BBB23: Arrogante ou autoconfiante? Fred Nicácio é primeiro alvo do público

Sequência de erros tornaram brother o mais rejeitado na primeira semana; falas polêmicas também levantaram discussões sobre racismo

Fred Nicácio em sessão de fotos para o BBB23 (Foto: Globo/ Paulo Belote)
Fred Nicácio em sessão de fotos para o BBB23 (Foto: Globo/ Paulo Belote)

O médico, fisioterapeuta e apresentador Fred Nicácio entrou no Big Brother com o objetivo de "marcar o Brasil". Após quatro dias, já se pode dizer que ele tem marcado esta 23ª edição como um dos nomes mais falados. A repercussão, no entanto, tem sido polêmica.

O profissional de saúde caiu no conceito do público por três episódios em especial. Confira abaixo:

1. É você, não eu

Durante o "Jogo da Discórdia" da noite de terça-feira (17), Nicácio e Marília ficaram entre as duplas que possuem "menos sintonia" com as demais. Após o programa ao vivo, os dois sentaram para conversar e ele não hesitou em dizer à parceira que as plaquinhas negativas eram por ela, e não por ele. Para os críticos, a atitude foi, no mínimo, insensível.

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2. Reconhecimento próprio

Em conversa na piscina na quarta-feira (18), Fred lamentou a falta de reconhecimento que atinge pessoas como ele e Aline Wirley, do Rouge, e destacou a importância que eles e suas histórias têm para o Brasil. "É um absurdo a gente ver uma Aline, eu, que estamos nessa luta, mudando a história do país, de fato — não estou falando de internet, estou falando da história física do país —, e tendo seguidores... 300 mil, 400 mil... Aline não tem um milhão, eu tenho 350 mil seguidores".

A declaração logo repercutiu nas redes sociais, com muitas críticas ao que se apontou como "soberba, prepotência, arrogância", entre outros adjetivos.

3. Menosprezo?

O terceiro e talvez mais polêmico episódio também ocorreu na tarde de ontem. O médico lembrava de uma situação, quando ainda atuava como fisioterapeuta, e foi vítima de racismo por parte de uma colega de trabalho.

"Eu vi um médico entubando e eu falei assim: 'eu queria fazer isso aí'. Uma enfermeira branca olhou para mim e falou assim: ‘sai pra lá, menino, isso aí é só para médico’. Tá bom! Sete anos depois, amor, eu voltei e ela foi minha enfermeira", disse Nicácio.

A forma como ele se referiu à profissional , que estaria ali lhe auxiliando, foi um gatilho para o enfermeiro Cezar Black, que chorou ao falar sobre o assunto com Domitila. Com a repercussão, até o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) se envolveu, emitindo uma nota em defesa da categoria.

"A enfermagem não raro é vítima de comparações que a subalternizam, mesmo depois de toda sua atuação ser amplamente divulgada nos últimos anos, devido à sua essencial atuação frente à pandemia da Covid-19. Portanto, o Coren-SP condena qualquer fala ou atitude que vincule a enfermagem a uma inferioridade frente a demais profissões e defende o cuidado integrado e respeitoso das equipes multidisciplinares também como uma forma de valorização à categoria", diz o texto publicado nas redes sociais da entidade.

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É interseccionalidade que chama

Todas essas questões em torno de Fred Nicácio fizeram dele o primeiro participante rejeitado da temporada e, sem surpresas, abriu discussões sobre racismo. Neste caso, é preciso ir além para abordar a interseccionalidade.

Desenvolvido por feministas negras que não encontravam fundamentação teórica para suas lutas e vivências no feminismo (branco) nem no movimento antirracista, o conceito trabalha a "inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado", como resume a filósofa Djamila Ribeiro no livro "Interseccionalidade", de autoria da pesquisadora doutora Carla Akotirene. Para compreendê-lo, é preciso, entre outras coisas, articular os sentidos de classe, raça, nação e gênero.

É aí que entra a discussão em torno de Nicácio. Pode um homem negro, vítima de racismo, reproduzir outras formas de preconceito? Sim. Nicácio relatou o que entendeu como superação — a mudança de carreira de fisioterapeuta para médico, e depois a virada em ter a enfermeira como sua ajudante —, mas ambas situações colocam, ainda que implicitamente, a Medicina em um lugar superior.

Como o Coren-SP frisou, não há que se colocar a Enfermagem em posição de inferioridade na área da saúde. O próprio Nicácio reconheceu isso ao conversar com Cezar Black e esclarecer seu ponto de vista. Nesse momento, ele frisou que a enfermeira não estava a serviço dele, mas atuando com ele, porém, sendo o médico a pessoa que “hierarquicamente” estaria decidindo as condutas por ser o profissional responsável pelo paciente, o caso serviu de lição para o racismo da mulher.

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Tal situação remete à estrutura do trabalho na saúde e à forma como a própria sociedade vê a medicina. A área é a mais concorrida nos vestibulares, figura entre as melhor remuneradas e tem reconhecimento social — e ainda é majoritariamente branca —, o que falta a outras profissões. Por isso, não surpreende, ainda que também não justifique, a postura de médicos que acreditam ocupar a mais importante das posições no mercado de trabalho por gozar do título de “doutor”.

Arrogância ou autoconfiança?

Já na mira do público, Nicácio está sendo rejeitado também por dizer aquilo que não se espera que uma pessoa diga sobre si.

  • Exemplo 01: ele não mentiu quando disse a Marília que as plaquinhas negativas eram por ela — a maquiadora tem incomodado colegas na casa por… se maquiar. Conversas entre os brothers e sisters já confirmaram que o problema deles é menos com a dupla, e mais com a natalense;

  • Exemplo 02: Nicácio também não está completamente equivocado ao dizer que mudou a história do Brasil. Não se trata de interpretar as palavras de modo literal, mas no contexto em questão ele se referia a pessoas com trajetórias como a sua — um homem negro, homossexual, rejeitado pela família que hoje atua como médico e apresenta um programa na maior plataforma de streaming de vídeos.

Não significa dizer que “a favela venceu” quando ainda se vê tamanha desigualdade social e racial e os alvos preferenciais da violência, mas Nicácio está entre a parcela da população negra que ascendeu socialmente (muitos a partir de políticas públicas e da luta por maior representatividade nos espaços), podendo transformar a realidade de suas famílias, contribuir para o crescimento de suas comunidades e impactar as próximas gerações.

Vale lembrar que ele ganhou visibilidade em 2018, quando atendeu uma idosa e ouviu dela que era o primeiro médico negro a atendê-la. Nicácio também ficou conhecido após atender um casal com deficiência auditiva em libras e defender a importância da inclusão social.

Parte do problema é que, tanto no caso da história pessoal quanto na discussão sobre a dinâmica em dupla, Nicácio apenas repetiu o que outras pessoas já diziam. Reconhecimento, elogio ou exaltação são até bem-vindos quando vêm de fora. Mas quando parte dos próprios atores, especialmente se eles forem negros, não é estranho que isso seja visto como soberba em uma sociedade que, ironicamente, diz prezar pela autoestima.