta de fato ela era e tal ódio foi experimentado pela cantora e pelos fãs. Esse fato colocou o contexto do colorismo racial no centro do debate. Beyonce é entendida “lightskin”, (termo usado para se referir a pessoas pretas da pele mais clara), e isso traz privilégio na mídia, há uns anos seu pai disse: "Na indústria da música, ainda há segregação, como você sabe.”

Cada um pode tirar suas próprias conclusões, mas a Beyoncé segue para mais um passo ambicioso e revolucionário na construção contra o racismo: o álbum RENAISSANCE.

Ninguém vai quebrar a alma da Queen B…

25 de janeiro de 2020: Jay-Z e Beyoncé no pré-Grammy em Beverly Hills, na California (Foto: Kevin Mazur/Getty Images for The Recording Academy)
25 de janeiro de 2020: Jay-Z e Beyoncé no pré-Grammy em Beverly Hills, na California (Foto: Kevin Mazur/Getty Images for The Recording Academy)

RENAISSANCE também é uma homenagem e referência da artista ao seu tio gay que faleceu de Aids, a toda comunidade LGBTQIA+ e a cultura preta alternativa e afrofuturista. O álbum vai contar com mais dois grandes atos (lançamentos) que não sabemos como e quando serão lançados, mas temos uma certeza, muitas surpresas virão, afinal virginianos não brincam em serviço.

O caminho que uma pessoa preta percorre para chegar onde Beyoncé chegou é longo, é impossível de vivenciar sem receber ódio, resistência. Sua existência já é o suficiente para elevar o patamar da nossa cultura e história, abre portas e rompe barreiras.

Beyoncé em evento no dia 16 de novembro de 2019 em Hollywood, Florida, EUA (Foto: Kevin Mazur/Getty Images por Shawn Carter Foundation)
Beyoncé em evento no dia 16 de novembro de 2019 em Hollywood, Florida, EUA (Foto: Kevin Mazur/Getty Images por Shawn Carter Foundation)

Queen B sabe, que não foi a primeira, e nem será a última, reverencia suas antecessoras e seus ancestrais e colabora, e até mesmo financia as próxima. Nunca deu relevância a rivalidade, se preocupava em entregar o melhor de si sempre e não perdeu o foco, continuar nesse funcionamento aos 41 anos é uma demonstração de seu poder e disciplina.

Beyoncé ressignifica, domina o palco de forma única, com toda a sua entrega e relação com a arte vem marcando gerações. Sua perfomance e desempenho inspiram milhões de pessoas no mundo, sua contribuição para o movimento negro e feminista é inquestionável, sua história já é uma lenda e um exemplo de determinação para todos nós, agora mais do que nunca a comunidade LGBTQIA + está muito bem servida, que ela nos ilumine com seu talento por muitas e muitas eras.