Voz do Batman em podcast, Rocco Pitanga diz que projeto ajuda a desconstruir preconceito

Rocco Pitanga, o intérprete brasileiro de Bruce Wayne em
Rocco Pitanga, o intérprete brasileiro de Bruce Wayne em "Batman Despertar" (Foto: Bruno Poletti)

Resumo da notícia:

  • "Batman Despertar": podcast do Spotify recria história do super-herói com voz negra

  • Escolhido para viver Bruce Wayne no Brasil, Rocco Pitanga reflete sobre a oportunidade

  • "Não basta apenas repudiar o racismo, precisamos inserir os negros em posições de poder", diz ele

As histórias de super-heróis, depois de ocupar tantos multiversos, agora também são ouvidas nos serviços de streaming de música. O Spotify lançou neste mês "Batman Despertar", podcast (ou áudiossérie, como a plataforma a descreve) que se destaca tanto pela sua ideia narrativa e por um elenco repleto de vozes famosas. Na versão brasileira, Rocco Pitanga, um ator negro, foi escolhido para interpretar Bruce Wayne.

A escalação soa como um avanço, visto que o super-herói nunca havia sido retratado como uma minoria em suas muitas versões famosas para o cinema (Robert Pattinson, um ator branco, estrelou o filme mais recente, "The Batman") e para a televisão. Mas também gera uma dúvida: a questão da representatividade teria o mesmo impacto sem as imagens, em um formato 100% auditivo do projeto?

Para Pitanga, a resposta é sim. Entusiasmado com as possibilidades projeto, o ator explicou ao Yahoo que vozes negras estão aprisionadas em visões preconceituosas da sociedade. "É até interessante falar sobre 'voz negra' porque fala-se muito sobre a imaginação e da construção do personagem a partir da voz ou da leitura", disse. "Poucas pessoas imaginam uma persona negra para os personagens ao lerem um livro ou ouvir um locutor numa rádio, por exemplo."

Para o ator de 41 anos, o projeto ajuda a desconstruir visões preconceituosas e abre novas possibilidades em sua carreira. "A imagem do artista negro é estigmatizada em personagens de servidão e inferioridade. Não basta apenas repudiar o racismo, precisamos inserir os negros em posições de poder. E fazer um super-herói numa empresa de grande influência no mercado da comunicação como o Spotify é um grande avanço", afirma.

Nascida originalmente nos Estados Unidos, a série ganhou versões no Brasil, na França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão e México, sempre priorizando a diversidade no elenco. Nos Estados Unidos, inclusive, o ator escolhido para viver o super-herói também é negro, o tobaguiano Winston Duke. Alfonso Herrera, conhecido no Brasil pela novela "Rebelde", está na versão mexicana.

Ação em áudio

Tainá Müller e Rocco Pitanga, estrelas de
Tainá Müller e Rocco Pitanga, estrelas de "Batman Despertar" (Foto: Bruno Poletti)

Batman Despertar é uma história escrita por David S. Goyer, co-roteirista da trilogia do "Cavaleiro das Trevas" de Christopher Nolan nos cinemas, e se diferencia muito dos quadrinhos do super-herói. Nesta jornada, Bruce Wayne trabalha como patologista forense, tem os pais vivos e se vê obrigado a trabalhar como detetive com um dos seus maiores inimigos, o Charada, interpretado na versão brasileira por Augusto Madeira.

Com direção de Daniel Rezende ("Bingo O Rei das Manhãs"), a série brasileira ainda conta no elenco com Tainá Müller (Barbara Gordon), Adriana Lessa (Martha Wayne), Nill Marcondes (Thomas Wayne), Hugo Bonemer (Ceifador), José Rubens Chachá (Alfred), Marcelo Varzea (Dr. Hunter), Catarina Garcia (Poltergeist), Ivan Costa (Ladrão) e a irmã de Rocco, Camila Pitanga, que interpreta a desajeitada Kell, colega de Wayne no necrotério.

"Participar de uma obra inédita do universo da DC deixou todos nós muito empolgados. O diretor Daniel Rezende fez questão que gravássemos juntos, então junto com a Tainá Muller e o Rocco Pitanga interagimos muito e nos inspiramos uns nos outros", conta Augusto Madeira, intérprete do Charada. "Foi rápido, mas muito intenso e prazeroso."

Acostumada com as cenas de ação da série "Bom Dia, Veronica", da Netflix, Tainá Müller se viu no desafio de criar momentos de perseguição e confronto físico somente em áudio. "É bem diferente, já que não pude contar com o recurso da imagem para dar veracidade e intenção a essas cenas. Tive que descobrir técnicas no meu corpo de transmitir toda essa intensidade pela voz, o que foi um desafio super gostoso como atriz", afirmou.

No caso de Rocco Pitanga como Bruce Wayne, o maior desafio foi encontrar o tom certo da voz do personagem conhecido por sua voz sombria. O ator se submeteu a exercícios diários para dicção, articulação, projeção e aquecimento vocal. "Por mais misteriosa que fosse, a voz do Batman tinha que ser compreendida pelos ouvintes", conta ele.

Mergulho mental

Além disso, o elenco da série ainda se deparou com um roteiro complexo envolvendo uma questão ainda pouco discutida na sociedade: os neurodireitos - a estrutura jurídica de direitos humanos e individuais que engloba cinco pontos essenciais: livre arbítrio, identidade pessoal, acesso equitativo, proteção contra os vieses e privacidade mental. Atualmente, neurocientistas de todo o mundo discutem possíveis regras para deter dispositivos capazes de decodificar informações no cérebro humano.

"Na primeira vez que li, fiquei surpresa com essa abordagem. A 'invasão neural' já é algo que extravasa a ficção científica e passa a ser cada vez mais uma realidade com as propostas de novas tecnologias que pretendem cada vez se integrarem mais aos nossos cérebros. É um assunto interessante e assustador, que coube como uma luva para o universo sombrio do Batman", analisa Tainá Müller.

"Batman Despertar" já tem oito dos 10 episódios da primeira temporada disponíveis para audição no Spotify. No início do mês, a série, ainda sem segunda temporada confirmada pela plataforma de streaming, se tornou o programa mais ouvido da plataforma em nove territórios, incluindo o Brasil.

Ouça o Pod Assistir, podcast de filmes e séries do Yahoo:

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