BBB23: produção precisa ampliar conceito de diversidade para representar o Brasil

Pessoas gordas, com deficiência e mais de 40 anos estão fora do elenco

Arte com os rostos de todos os participantes do BBB23 (Imagem: Gshow)
Arte com os rostos de todos os participantes do BBB23 (Imagem: Gshow)

Todo ano, quando começa o Big Brother Brasil, temos a impressão que alguns personagens se repetem –não por acaso, surgem vários memes chamando Bruna Griphao e Larissa de “ala Thaís Braz” e todos os homens héteros e brancos de Arcrebiano, em referência a participantes de edições anteriores. Mas, além das figurinhas repetidas, também chama atenção as características ausentes, que estão de fora do elenco do reality de maior audiência do país: pessoas gordas, com deficiência e com mais de 40 e poucos anos, por exemplo.

A pessoa mais velha escalada para a edição deste ano é a cantora Aline Wirley, de 41 anos. Entre os 22 participantes, elenco mais numeroso da história do reality, a idade média é de 29 anos e meio. E todos são magros.

É verdade que o BBB tem feito um esforço em direção à igualdade racial – as últimas edições têm apresentado paridade entre brancos e negros no elenco, o que é ótimo sinal. Mas também há algumas temporadas, o público questiona se não está na hora de avançar em termos de diversidade. A gente acredita que sim.

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Mas, afinal, em meio a tanta cobrança por inclusão, o que dificulta a diversidade no programa que se propõe a ser uma representação da sociedade brasileira?

A primeira resposta que vem à mente é que pessoas mais velhas, gordas ou com deficiência teriam desvantagem nas provas. Além de ser uma ideia bastante etarista e capacitista, caberia à direção do programa se adaptar a todas as pessoas, garantindo a acessibilidade na casa e elaborando provas justas para todos.

De toalha a beijo na boca, gordofobia está presente

No ano passado, apenas uma pessoa gorda participou do Big Brother Brasil: o ator e cantor Tiago Abravanel. Criticado pelo público por seu pouco assumir estratégias de jogo, ele desistiu do programa antes mesmo de passar pelo crivo da audiência, cerca de um mês após a estreia.

Mas, durante o tempo em que esteve no reality, foi alvo de gordofobia algumas vezes, ao ser o último escolhido numa prova de resistência, mesmo que àquela altura já tivesse vencido uma disputa desse tipo, e ao notar que as toalhas de banho fornecidas pela produção não eram grandes o suficiente para enrolar seu corpo.

“A toalha não dá a volta na minha circunferência. Eu tive que pegar a toalha da piscina. Nem sei se posso usá-la”, comentou o ator. “Concorda que é um pouco constrangedor, para mim, fazer isso? É mais fácil dar uma toalha maior”, falou o participante, que disse, ainda, que se sentia “prejudicado”.

Também fez questão de pautar o tema em conversas com os colegas: "O problema é que as pessoas olham para alguém gordo e automaticamente falam que ela não é saudável. Temos que desconstruir isso. E não é que eu esteja incentivando a obesidade. A saúde vai além da forma física”, ressaltou.

Na mesma ocasião, falou sobre a dificuldade de pessoas gordas acessarem direitos como o transporte público, porque muitas vezes a catraca não gira, ou a saúde, já que há casos de pessoas que têm o tratamento negligenciado porque as macas dos hospitais não suportam seu peso ou tamanho.

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Antes dele, as últimas edições com participantes gordos foram o BBB20, com Babu Santana, e o BBB19, com Rodrigo França e Rízia Cerqueira – os três foram alvos de gordofobia durante o programa.

Rízia, por exemplo, recebeu comentários extremamente ofensivos nas redes sociais depois de beijar Alberto, um dos galãs do programa – à época, comentários diziam que ele só teria ficado com ela porque era mais fácil ou porque as outras participantes, todas magras, não tinham se interessado.

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Cadê os mais velhos?

A última vez que o programa teve pessoas com mais de 40 e poucos anos no elenco foi em 2018, com Mara Telles, àquela altura com 54 anos, e Ayrton Lima, então com 57. Mara, mais velha, foi a primeira eliminada pelo público, e Ayrton chegou em terceiro lugar – mas naquela edição disputava em dupla com a filha, Ana Clara Costa, que era a mais jovem da edição, com 20 anos.

Além de Ayrton, a aposentada Ieda Wobeto, que entrou no BBB17, aos 70 anos, e segue sendo a participante mais velha a entrar no reality, também chegou a final do programa em terceiro lugar.

Mas os dois são exceção à regra. Em geral, pessoas mais velhas não são selecionadas. E, quando são, acabam eliminadas na primeira metade do programa.

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Uma única pessoa com deficiência

Apenas uma PCD – sigla para pessoa com deficiência – entrou na casa mais vigiada do Brasil desde a primeira edição: a atleta paralímpica Marinalva de Almeida, em 2017.

Àquela altura, ela estava aposentada das modalidades de arremesso de peso, lançamento de discos e salto à distância, e terminou o programa em quinto lugar – mesmo enfrentando uma série de preconceitos do público e dos colegas da casa. Marcos Harter, por exemplo, dizia que ela usava muletas apenas como estratégia para conquistar a empatia do público.

Apesar do bom desempenho no programa, desde então nenhuma outra pessoa com deficiência integrou o elenco.

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LGBTs entram, mas são expostos à violência

Embora todas as últimas seis edições, sem exceção, tenham escalado pessoas LGBTQIA+ para o elenco, vale questionar a proporção. E também o tratamento que recebem dos colegas e do público.

Raramente são mais de 10% dos participantes e, entre os que entraram, a grande maioria são gays. Bissexuais e lésbicas apareceram muito pouco e transgênero foram apenas duas participantes em 23 anos de programa, com um intervalo de 10 anos entre elas – Ariadna Arantes, que é uma mulher trans, participou do BBB11 e foi a primeira eliminada da edição; Lina Pereira, a Linn da Quebrada, que é travesti, participou do BBB22 e chegou até o top 10 do programa, mas não escapou de episódios graves de transfobia, especialmente de colegas que a trataram repetidas vezes com os pronomes errados.

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E vale lembrar: homens trans nunca integraram o elenco do programa em 23 edições.

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Por outro lado, é difícil lembrar de uma edição em que a homofobia não tenha marcado presença: há casos mais recentes, como contra Vyni, na edição passada, contra Fiuk por usar saias, no BBB21, e do brother Dourado, que venceu o BBB10 após reiterados episódios de homofobia contra Dicesar e Serginho, da chamada ala dos coloridos daquela edição.