"BBB22": Precisamos falar do racismo contra Douglas e o mito do homem preto violento

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Douglas Silva durante a formação do paredão (Reprodução Globoplay)
Douglas Silva durante a formação do paredão (Reprodução Globoplay)

O terceiro Jogo da Discórdia do "BBB22" finalmente movimentou a casa e trouxe as polêmicas e posicionamentos que o povo queria dos participantes, que até o momento se recusavam a jogar e dar qualquer opinião real sobre os colegas. Embora o "fogo no parquinho" seja o que o 'BBB' entrega de melhor, não podemos deixar de enxergar uma dinâmica perversa que ficou evidente no jogo e no ranço que os brothers estão de Douglas Silva.

Na Discórdia, Douglas ganhou várias placas definindo seu jogo dentro da casa: esconde o jogo, duas caras, em cima do muro, ardiloso e sonso. O brother, ao lado de Arthur Aguiar, foi líder de comentários negativos, e foi inteligente ao perceber que, caso retrucasse ou entrasse na briga, poderia ser taxado de violento ou estressado e preferiu receber os ataques de forma serena.

É possível apontar diversos problemas no jogo de Douglas: como reclamou o eliminado Rodrigo. De fato o brother está com medo de se posicionar, e no paredão da semana votou em Vyni por saber que ele não receberia outros votos. Douglas também não está se posicionando de forma contundente em outros momentos, e segue apagado tanto em articulações de jogo quando nas relações pessoais.

Se Douglas está com um jogo tão neutro, de onde vem tanto ranço pelo brother? Se ele tem um comportamento semelhante a muitos outros confinados, porque o ódio dos colegas e de parte do público se concentra nele? Quando Douglas joga, ele é agressivo. Quando Douglas se cala, é omisso. Não existe cenário no qual o brother fique em paz, e outros confinados com atitudes questionáveis, como Eslovênia, que foi transfóbica três vezes com Lina, não recebe nem metade das críticas que ele.

Em entrevista para o jornal "Metrópoles", a esposa de Douglas, Carol Brito, apontou o óbvio: estamos falando de racismo. "Sabe o que acontece infelizmente? Acontece que um preto, favelado ganhando espaço em rede nacional incomoda. Uma pessoa que tem atitudes semelhantes aos demais participantes é tida como arrogante sem ser. Querem que o preto abaixe a cabeça e quando isso não acontece, pensam que algo não está certo. E vocês sabem o nome disso", disse a psicóloga.

Expressão racista

Logo após o Jogo da Discórdia, Laís, Jade Picon e Bárbara se reuniram no quarto do líder para falar mais sobre a dinâmica, e Douglas foi imediatamente alvo de um ataque racista. Bárbara e Laís já deixaram muito claro que não gostam do brother, e a loira foi além ao usar uma expressão racista para se referir a ele.

"Eu não confio numa pessoa que é incoerente desse jeito. Ele fez aquele samba do criolo d*", começou Bárbara, que imediatamente percebeu o que falou e tentou consertar a situação. "Ai que feio, quase eu ia falar uma expressão muito velha e horrorosa. Uma expressão racista", disse ela, que parou de falar no fim da sentença. "Eu vi o que você ia falar, ia ser péssimo", disparou Jade. "Quase falei, mas foi por força do hábito da expressão do samba, e eu nem uso essa expressão", rebateu Bárbara.

Todas as pessoas brancas são racistas, e saber disso é o primeiro passo para deixarmos de perpetuar preconceito estrutural. Vivemos em uma sociedade profundamente marcada pela escravidão e pelo preconceito racial, e qualquer pessoa branca cresce com uma visão racista, a colocando, inclusive, dentro de uma classe dominante e com privilégios, a branquitude.

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e a segregação racial continuou na ausência de oportunidades, de direito a voto, e posteriormente no sistema prisional (pessoas pretas representam 66,7% da população carcerária). O racismo está entranhado no mercado de trabalho, nas oportunidades educacionais, na televisão, no entretenimento e em todas as camadas da sociedade brasileira. A expressão racista usada por Bárbara não é um erro isolado, e sim uma consequência de todo esse contexto social.

Bárbara imediatamente se corrigiu, mas pedir desculpas não é o suficiente. Enquanto Bárbara se preocupa com o cancelamento que pode sofrer a partir de uma fala racista, Douglas sofre na pele o racismo que para ela é uma preocupação secundária. Para uma pessoa branca, o racismo é algo que precisa ser desconstruído. Para uma pessoa preta, é o que determina se ela vive ou morre. Sentir remorso não é o bastante: Bárbara pode até ter pedido desculpas pela fala, mas não parou para examinar os motivos de seu ranço contra o único homem preto de pele retinta da casa.

Pregos nos pés

Em conversa com Jade e Bárbara no quarto do líder, Laís também disparou contra Douglas e afirmou que se arrependeu de já ter feito massagem no brother durante o Castigo do Monstro. "Eu fiz massagem nos pés dele, fiz trinta minutos. Era pra eu ter socado um prego embaixo de cada pé".

