Baile da Vogue diversifica convidados e barra imprensa para apagar polêmica

Foto: Reprodução/Instagram/@alexandraloras

Por César Oliveira

Portaria com alta segurança e uma quantidade enorme de convidados negros chegando para a festa, esse foi o cenário que encontramos ao chegar na frente do hotel Unique, no último sábado (23), onde aconteceu a edição de 2019 do tradicional Baile da Vogue. A festa, que trouxe o tema “Opera d’Ouro”, foi realizada com um mês de atraso após a polêmica envolvendo a ex-diretora criativa da publicação Donata Meirelles.

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Entenda: no dia 8 de fevereiro, a executiva comemorou sua festa de aniversário em Salvador, na Bahia, com decoração que lembrava o período colonial e remetia à escravidão. Entre mulheres negras com roupas e turbantes brancos, convidados faziam fotos em uma cadeira de candomblé que foi associada a um “trono de sinhá”.

Duramente criticada por racismo, a diretora, criadora do tradicional baile da ‘Vogue’, deixou a publicação após sete anos. Na ocasião, em nota oficial, a revista afirmou que o baile seria adiado (inicialmente previsto para o dia 21 de fevereiro) a fim de “implementar ações de inclusão para que fosse um marco”. Inclusive, foi criado um comitê interno de “questões raciais” e foi solicitada a ajuda da equipe, incluindo alguns estagiários negros.

Representatividade negra aos 45 do segundo tempo 

Depois das acusações, a jornalista Glória Maria foi escalada para apresentar a festa. Antes, somente Sabrina Sato e Bruno Astuto fariam as boas-vindas aos convidados. Alinhando também as atrações convidadas a “nova” proposta, Ludmilla foi chamada para se apresentar ao lado de Ivete Sangalo. Mas, apesar do esforço da “Vogue”, a cantora de funk não subiu ao palco por conta de atrasos na produção do evento.

Leia: Pompom, dourado e fendas: os vestidos das famosas que foram destaque no Baile da Vogue

“Estava preparada para entrar no palco da ‘Vogue’, mas o evento atrasou. Tenho outro show marcado há mais de um ano. Tenho um compromisso com essas pessoas e, infelizmente, não posso me atrasar lá. Por isso, não vou conseguir me apresentar. Fiquei triste, porque está cheio de amigo meu no evento esperando. Neste ano não vai rolar”, justificou Ludmilla em seu perfil no Instagram.

Sem a cantora, a atriz Jennifer Nascimento, vencedora do último “Popstar”, da TV Globo, foi convidada às pressas para se apresentar na festa. A banda As Bahias e a Cozinha Mineira também foi incluída na lista de atrações após a mudança de foco do baile.

 

Nos vídeos, fica evidente que grande parte dos convidados nunca tinha ouvido qualquer música de Assucena Assucena e Raquel Virgínia. Mas, mesmo que tenham sido convidadas para compensar a falta de sensibilidade crítica da ex-diretora em relação ao racismo, a vantagem é que a elite paulistana passou a saber da existência das duas cantoras negras e transexuais, que brilharam em um lugar em que poderiam nem ter sido convidadas em outros tempos. Para marcar a representatividade, Jorge Ben Jor fez o público relembrar de hits como “Chove Chuva”e “Taj Mahal”.

Outros nomes como Negra Li e Zezé Motta também ganharam destaque na repercussão da festa. A nota publicada pelo site da revista destacou o look de Zezé, que escolheu um modelo da grife Dona Jandira, fazendo referência à terra da escrava Xica da Silva, com cores em homenagem à sua orixá: Oxum, arquétipo do ouro e da fertilidade.

A refinada escritora e ex-consulesa da França, Alexandra Loras, coautora do livro “Dicionário da Escravidão e Liberdade”, também foi uma das convidadas da gala. Bem relacionada no meio social, nos bastidores, circulou a informação de que foi ela uma das responsáveis por convidar uma lista mais diversa, que saísse do padrão branco elitista. A ativista Mafoane Odara, coordenadora de projetos do Instituto Avon, e a juíza Mylene Ramos tiveram a oportunidade de debutar na festividade.

Proibido polemizar

Para minar o trabalho da imprensa não credenciada, a ‘Vogue’ bloqueou toda a calçada que dava acesso à porta do baile, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Artistas mais famosos conseguiram passar despercebidos com carros insufilmados para não serem “importunados” com perguntas sobre a polêmica que envolveu a revista no último mês.

Alguns mais acessíveis, como Val Marchiori e Juju Salimeni, chegaram a falar com quem não era bem-vindo ao evento: os repórteres. Elas responderam sobre a lição que o Brasil aprendeu após a repercussão negativa de gente que usa temas fortemente ofensivos para grande parte da população brasileira.

Mas no cenário branco de privilégios, Val e Juju defenderam Donata. “Tenho certeza de que ela não quis fazer aquilo para que as pessoas entendessem como racismo. Ela não teve a intenção, mas o marido dela [o publicitário Nizan Guanaes] é um expert, deveria ter orientado [para os detalhes]”, disse a socialite, bem sincerona.

Para Juju Salimeni, tudo não passou de um mal entendido: “Por ser do candomblé, como ela, entendi que a divulgação era sobre religião, que tem tudo a ver com a Bahia. Infelizmente, algumas pessoas se sentiram ofendidas e achei correta a posição dela de pedir desculpas, se colocou totalmente como uma pessoa humilde e pediu perdão a quem ofendeu”.

Apesar de estarmos no final dos anos 10 do século 21, o racismo segue fortemente presente na sociedade brasileira de forma nada velada. Com 54% da população brasileira sendo negra, é até motivador observar que um erro tão lamentável tem provocado mudanças (em passos lentos) na linha editorial de uma das maiores publicações de moda do Brasil, que genuinamente deveria promover a inclusão em um aspecto que move toda uma sociedade.

Uma das poucas jornalistas negras do Brasil, Joyce Ribeiro publicou uma foto em seu Instagram durante a festa e apontou para reflexão: “Sobre celebrar, agregar e refletir as transformações capazes de nos aproximar e construir pontes”.