Baseado em Nelson Rodrigues, 'A Serpente' tem forte sequência final

INÁCIO ARAUJO

FOLHAPRESS - Há várias maneiras de filmar Nelson Rodrigues. Nelson Pereira tocou melhor do que ninguém na corda do subúrbio; Leon Hirszman pôs luz nos recalques da vida modesta; Arnaldo Jabor foi mais longe que ninguém no melodrama, isto é, na tragédia da classe média; Murilo Benício foi o mais interrogativo com a obra intrincada do dramaturgo.

O pernambucano Jura Capela escolheu um caminho árduo. Fez menos do que rodar um filme de "A Serpente" para mostrar o potencial teatral da peça.

Há mestres no uso teatral do cinema. Os Straub, Manoel de Oliveira, para ficar em nomes próximos. Mas nenhum opera tantos deslocamentos, tantas mudanças de cenário, tantos efeitos que fazem com que nos sintamos, nós espectadores, suspensos num espaço que não é teatro nem cinema.

É uma escolha arrojada, talvez um pouco pretensiosa, a provocar todo o tempo o incômodo de perguntarmos onde estamos. Um incômodo que tende a nos dispersar da trama para nos perguntarmos onde isso está acontecendo.

E a trama não favorece dispersões. Lígia é casada com Décio, mas eles nunca consumaram o casamento. Décio é impotente, e Lígia decide se matar. Para evitar a tragédia, sua irmã, Guida, oferece o marido, Paulo, por uma noite, para que perca a virgindade.

Se o jogo cenográfico não favorece o desenvolvimento da mise-en-scène, que se torna prisioneira do não lugar eleito pelo diretor e pelos efeitos de luz e enquadramento, isso se deixa compensar pela mais cinematográfica das ideias -Guida e Lígia são representadas pela mesma atriz, Lucélia Santos, aliás, uma especialista em Nelson Rodrigues.

É a partir daí que a impressão começa a mudar. Não são duas irmãs. Gêmeas, talvez, mas, em função do texto, mais que isso. É a mesma irmã duas vezes. Paulo, no papel do cunhado canalha, que se deixa seduzir pela irmã da mulher, é representado por um Matheus Nachtergaele tão intenso quanto Lucélia Santos.

A direção dos atores de certa forma compensa o errático da cenografia. À tragédia de Nelson, Jura Capela acrescenta outra, fantástica: a de um homem apaixonado por uma mulher e, depois, pelo seu duplo. Mas elas nunca chegam a alguma forma de harmonia; Paulo passa a ter um amor terno por Guida e um amor sexual por Lígia. A situação é insuportável para Guida, mas não menos para o marido.

Se esse projeto de Jura Capela parece ainda confuso, não há dúvida de que não lhe faltam ideias. "A Serpente" pode ser considerado um começo ousado, e um bom começo.

A SERPENTE

Produção: Brasil, 2016

Classificação: 16 anos

Elenco: Matheus Nachtergaele, Lucélia Santos, Silvio Restiffe, Cellia Nascimento

Direção: Jura Capela

Quando: em cartaz

Avaliação: bom