Beleza madura é a verdadeira protagonista de Cannes - e nós aplaudimos de pé

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CANNES, FRANCE - JULY 06: Andie MacDowell attends the
Andie MacDowell exibiu os cabelos grisalhos e as rugas com orgulho no tapete vermelho de "Annette" em Cannes. (Foto: Getty Images)

Resumo da notícia

  • Andie MacDowell puxa o bonde de mulheres grisalhas no tapete vermelho de Cannes.

  • A beleza madura como protagonista e destaque no evento do cinema.

  • A importância dessa representatividade para um mundo pautado na valorização da juventude.

Se um dia questionamos a existência das rugas femininas, já não nos lembramos mais. Isso porque, durante o Festival de Cinema de Cannes, que vem acontecendo na cidade francesa desde o último dia 6 de julho, trouxe uma tendência bem diferente do que vimos nas capas das revistas até então: cabelos grisalhos, rugas à mostra e rostos femininos maduros, contando sua história sem a interferência de camadas e mais camadas de maquiagem.

O que o tapete vermelho do evento, que acontece pela primeira vez desde o cancelamento, no ano passado, por conta da pandemia de coronavírus, nos mostra é uma mudança importante de paradigma. Se o padrão de beleza até então dava importância massiva para as versões editadas de fotos, agora, o visual natural de mulheres maduras, que por escolha exibem seus rostos e cabelos como são, surge como um alívio e uma inspiração. Mas, calma, que vamos demonstrar melhor do que estamos falando.

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Para começar, impossível não citar Andie MacDowell. A atriz de 63 anos apareceu no tapete vermelho do filme "Annette" deslumbrante com um vestido Chanel combinando com os cabelos grisalhos e longos. Aliás, é perceptível que o visual não é exatamente produzido, mas apenas o crescer natural dos fios brancos entre os castanhos escuros da atriz.

O look, aliás, foi um resultado - sim! - da pandemia. A atriz contou ao ET Online que parou de colorir os cabelos durante o período de quarentena e foi muito elogiada pelos filhos, que chamaram a mãe de "badass" por conta do visual. "Eu nunca tive vergonha da minha idade", disse ela. "É melhor ter orgulho de onde você está".

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Sem medo também de exibir os sinais da idade, Andie sorriu, fez caras e bocas para as câmeras dos fotógrafos, deixando claro que rugas não são um problema ou um impedimento para aproveitar um evento de gala (ou qualquer outro).

CANNES, FRANCE - JULY 06: Dame Helen Mirren attends the
Helen Mirren em Cannes (Foto: Getty Images)

A atriz não foi a única. Helen Mirren, de 73 anos, usa os cabelos mais claros há bastante tempo, mas também parece ter deixado a tintura de lado ao exibir os fios brancos no tapete vermelho. Jodie Foster foi outra estrela do cinema que chamou a atenção pela beleza madura, sem grandes produções ou maquiagem pesadas. E o mesmo pode-se dizer de Tilda Swinton, que sempre optou por um visual mais simples e menos carregado, principalmente quando se fala em maquiagem.

Uma questão de tempo… literalmente!

Assim como, há pouco tempo, os millennials descobriram (do pior jeito!) que estão ficando velhos, o mesmo vale para atrizes do cinema que marcaram época. Por mais que Andie e Jodie tenham se tornado ícones do cinema nos anos 1990 e seguido carreira nas décadas seguintes, é fácil mantermos na mente a idade dessas mulheres como nós as vimos nos telões: jovens e atraentes.

Isso claro, não significa que elas deixaram de ser jovens e atraentes hoje, afinal, muito se sabe que a juventude é mais um estado mental do que qualquer outra coisa. Mas lidamos com uma sociedade que ainda preza por uma aparência feminina que satisfaça o imaginário masculino, da mulher magra, bonita e, principalmente, jovem. É por esse motivo, principalmente, que mulheres depois dos 40 e 50 anos são invisibilizadas - elas têm menos espaço no cinema, na televisão, até mesmo na vida social como um todo.

CANNES, FRANCE - JULY 06: Jodie Foster attends photocall for the Rendez-vous with Jodie Foster event during the 74th annual Cannes Film Festival on July 06, 2021 in Cannes, France. (Photo by Toni Anne Barson/FilmMagic)
Jodie Foster em Cannes (Foto: Getty Images)

Isso é marcante, por exemplo, na publicidade. Uma pesquisa desenvolvida pela Hype60+ em parceria com a Clarice Herzog Associados comprovou que mais de 90% das mulheres maduras no Brasil não se sentem representadas pela comunicação de anunciantes. O estudo "Beleza Pura - Mulheres Maduras 2019" mostra que essas mulheres, entre 55 e 74 anos, estão sendo deixadas de lado pelo mercado publicitário.

E não só isso, mas no próprio cinema essa visibilidade também é muito reduzida. Segundo um outro estudo realizado pela TENA em parceria com o Instituto Geena Davis de Gênero na Mídia revelou que apenas 1 em cada 4 filmes lançados em 2019 passaram no que eles chamaram de o "Ageless Test".

Esse teste, que pode ser traduzido literalmente como "teste do sem idade", diz que um filme deve ter uma personagem interpretada por uma mulher de 50 anos ou mais que tem um papel significativo na história, de forma que a sua ausência geraria um rombo no roteiro. Isso significa que essa personagem não pode apenas servir como um background para o desenvolvimento da história dos personagens mais novos ou ser retratada com estereótipos de idade.

CANNES, FRANCE - JULY 13: Tilda Swinton attends the
Tilda Swinton em Cannes (Foto: Getty Images)

O resultado foi, de fato, assustador. Nos principais filmes lançados naquele ano, nenhuma mulher acima de 50 anos foi escalada nos papéis principais, e as que fizeram parte de produções cinematográficas em papéis secundários, foram colocadas de forma muito estereotipada como mulheres teimosas (33%), não atraentes (17%), resmungonas (32%) ou fora de moda (18%).

Para os homens, claro, a situação foi um pouco diferente. Enquanto as mulheres foram escaladas para papéis 50+ em apenas 25% das produções de 2019, os homens escolhidos para interpretarem pessoas nessa faixa de idade representa um total de 75%.

A verdade é que pessoas envelhecem, e vivemos em um mundo com populações cada vez mais velhas (alguns estudos dizem que a faixa de pessoas acima de 60 anos já chegou a 14% da população brasileira em 2020 - e deve chegar a 40% até 2100), e normalizar mulheres maduras, incluí-las na publicidade, em papéis de destaque na TV e no cinema, até estampar as suas rugas e cabelos brancos nas revistas tira a capa de invisibilidade que foi colocada sobre elas ao longo do tempo. Entre padrões de beleza inalcançáveis e fotos editadas e cheias de filtros, olhar no espelho e encontrar uma ruga no canto dos olhos ou na testa se tornou um grande problema. Quando, na verdade, deve ser algo natural e normal sob as vistas de todos.

Por isso, dar espaço para os grisalhos de Andie MacDowell ou as rugas de Helen Mirren é mais do que essencial, é necessário para que, mais à frente, essas atrizes talentosas e mundialmente reconhecidas não sejam mais notícia por assuntos como esse, mas, apenas, pelas próprias conquistas pessoas e profissionais.

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