Banda de Sun Ra se une a brasileiros para shows de improviso

LUCAS BRÊDA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Rodrigo Brandão ficou impressionado com o histórico saxofonista Marshall Allen num ensaio na Alemanha. "Quando se fala em Sun Ra Arkestra, tudo o que remete é abstrato, avant-garde, e ele começou a tocar umas melodias fundamentais, bonitas, mais no estilo Duke Ellington", recorda o músico brasileiro.

"Na hora que acabou o ensaio, todo mundo deu uma cumprimentada e foi dispersando. Fiquei quieto, só queria captar o máximo daquilo."

Brandão demonstra clara devoção a Allen, atualmente com 95 anos, responsável por comandar a banda que mantém vivo o legado de Sun Ra, um dos nomes mais místicos e interessantes da história do jazz e do afrofuturismo.

O brasileiro cantou com o Allen na Alemanha, em um show no Festival Moers. Eles dividiram o palco com o baterista de free-jazz alemão Günter Baby Sommer e o japonês Toshimaru Nakamura, que improvisa sons numa mesa de mixagem.

A reunião na Europa deu origem a "Outros Espaço: Sintonia Cósmico Sônica", como são chamadas as apresentações que os integrantes da Sun Ra Arkestra fazem no Brasil com Brandão, Tulipa Ruiz, Thomas Rohrer, integrantes do Metá Metá (Thiago França, Juçara Marçal), do Uakti (Paulo Santos) e do Hurtmold (Guilherme Granado, Marcos Gerez). Eles tocam nos Sescs de Bauru, São Carlos, São José do Rio Preto e na unidade do Bom Retiro, em São Paulo.

Os shows serão baseados no improviso, até porque não terão tempo para ensaios.

"Eles chegam na quarta (2), um dia antes do show em Bauru", diz Brandão. "Muitas vezes, nessa coisa do improviso, ninguém conversa nada --só entra e toca. Às vezes, passamos uma combinação básica, do tipo 'começa com isso e na hora de tal tema a gente entende que está indo para o final'."

A completa liberdade artística era uma das bandeiras de Sun Ra que Allen incorporou nas mais de quatro décadas em que esteve no grupo. "Está tudo na música, é uma questão de como se colocar", diz o saxofonista. "Se você está tocando rap ou soul, não importa, você só tem que se encaixar ali, porque tudo está na música."

A Sun Ra Arkestra mantém as bases da filosofia de seu líder, o tecladista, arranjador, filósofo e poeta que dizia não ser desse mundo. Ele pregava a paz, misturando influências da Bíblia, do Egito Antigo e do espaço sideral.

Sun Ra, que morreu em 1993, influenciou gerações também com os seus mais de 200 discos --muitos deles, impossíveis de se ouvir atualmente, já que foram feitos em poucas cópias e nunca chegaram a ser digitalizados.

A estética do afrofuturismo, praticamente fundada por Sun Ra nos anos 1950 e 1960, segue presente até hoje na música pop, no trabalho de cantoras como Janelle Monáe e no do produtor de rap Flying Lotus. Seu histórico de influências na música negra, contudo, vai de George Clinton a Erykah Badu e Outkast, entre muitos outros.

"Existe o fato de a maioria de nós ter basicamente sido criada com farinha e disco do Sun Ra", diz Brandão, sobre os músicos que vão se apresentar no Brasil com a Arkestra --o nome é uma junção de "orquestra" com "arca", em referência à Arca da Aliança da Bíblia.

Allen diz que o encontro com os brasileiros deve acontecer de maneira natural, pela versatilidade da Arkestra. "Somos uma banda que toca qualquer música, sabe?", diz. "Passamos por vários estilos e nos divertimos fazendo isso."

Ele, contudo, conta que o percussionista do grupo de 1988, o brasileiro Elson Nascimento, costuma mostrar um pouco de música brasileira a eles. Além de Allen e Elson, os outros integrantes da Arkestra que tocam com o grupo são os saxofonistas Danny Thompson e Knoel Scott.

O sucesso dos shows no Brasil, diz Brandão, passa pela busca de uma intersecção entre o jazz futurista, psicodélico e de vanguarda da Arkestra com algumas características da nossa música. Este conceito, inclusive, já até foi posto em prática, na faixa "Brazilian Sun", lançada em 1963.

"Não consigo pensar em nada mais valioso que esse sentimento de sentir que rolou o olho no olho, que você conseguiu extrair uma conexão com um cara que é um mestre", afirma o brasileiro.

O discurso está alinhado ao de Marshall Allen, para quem a música é sempre guiada pelo sentimento. "Não toco a mesma coisa toda noite, não tem jeito. Você não sente as mesmas coisas todos os dias, não vive as mesmas experiências", diz. "É sobre onde está seu cérebro. Você está vivo, então você leva isso para a música."

Sobre o seu mestre, Allen afirma que carrega um caminhão de memórias, mas também diz que já se esqueceu de muita coisa.

O principal ensinamento que aprendeu com Sun Ra, desde quando o conheceu, em Chicago nos anos 1950, ele resume de forma direta: "Expandir a música. Ela é como a sua imaginação, pode te levar a qualquer lugar. Então, é ser criativo para expandir o pensamento e a música."

A Sun Ra Arkestra completa toca no festival Sesc Jazz, que vai de terça (8) ao dia 27.

Outros Espaço: Sintonia Cósmico Sônica

Sesc São Carlos, av. Comendador Alfredo Maffei, 700, sex. (4), às 20h.

Sesc Rio Preto, av. Francisco das Chagas Oliveira, 1.333, sáb. (5) às 20h30.

Sesc Bom Retiro, al. Nothmann, 185, São Paulo, dom. (6), às 18h. R$ 30

DESTAQUES DO SESC JAZZ

Sun Ra Arkestra (EUA)

Sesc Pompeia, r. Clélia, 93, ter. (8) e qua. (9), às 21h30. R$ 60 Sesc Jundiaí, av. Antônio Frederico Ozanan, 6.600, qui. (10), às 20h. R$ 50

Terri Lyne Carrington and the Social Science Community (EUA)

Sesc Pompeia, qui. (10) e sex. (11), às 21h30. R$ 60

Sesc Guarulhos, r. Guilherme Lino dos Santos, 1.200, sáb. (12), às 20h. R$ 50

Sesc Jundiaí, dom. (13), às 18h. R$ 50

The Art Ensemble of Chicago (EUA)

Sesc Santos, r. Conselheiro Ribas, 136, qui. (24), às 20h. R$ 50

Sesc Pompeia, sáb. (26), às 21h, e dom. (27), às 18h. R$ 60

Orlando Julius & The Heliocentrics (Nigéria)

Sesc Ribeirão Preto, r. Tibiriçá, 50, qui (17), às 20h30. R$ 40

Sesc Araraquara, r. Castro Alves, 1315 sáb. (19), às 20. R$ 50

Sesc Pompeia, dom. (20), às 16h. Grátis

Kristóf Bacsó Trio (Hungria)

Sesc Pompeia, qui. (10), às 21h. R$ 50

Dhafer Youssef (Tunísia)

Sesc Pompeia, sex. (18), às 21h. R$ 60

Sesc Bauru, av. Aureliano Cardia, 6-71, sáb. (19), às 20h30. R$ 50

Ribeirão Preto (Teatro Municipal), dom. (20), às 19h. R$ 50