Barbárie e memória norteiam espetáculo sobre genocídio em Ruanda

GUILHERME HENRIQUE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A única luz que recai no palco destaca a pele negra de Dorothee Munyaneza. Embalada pelo compasso lento de um tambor, ela realiza movimentos rápidos com o quadril e os braços, levemente cobertos por um vestido. A plasticidade da cena é acompanhada pela voz grave da artista, que elenca os nomes e características físicas dos amigos mortos por soldados Tutsis em Ruanda, enquanto descreve o cenário de guerra do confronto civil ocorrido em 1994.

"Sábado Descontraído", que compõem a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, é baseada no resgate que Dorothée faz de sua vida quando saiu de Kigali, capital de Ruanda, aos 12 anos, para viver em Londres, em meio ao genocídio que deixou 800 mil mortos em 100 dias de confronto.

O nome do espetáculo, inspirado em um programa musical de rádio, propõe um diálogo com aquilo que a memória pode ter de dolorosa e afetiva na mesma proporção.

"Vou a Ruanda com muita frequência para me reconectar com a terra da minha infância, com tantas lembranças. Muitas vezes é uma jornada emocionalmente carregada, difícil, mas necessária, principalmente quando estou no processo de criação", diz Dorothée à reportagem.

A peça, criada em 2013, expõe a experiência multifacetada da artista. Ela estudou canto na França e trabalhou na trilha sonora de "Hotel Ruanda" (2005), filme de Terry George sobre o conflito entre os Hutus e Tutsis.

Em 2006, colaborou com o coreógrafo francês François Verret. Ao longo dos últimos anos, também participou de produções com o dançarino contemporâneo Rachid Ouramdane e a sul-africana Robyn Orlin, caracterizada por apresentar espetáculos cujo a política e a violência estão no centro do debate.

Ao misturar todos esses gêneros, Dorothée procura fugir da limitação que a palavra lhe impõe. "Depois das palavras, vem o corpo, que ocupa aquele espaço onde as palavras não são mais suficientes, onde as palavras não podem mais dizer o indizível. Ao mesmo tempo, o meu canto, a minha voz, precisam ressoar", explica.

Acompanhada da atriz Nadia Beugré e do músico Kamal Hamadache, a artista procura criar um diálogo entre as artes, uma ponte capaz de explicar a atmosfera de amor e sofrimento em Ruanda.

"O que eu procuro é um encontro de vozes que navegam conscientemente entre palavras, a coreografia e a música, testemunhando o que me preenche, alimentando algum engajamento sociopolítico, refletindo sobre os nossos tempos e criando novos espaços de cura."

Vivendo em Paris, Dorothée procura estabelecer conexões políticas e culturais pelo mundo. Recentemente, passou temporadas em Londres e Nova York. "Sou como uma árvore com galhos espalhados além das fronteiras", pondera.

Ainda assim, suas raízes e, portanto, suas criações, estão sempre conectados a Ruanda. Em seu último trabalho, a peça "Unwanted" ["Indesejadas"], criada em 2017 para o Festival de Avignon, na França, discute as consequências do estupro em mulheres inseridas em conflitos de guerra.

"Isso aconteceu em Mianmar, no Congo e no meu país. Está ocorrendo na Síria, neste momento. Procuro recriar o testemunho dessas mulheres, contar a história dos filhos dessas mulheres. Ainda que imerso na violência, na dor, esse espetáculo serve para honrá-las de alguma maneira", analisa.

"Unwanted" foi exibida há dois anos no Rio de Janeiro, durante o Festival Cena Brasil Internacional.

Dorothée, que também já esteve em Belo Horizonte, chega ao país com a intenção de, mais uma vez, usar a arte para prolongar seus infindáveis laços. Aliás, os ingressos no site do Sesc já estão esgotados.

"Espero que a peça ajude o brasileiro a reconhecer aqueles cem dias de genocídio não como algo que aconteceu em uma terra estrangeira, mas como um capítulo da história da humanidade que afeta a todos nós. São oprimidos, marginalizados, que assim como no Brasil, são vítimas da violência, da desigualdade e do extermínio", complementa a artista.

SÁBADO DESCONTRAÍDO

Quando: sexta (6) às 21h; sábado (7) às 21h; domingo (8) às 18h

Onde: Sesc Avenida Paulista - Av. Paulista, 119 - São Paulo

Ingressos: Esgotados