O que a beleza dos ídolos do k-pop nos ensinam sobre masculinidade

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A estética de grupos como o BTS tem desafiado a ideia do que é masculinidade nas culturas ocidentais (Foto: Divulgação)
A estética de grupos como o BTS tem desafiado a ideia do que é masculinidade nas culturas ocidentais (Foto: Divulgação)

A rotina de skincare é impecável - não à toa, com 25, 30, 40 anos, parecem muito mais jovens do que diz o RG. A maquiagem também está em dia. Sombras coloridas (cabelos, às vezes, idem), blush, rímel, até os lábios levemente avermelhados pelo batom. No guarda-roupa, as marcas mais badaladas do mercado de moda, com logomarcas à vista - a ostentação é elegante, mas está lá para quem quiser ver. Uma orelha cheia de brincos. No pescoço, colares variados. Nas mãos, muitos anéis. Às vezes, um decote, um cropped, outras uma boca de sino, um blazer como terceira peça.

Não fosse pelo título desta matéria ou pela imagem que você vê acima, é fácil ler o parágrafo anterior e pensar que estamos falando de mulheres. Só que não: o tema do texto de hoje são os homens sul-coreanos. Mais especificamente os idols, como são chamados os artistas masculinos dos grupos musicais de k-pop, e a maneira como estão desafiando o que chamamos, ainda hoje, de masculinidade.

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Com uma estética muito precisa (e cara!), a onda coreana, ou hallyu chegou ao Ocidente com tudo nos últimos anos. Não é como se ela não existisse - afinal, desde o final dos anos 1990 o governo da Coreia do Sul investe pesado em entretenimento, como uma forma de aquecer a economia e chamar a atenção para o país. Mas desde o estouro do BTS, talvez o grupo mais famoso atualmente, vindo daquele país, ela parece mais forte do que nunca.

Com uma lista de primeiros lugares nas principais paradas da Billboard, um single de sucesso atrás do outro e uma base de fãs impressionante, o BTS abriu caminho para que muitos outros grupos sul-coreanos ganhassem espaço (ainda que aos trancos e barrancos) na mídia ocidental. Mas não é só o ritmo contagiante e os clipes cheios de cor e força que chamam a atenção - a estética muito específica desses artistas também.

Para os coreanos, a aparência é um fator muito importante e parte da cultura. Comentários sobre a beleza de alguém, sobre o seu peso e até sobre sua altura são muito comuns por lá - e o "ser bonito" pode, inclusive, render regalias e benefícios. Lidar com a beleza, seja você homem ou mulher, não tem a ver com sexualidade, quando se fala na Coreia do Sul.

Isso é importante porque, em países como o Brasil, é o contrário. Importar-se com a aparência e até com a saúde como um todo é quase uma exclusividade feminina. É o tal padrão de beleza regado pelo machismo e pelo patriarcado. A mulher tem que estar sempre bonita e bem arrumada, com as unhas feitas, a pele perfeita, a perna sem celulites… Aos homens, tomar um banho é o suficiente, não é preciso nem passar perfume!

Para os coreanos, não. Lá o cuidado com a aparência é de extrema importância e parte da cultura - e, acredite se quiser, os homens são os principais alvos do mercado de skincare. Na última década, o consumo de produtos de cuidados com a pele pelos homens coreanos cresceu 44%, o que os coloca no topo dessa lista no mundo todo.

Essa maneira fluída de lidar com a beleza também aparece na forma como os homens se relacionam entre si. Amigos se abraçam, cruzam as pernas, tocam uns aos outros em lugares que dois homens brasileiros, héteros, jamais se encostariam - uma mão na perna ao conversar, por exemplo. E, de novo, isso não tem nada a ver com sexualidade, é uma questão fluída e uma naturalidade em lidar com as coisas que não é comum entre o público masculino do lado de cá do mundo.

O resultado é que, de forma errônea, xenófoba e até homofóbica, muitas vezes esses idols são vistos como "afeminados" ou taxados de homossexuais por causa do seu porte, da maneira como se vestem e de como agem uns com os outros.