A frase cruel foi interpretada como uma brincadeira sem consequências, mas a imagem criada por Laís é assustadora em um país que infligiu tantas torturas a pessoas pretas não só durante a escravidão como no Brasil atual. No Brasil colônia, pessoas pretas eram amarradas em praça pública, chicoteadas e assassinadas com requintes de crueldade, além de terem os pés quebrados ou imobilizados como punições dos senhores brancos.

Laís provavelmente jamais pensou sobre isso na hora de fazer seu comentário, e em momento algum estamos acusando a sister de intenção de tortura. Mas a frase é sintomática na falta de empatia e contexto histórico - importância de falarmos sobre história nas escolas —, e a sister em nenhum momento parou para pensar no que Douglas, homem preto, sentiria ao ouvir algo tão violento contra seu corpo dito por uma mulher branca e privilegiada.

A jornalista Maíra Azevedo, a Tia Má, falou sobre os perigos de normalizar a fala de Laís e entender a situação pela ótica do "humor". "Algumas pessoas podem adotar um discurso violento e ser visto como piada, brincadeira. Outras, mesmo caladas, sem dizer nada, são associadas a agressividade. Essa fala de Laís é cruel e causa um incômodo enorme. Mas, pra muita gente, a médica falou brincando, “é só uma forma de falar”, “não precisa problematizar é só uma brincadeira” e é assim que a gente vai naturalizando discursos perversos. Não quero nem imaginar alguém socando dois pregos nos pés de meu filho, e falo isso, porque bem sabemos o quanto a violência em nosso país é cruel e quem é o alvo preferencial de ter pregos martelados pelo corpo! Não dá pra achar graça…é rindo que nos aniquilam!", escreveu.

Douglas sente na pele o preconceito e o racismo: carioca, o brother vive na mesma cidade na qual o bairro do Leblon, antigo local de quilombos, tem hoje cerca de 90% de moradores brancos e ricos. O bairro também é cenário habitual de novelas da Globo, obras que, nos últimos 20 anos, só trouxeram 10% de personagens pretos (o levantamento é da Universidade Estadual do Rio de Janeiro). O mínimo que Laís poderia ter feito era ter cuidado com suas palavras, e feito sua obrigação como pessoa branca que entende as origens do privilégio com o qual nasceu.

Douglas x Jessi

Uma conversa entre Jessilane e Douglas nos últimos dias deixou o "BBB22" agitado. DG, que desconfiava de uma suposta combinação de votos contra ele, conversou sobre o assunto com a adversária que acabou de votar do paredão. Sem papas na língua, Jessi revelou suas intenções de voto e acabou entregando a amiga Lina.

"A única pessoa de vocês que a gente ainda tem vontade de votar é o Scooby, mesmo ele ajudando demais a gente, sendo carinhoso, educado... Mas ele leva o jogo de uma maneira muito 'tanto faz'. Eu lutei muito para chegar até aqui", iniciou Jessilane. A sister, em seguida, revelou os votos de Naiara, Lina e Natália.

Mais tarde, Jessi sentiu peso na consciência e chorou por ter falado sobre a intenção de voto da amiga. Linn da Quebrada não gostou da atitude da professora, afirmou que se sentiu exposta e assim não pode confiar nela. A sister disse que não sabe mentir e não teve a intenção de magoá-la. Quem também ficou brava foi Naiara Azevedo, que anda no mesmo grupo. A cantora disse que não dá para jogar com Jessi.

O que poderia ter sido uma dinâmica normal de jogo se tornou um problema de racismo quando os participantes e parte do público se voltaram contra Douglas. O brother fez o que qualquer pessoa que está em um jogo de convivência faria, tentando descobrir os votos dos oponentes para organizar sua estratégia. O ator não maltratou Jessi, disse que ela poderia não falar se não quisesse e não foi agressivo em nenhum momento. Mesmo assim, público e participantes se voltaram contra o brother, reforçando o mito do homem preto violento.

No Brasil racista, homens pretos são vistos como ameaças apenas por existirem. Nesta semana, o sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra assassinou o vizinho Durval Téfilo Filho, que chegava em casa do trabalho mas demorou alguns minutos para abrir o portão por não conseguir fazer o controle remoto funcionar. Sem fazer nada, Durval foi imediatamente reconhecido pela branquitude como uma ameaça, e esse racismo foi o suficiente para encerrar sua vida.

Não existe ponto sem nó na linha do tempo do racismo do Brasil: o mesmo preconceito que acabou com as vidas de Durval e Moïse, congolês assassinado no Rio de Janeiro por exigir seu salário atrasado, é o que norteia a visão que colocou Douglas como um homem agressivo. O mito do homem preto ameaçador é um dos contos clássicos do Brasil colônia, e precisamos analisar o racismo que nos faz acreditar em histórias como essa.