Banda de Sun Ra, precursor do afrofuturismo e do jazz psicodélico, toca em SP

LUCAS BRÊDA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Rodrigo Brandão ficou impressionado com o histórico saxofonista Marshall Allen durante um ensaio na Alemanha. "Quando se fala em Sun Ra Arkestra, tudo que se remete é abstrato, avant-garde, e ele começou a tocar umas melodias fundamentais, bonitas, mais no estilo Duke Ellington", recorda o músico brasileiro. "Na hora que acabou o ensaio, todo mundo deu uma cumprimentada e foi dispersando. Fiquei quieto, só queria captar o máximo daquilo."

Brandão demonstra clara devoção a Allen, atualmente com 95 anos, responsável por comandar a banda que mantém vivo o legado de Sun Ra, um dos nomes mais místicos e interessantes da história do jazz e do afrofuturismo. O brasileiro cantou com o músico americano na Alemanha, em um show no festival Moers Festival. Eles dividiram o palco com o baterista de free-jazz alemão Günter Baby Sommer e o japonês Toshimaru Nakamura, que improvisa sons em uma mesa de mixagem.

A reunião na Europa deu origem a Outros Espaço: Sintonia Cósmico Sônica, como são chamadas as apresentações que os integrantes da Sun Ra Arkestra fazem no Brasil com Brandão, Tulipa Ruiz, Thomas Rohrer, integrantes do Metá Metá (Thiago França, Juçara Marçal), do Uakti (Paulo Santos) e do Hurtmold (Guilherme Granado, Marcos Gerez). Eles tocam entre os dias 3 e 6 de outubro, em Sescs de Bauru, São Carlos, São José do Rio Preto e São Paulo (Bom Retiro).

Os shows serão baseados no improviso, até porque eles praticamente não terão tempo para ensaios. "Eles chegam na quarta (2), um dia antes do show em Bauru", diz Brandão. "Muitas vezes, nessa coisa do improviso, ninguém conversa nada -só entra e toca. Às vezes, passamos uma combinação básica, do tipo 'começa com isso, na hora de tal tema a gente entende que está indo para o final'."

A completa liberdade artística era uma das bandeiras de Sun Ra que Allen incorporou nas mais de quatro décadas em que esteve no grupo. "Está tudo na música, é uma questão de como se colocar", diz o saxofonista. "Se você está tocando rap ou soul, não importa, você só tem que conseguir se encaixar ali, porque tudo está na música."

A Sun Ra Arkestra mantém as bases da filosofia de seu líder, o tecladista, arranjador, filósofo e poeta que dizia não ser desse mundo. Sun Ra, que morreu em 1993, influenciou gerações não apenas com seus mais de 200 discos -muitos deles, impossíveis de se ouvir atualmente-, mas com a ideologia que pregava a paz, misturando influências da Bíblia, do Egito Antigo e do espaço sideral.

A estética do afrofuturismo, praticamente fundada por Sun Ra nos anos 1950 e 1960, segue presente até hoje na música pop, no trabalho de cantoras pop como Janelle Monáe até o produtor de rap Flying Lotus. Seu histórico de influência na música negra, contudo, vai de George Clinton a Erykah Badu e Outkast, entre muitos outros.

"Existe o fato de a maioria de nós ter basicamente sido criado com farinha e disco do Sun Ra", conta Brandão, falando dos músicos que vão se apresentar com a Arkestra -cujo nome é uma junção de "orquestra" com "arca", em referência à Arca da Aliança da bíblia- no Brasil. "Já teve, por exemplo, improvisação nossa em que os meninos começaram a cantar [a música de Sun Ra] 'Enlightenment' no meio do show. Não é, de maneira nenhuma, se colocar no mesmo lugar de grandeza, mas existe uma coisa que já é integrante daquilo que fazemos e do modo como abordamos a música enquanto improvisação."

Allen diz que o encontro com os brasileiros deve acontecer de maneira natural, pela versatilidade da Arkestra. "Somos uma banda que toca qualquer música, sabe?", diz. "Passamos por vários estilos e nos divertimos fazendo isso."

Ele, contudo, conta que um dos integrantes da banda, o brasileiro Elson Nascimento, percussionista do grupo desde 1988, costuma mostrar um pouco de música brasileira a eles. Além de Allen e Elson, os outros integrantes da Arkestra que tocam com o grupo brasileiro são os saxofonistas Danny Thompson e Knoel Scott.

O sucesso dos shows no Brasil, diz Brandão, passa pela busca uma intersecção entre o jazz futurista, psicodélico e de vanguarda da Arkestra com algumas características da nossa música. Este conceito, inclusive, já até foi colocado em prática, na faixa "Brazilian Sun", lançada por em 1963.

"É você sentir na hora que rolou o 'olho no olho', que você conseguiu extrair uma conexão com um cara que é um mestre", admite o brasileiro. "Não consigo pensar em nada mais valiosos que esse sentimento."

O discurso está alinhado com o de Marshall Allen, para quem a música é sempre guiada pelo sentimento.

"Não toco a mesma coisa toda noite, não tem jeito. Você não sente as mesmas coisas todos os dias, você não vive as mesmas experiências", ele prega. "É sobre onde está seu cérebro. Você está vivo, então você leva isso para a música."

Sobre seu mestre, Allen diz que carrega um caminhão de memórias, mas também diz que já se esqueceu de muita coisa. O principal ensinamento que aprendeu com Sun Ra, desde quando o conheceu, em Chicago, nos anos 1950, passando por temporadas em Nova York, na Filadélfia e viagens para o Egito, ele resume de forma direta: "Expandir a música. Ela é como a sua imaginação, pode te levar a qualquer lugar. Então, é ser criativo para expandir o pensamento e a música."