Balé da Cidade de SP reclama de desprezo e demissões em briga com Theatro Municipal

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A crise instalada entre a organização social Sustenidos, que administra o Theatro Municipal de São Paulo, e os corpos artísticos do teatro não se restringe ao embate com o coro lírico, mobilizado contra a realização de testes previstos pela OS que condicionariam a permanência dos artistas. A percepção de uma tentativa de esvaziamento e desmonte dos corpos artísticos é compartilhada pela direção artística do Balé da Cidade de São Paulo.

Na semana passada, a diretora artística do Balé, Cassi Abranches, foi informada pela superintendente da OS que o contrato de trabalho com a diretora artística assistente do Balé da Cidade seria rescindido e que esse cargo, considerado o braço direito dos diretores de dança, estava extinto. A função de um diretor-assistente ou similar é considerada fundamental em toda grande companhia de dança.

Abranches diz não ter sido consultada sobre a decisão. Em seu contrato de prestação de serviços com a Sustenidos, ao qual a reportagem teve acesso, está previsto como sendo sua função a avaliação de aspectos artísticos, técnicos e financeiros relativos ao corpo artístico.

A justificativa da extinção do cargo foi uma restruturação de todos os corpos artísticos do Theatro --a mesma que ameaça o coro lírico.

Em nota enviada por email à reportagem, a superintendente do Theatro Municipal de São Paulo, Andrea Caruso Saturnino, confirma a rescisão do contrato, "considerando prioridades estratégicas do equipamento, cumprindo com todas as cláusulas do contrato". Segundo o texto, "a função da assistência de direção vem sendo questionada e discutida com a direção artística do Balé há vários meses."

A rescisão do contrato e a extinção do cargo chegam às vésperas de o Balé da Cidade comemorar 55 anos, no próximo dia 7, com a apresentação de duas obras realizadas sob direção de Abranches, as coreografias "Motriz", de sua autoria, e "Fôlego", de Rafaela Sahyoun.

As obras, ambas indicadas para o prêmio da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Dança, foram criadas no ano passado, em condições que já sinalizavam uma crise entre a gestão do teatro e o Balé.

Desde o final de 2021, a sede da companhia no complexo do Theatro Municipal está interditada por questões técnicas. Equipe e bailarinos têm precisado trabalhar em lugares improvisados, como a cúpula do teatro e as salas da Edasp, a Escola de Dança de São Paulo.

A superintendência do Municipal chegou a propor que os bailarinos ensaiassem no estacionamento de uma concessionária de automóveis, segundo a diretora artística do Balé. Em junho do ano passado, por empenho pessoal de Abranches, uma academia particular de dança na zona sul de São Paulo cedeu espaço para que o corpo artístico pudesse ensaiar suas montagens.

Durante esse tempo, os administradores do Municipal só fizeram uma reunião com os integrantes do Balé, a pedido do corpo artístico, que expôs os problemas que prejudicavam o trabalho da companhia e as demandas da equipe que não foram atendidas.

Em nota enviada à reportagem, Saturnino afirma que "as obras do prédio dos Corpos Artísticos na Praça das Artes são de responsabilidade da Fundação Theatro Municipal e estão sendo retomadas nesta semana. O Balé segue ensaiando em um espaço alugado, totalmente adequado às necessidades artísticas do grupo".

Apesar dos problemas estruturais, o Balé manteve uma produção intensa nos últimos dois anos, com estreias e turnês nacionais e internacionais. A companhia acumulou cinco indicações da APCA, incluindo a de melhor espetáculo do ano, e ganhou o Prêmio Governador do Estado para Grupos, Companhias e Corpos Estáveis.

Mas as relações entre o Balé a administração da Sustenido são tensas. A diretora artística, escolhida em processo seletivo por uma banca composta por pessoas indicadas pela OS e representantes de bailarinos e funcionários, conta que recebeu emails vetando qualquer negociação de espetáculos e turnês por parte do Balé.

Em nota, a superintendente o Theatro afirma que a direção artística do Balé tem liberdade para sugerir a programação das temporadas. "No entanto, as negociações financeiras e das etapas de produção dos espetáculos de todos os Corpos Artísticos do Theatro são realizadas pelas equipes de programação e produção, que tem uma melhor dimensão dos procedimentos administrativos".

Há também a proibição de que o Balé da Cidade, assim como o coro e a orquestra, tenha conta própria nas redes sociais --algo reivindicado pelos copos artísticos. A justificativa da OS é que toda a comunicação institucional deve ser centralizada pelos administradores.

"As redes institucionais do Complexo Theatro Municipal estão presentes no Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e TikTok e nelas são publicados os conteúdos que abrangem toda a programação e todos os Corpos Artísticos, com diferentes editorias que abrangem postagens específicas sobre cada Corpo Artístico", diz a nota.

Ainda segundo o texto, as redes são lideradas por uma coordenação de comunicação do Theatro, reestabelecida após o início da nova gestão, e conta com analistas de redes sociais, designers, jornalistas, assessores de imprensa e assistentes.