Barrada no Planalto, repórter do SBT fala sobre machismo: "Não tenho medo"

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Jornalista desabafou após episódio (Foto: Reprodução/Instagram/@nathalia_fruet)
Jornalista desabafou após episódio (Foto: Reprodução/Instagram/@nathalia_fruet)

A repórter Nathalia Fruet, do SBT, chamou atenção após ser barrada no Palácio do Planalto em Brasília. Os seguranças impediram a jornalista de transitar no local por causa do seu traje há dez dias. Na ocasião, a profissional usava uma bermuda de alfaiataria. Em entrevista ao Yahoo, Nathalia conta como se sentiu quando foi abordada e revela que só foi liberada para voltar ao trabalho após vestir uma calça.

"O que me causou estranheza é que já usei esse look para circular no Congresso. Aqui no Planalto, para mim, foi uma novidade. Não fui barrada na portaria central. Cheguei, entrei normal, fui até o comitê de imprensa, larguei minhas coisas lá e fui até o refeitório, onde almoço. Foi na volta do almoço que informaram que eu não poderia circular com aquele traje", afirma.

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Sem entender o que estava acontecendo, Nathalia diz que pediu para mostrarem a norma, mas o soldado que a barrou apenas afirmou que estava cumprindo ordens. "Em nenhum momento me opus a mudar de roupa, eu só queria que me mostrassem a norma, que não era desconhecida só por mim, já que não me barraram na entrada", completa a jornalista.

O desconforto e constrangimento começaram quando Nathalia foi impedida de voltar para buscar seus pertences que estavam dentro do prédio. Após muita conversa, a repórter recebeu autorização para entrar no Planalto, mas com uma condição: ela precisaria ser escoltada. "Fui acompanhada por um integrante do GSI. Sou uma jornalista com credencial diária, não tenho motivo para arrumar confusão para não circular mais pelo Planalto. O que me incomodou foi a forma como isso tudo aconteceu", desabafa.

O assunto repercutiu entre jornalistas de vários veículos. Muitos questionaram, inclusive, o que mudaria se Nathalia estivesse com uma saia. A repórter, que até cogitou usar vestido no dia, afirma que em nenhum momento quis desrespeitar a regra, pois existe para ser cumprida. O fato é que precisa ser exposta com mais clareza para que todos saibam o que realmente é permitido. "Aprendi sobre direito administrativo. A norma diz que admite-se mulheres de saia e calça e homens de terno. Não fala nada de bermuda. Nos itens proibidos não pode boné e outros objetos. Temos que atualizar essa norma e deixar claro o que pode ou não", reitera.

Machismo presente

Há cinco anos trabalhando em Brasília, Nathalia já passou por vários perrengues e o machismo sempre se faz presente. "Teve um episódio no início do ano em que fiz uma pergunta ao Pazuello, em coletiva de imprensa, e ele disse que não tinha ouvido. Depois se excedeu. Isso é muito comum. Tu não vê as autoridades fazendo isso com homens. Não é cotidiano esses excessos com jornalistas homens. Tem uma cultura de que tu pode crescer a voz com a mulher", afirma.

Aos 37 anos, a repórter acredita que a experiência e educação que recebeu em casa ajudaram a "criar casca" para lidar com homens no seu dia a dia sem que isso a deixasse abalada. "Minha irmã é delegada, meu irmão do meio é mais calminho e a gente brinca que ele é assim porque nós duas somos mto incisivas. A gente nunca aceitou uma resposta mais ríspida por ser mulher. Quem faz isso com a gente recebe resposta no mesmo tom. Não tenho medo de tom de voz, de ameaça", diz ela, que voltou a citar o caso da bermuda.

"Foi constrangedor, mas em nenhum momento deixei de mostrar que estava incomodada, fui lá troquei de roupa e voltei. Acho ruim, a gente não deveria conviver com situações como essa. A questão é o respeito, não é uma disputa. Se você não levanta a voz para homem, não levanta para mulher. Como se criou essa ideia de que mulheres são o sexo frágil, ainda se tem culturalmente que se você subir o tom de voz com a mulher ela vai se encolher. Mas graças a Deus isso tem diminuído porque as mulheres não estão aceitando esse tipo de situação", finaliza.

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