Tudo falta de contexto, claro, e tudo nublado por uma visão cultural da masculinidade. No Brasil, a ideia do homem macho, o "hétero top", é a dominante. O cara másculo, pegador, que não fala de sentimentos, que não usa um protetor solar sequer, que é insensível, meio ogro… Enfim, não que isso seja uma receita para fazer os corações femininos baterem mais forte, mas é a ideia geral, muito alimentada pela masculinidade tóxica e, de novo, pelo patriarcado fruto da colonização europeia, que domina essa visão do que é ser masculino.

A imagem que tem valor por aqui, no entanto, não tem valor na Coreia do Sul, o que não significa que não existam em outros formatos dela por lá. A sociedade coreana ainda é extremamente marcada pelo machismo e pelo patriarcalismo, e a fluidez de lida entre os homens ou entre as mulheres não é válida quando duas pessoas de sexo oposto são postas frente a frente.

"Os rótulos do que é ser masculino… é um conceito ultrapassado", disse RM, líder do BTS para a revista Rolling Stone, no ano passado. "Não é a nossa intenção desconstruí-los. Mas se nós estamos tendo um impacto positivo, então, somos gratos. Nós vivemos em uma época em que não deveríamos ter esses rótulos ou restrições".

Na cultura coreana, existem aqueles grupos que são considerados mais "masculinos", até "assustadores", pelo conceito da cultura local. É o caso do Monsta X, grupo que também alcançou reconhecimento no Ocidente, comumente referenciado como um grupo de "beast idols", algo como "ídolos monstros", em português, uma alusão a esse viés mais masculinizado.

Ao contrário da estética "flower boy" da maior parte dos grupos, que abusa de cores coloridas, maquiagens simples e mais alegres, um porte mais carinhoso e até fofo, o Monsta X abusa da força física, dos abdomens tanquinho, olho esfumado escuro e uma intensidade geral. "Sempre teve essa percepção [pelos coreanos] que nós somos assustadores", disse o membro do Monsta X, Minhyuk, ao Refinery 29.

E, ainda assim, o visual do Monsta X pode ser considerado o contrário do masculino pelas culturas ocidentais, que ainda recebe essa estética com certo estranhamento. A proximidade entre os membros do mesmo sexo, somado aos looks variados, faz com que o Ocidente entenda essa estética como uma representação da sexualidade, o que não é a norma para a Coreia do Sul que, apresar de valorizar muito a beleza física, ainda sofre com homofobia e falta de aceitação da comunidade LGBTQIA+. Oficialmente, o número de artistas que são abertos sobre a sua sexualidade ou que se assumiram oficialmente como membros dessa comunidade são pouquíssimos.

A proximidade, aliás, pode ser explicada também como uma parte da cultura coreana, que é homo-social - isso significa que o estímulo é sempre para que a interação se mantenha entre as pessoas do mesmo sexo no dia a dia. Isso significa homens convivendo com homens e mulheres convivendo com mulheres. A interação próxima com o sexo oposto é, via de regra, trabalhada apenas em contextos amorosos.

Essa fluidez de imagem tem ganhado tanto destaque justamente porque choca um imaginário muito fixo sobre o que é masculino. No entanto, os ídolos de k-pop, e o gênero em si, está longe de ser a solução para a masculinidade tóxica como a conhecemos - vale lembrar que, muitas vezes, os idols são proibidos por contrato a terem relações amorosas publicamente, falar abertamente sobre sexualidade e saúde mental ainda é um tabu imenso e o machismo e os casos de abuso contra mulheres são frequentes por lá.

Ainda assim, é interessante ver o efeito que homens performando de cropped, chorando de emoção em um show, usando brincos e florais e cores pastel têm gerado numa visão tão endurecida de gênero - e os efeitos que isso vai ter no futuro. Nomes como David Bowie, Harry Styles e até Prince já brincaram muito essa fluidez nos palcos, mas o que o k-pop oferece é uma fluidez de estética e cuidado com a imagem que transcende a representação artística e passa a ser parte do dia a dia. Quem sabe, em breve, não seja normalizado que homens demonstrem afeto entre si sem que isso seja entendido como uma representação de sexualidade.

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