Basta de ouvir militares e pastores, diz futuro presidente da Biblioteca Nacional

***ARQUIVO***NITERÓI, RJ - O escritor Marco Lucchesi, que irá assumir o cargo de presidente da Biblioteca Nacional. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)
***ARQUIVO***NITERÓI, RJ - O escritor Marco Lucchesi, que irá assumir o cargo de presidente da Biblioteca Nacional. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O escritor Marco Lucchesi mal deixou de comandar uma das principais instituições culturais do país -a Academia Brasileira de Letras, que presidiu até 2021- e já foi convidado para assumir outra. Autor prolífico e defensor da diversidade na cultura, ele foi anunciado pela ministra Margareth Menezes nesta segunda como o novo presidente da Biblioteca Nacional.

"Independentemente do posicionamento político, a volta desse ministério é a volta do sonho para a agenda política", afirma ele por telefone. "Estávamos vivendo sob um pesadelo, com ameaças fascistoides constante aos professores e artistas. Esse gesto simbólico já é importantíssimo."

"Os artistas saem da condição de párias, basta de ouvir pastores e militares enlouquecidos, vamos ouvir os poetas", se empolga Lucchesi.

O escritor passou um ano sabático estudando na Universidade de Nápoles e afirma que todos os seus interlocutores internacionais ficavam incrédulos ao saber da extinção do Ministério da Cultura. As secretarias colocadas no lugar, diz ele, tinham "representantes pouco adequados, para dizer de forma diplomática".

Numa tomada de posição menos diplomática e mais combativa, ano passado, o escritor foi um dos artistas que recusaram a Ordem do Mérito do Livro entregue pela própria Biblioteca Nacional, como protesto contra a condecoração que a mesma instituição havia feito ao ex-deputado bolsonarista Daniel Silveira.

Não foi a única polêmica envolvendo a instituição sediada no Rio de Janeiro, que tem missão de preservar e difundir a memória da literatura brasileira. O presidente anterior da Biblioteca Nacional, Luiz Ramiro Júnior, citou Olavo de Carvalho em seu discurso de posse. Antes dele, Rafael Nogueira era criticado por defender posições monarquistas.

Entre as duas presidências, houve a tentativa de pôr um capitão da Marina para comandar a instituição, mas Carlos Fernando Rabello caiu antes mesmo de tomar posse.

Agora, Lucchesi diz que o período é de reconstrução, alinhado ao novo slogan do governo federal, e se mostra ávido para integrar um "corpo de funcionários apaixonado de guardiões da memória"

O sabático do escritor foi interrompido pelo convite de Margareth no último dia 30, uma pessoa que ele não conhecia, mas de quem teve a "melhor impressão humana, gentil, educada, afinada". Mas, como ainda não se reuniu com ela, não pode detalhar seus planos à frente da entidade.

O que afirma que fará é continuar um comportamento que teve durante toda sua carreira, que marcou inclusive sua presidência na ABL -as visitas recorrentes a presídios e comunidades indígenas e quilombolas. "E não é para levar livros, mas perguntar que livros eles querem ler."

"Da mesma forma que se diz que a beleza salvará o mundo, eu digo que a diversidade e a polifonia salvarão o Brasil."