'BBB 20' e a autoestima do homem hétero: até quando?

Os participantes do BBB 20 (Foto: Reprodução)


Em pleno 2020, é difícil pensar que os participantes do 'Big Brother Brasil' não saibam que o que é falado dentro da casa pode fazer pegar fogo o lado de fora. Mas considerando que o programa continua, inclusive, optando por participantes com uma ficha de violência contra a mulher, não é possível esperar muita coisa certo? 

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Esse parágrafo de abertura tem um motivo: a primeira semana do 'BBB 20' foi uma verdadeira vitrine de como funciona a tal "autoestima do homem hétero". Entre casos de assédio que já deixaram o público revoltado e uma série de comentários machistas, o que vimos na atração nos últimos dias foi como funciona a mentalidade dos homens que acreditam que as mulheres estão a seu serviço. 

Para começar, o comportamento típico de meninos da quinta série: uma lista de quais as participantes mais bonitas e menos bonitas, com direito à comentários que dizem que o desespero é tanto que alguns deles estariam dispostos até a ficar com a "menos bonita" da casa. 

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Felipe, por exemplo, chegou a comentar sobre Manu Gavassi que a atriz e cantora é "magra demais. Precisa engordar um pouco, além de ser a mais feinha do programa". Para ele, Mari Gonzalez também foi considerada muito magra para o seu gosto. 

Aliás, falar sobre a aparência das sisters da casa virou lugar comum para os brothers. Tanto que no último domingo (26), Petrix chegou a dizer que "A qualidade podia ter sido um pouquinho melhor". "Acertaram muito bem nas minas do teu grupo", disse ele sobre o grupo Pipoca, em uma conversa com Lucas, . "São muito gente boa, divertidas, loucas. Mas a qualidade podia ter sido um pouquinho melhor mesmo. Não veio uma novinha gatinha". 

Todo mundo sabe que se sente atraído por um tipo de pessoa, isso é válido tanto para homens, quanto para mulheres. Mas o que vemos é um reforço da ideia de que as mulheres têm o seu valor atrelado à aparência. E, mais, elas precisam agradar aos homens, caso contrário, não merecem a sua atenção. 

Não é à toa que existem muitos estudos que mostram como a autoestima feminina é afetada, durante toda a vida, por conta dessa qualificação através da aparência. Enquanto os homens podem transitar livremente usando as roupas que querem, sem qualquer cuidado especial com como se vestem ou como cuidam do corpo, a mulher descuidada ou que não se encaixa no padrão é automaticamente descartada. 

Segundo o Relatório Global da Autoestima Feminina feito pela Dove, em 2016, a questão da autoestima das mulheres é crítica e afeta o mundo inteiro. A situação é tão complicada que o relatório mostrou que 92% das mulheres, e 67% das meninas, já deixaram de participar de eventos importantes da vida porque não se sentiam confiantes sobre a própria aparência. 

E esse reflexo vai além de deixar de ir para uma festa com os amigos ou de entrar para um time de esportes. Passa também pelo a forma como a própria mulher ou menina olha para as suas capacidades e habilidades. De acordo com o estudo, sete em cada dez mulheres e meninas (um total de 71%) acreditam que não podem cometer nunca cometer erros ou demonstrar fraquezas. 

Lucas Chumbo, o emparedado da vez, chegou a comentar que estava "tão desesperado que pegaria até a Flay", assumindo tanto que ela não é considerada por ele como uma mulher bonita quanto que ela toparia ficar com o participante só porque ele está desesperado e precisa transar com alguém. É um reforço duplo: tanto dos padrões de beleza inalcançáveis aos quais as mulheres são submetidas, quanto de que a mulher é obrigada a satisfazer um homem, quer ela queira, quer não. 

Hadson ofereceu para todo mundo a cereja do bolo: chegou a criticar a atitude de Guilherme, que ajudou Bianca a trocar de roupa depois de beber demais em uma festa. O brother fez uma cabaninha para impedir que ela mostrasse demais tanto para as câmeras quanto para os outros participantes do reality. "Ele quer ser Don Juan, o Cinderelo, o cara pra casar...". 

Esse comentário tem mais um porém: ele reforça a masculinidade tóxica, ou seja, a noção de que os homens não podem expressar sentimentos, cuidarem da própria aparência, chorarem… até mesmo terem uma atitude mais gentil e respeitosa com o sexo oposto e com outros homens. O que esse arquétipo diz é que "homem não chora", é bruto, violento e não se preocupa com coisas consideradas, erroneamente, "de mulher", como cuidar da casa. 

Em resumo, há muito que se questionar no que estamos vendo no 'BBB 20' - e essa ainda é a primeira semana. Mas, no mínimo, podemos usar o programa como uma forma de rever a maneira como os homens se relacionam com as mulheres e evitar, no dia a dia, reforçar ideias que, como já foi comprovado, afeta muito a autoestima das mulheres.