"Bacurau" é o anti-"Tropa de Elite": um retrato da insanidade e do surrealismo trágico do Brasil 2019

Bacurau retrata o Brasil 2019 (Foto: Divulgação)

Por Thiago Ney

Não tem santo em "Bacurau". Esta é a principal virtude do filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que ganhou o prêmio do Júri no mais recente Festival de Cannes e estreou há pouco nos cinemas do Brasil.

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"Bacurau" é um faroeste com pitadas de ficção científica ambientado no oeste de Pernambuco, sertão nordestino. Como os bons e velhos faroestes, o longa de 132 minutos de duração tem mocinhos e bandidos – mas sem o maniqueísmo comum ao gênero e sem o coitadismo com que muitos cineastas retratam os povos do sertão brasileiro.

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O próprio sertão que vemos no filme é diferente da visão de sertão (amarelo, árido, pedregoso) com que somos bombardeados em filmes. O sertão de Bacurau é cheio de verde (e, veja você, até chove!!!!).

Bacurau é o nome de um povoado esquecido pelo poder. O filme é ambientado em um futuro próximo e distópico (quer dizer, nem tão distópico assim). Naquele fim de mundo, a maioria dos moradores possui telefones celulares _mas precisam de um caminhão-pipa para ter acesso a água potável.

Ali, o prefeito da cidade de vez em quando leva mantimentos para a população, mas eles estão com a data vencida. As vacinas são levadas por uma ex-moradora, em um isopor.

Mas pobreza não é sinônimo de atraso. Falta de dinheiro não significa falta de sabedoria. O povo de Bacurau é simples, mas ambicioso, conectado, esperto. Um povo que toma psicotrópicos e que enxerga a vingança como sobrevivência.

"Bacurau" tem início com Teresa (Bárbara Colen) sentada em um caminhão, voltando para o povoado onde está fincada a sua família. A avó, Carmelita, morreu, e está sendo velada. Já nesse início, temos pequenos indícios de que algo está (bem) errado.

Bacurau (Foto: Divulgação)

O filme muda vai mudando de tom aos poucos, com entrada de personagens como a médica Domingas (Sônia Braga), o ex-matador Pacote (Thomás Aquino) e o bandido Lunga (Silvero Pereira). E os dois sulistas motoqueiros. A distopia se consolida a partir daí, com os drones e os estrangeiros que se aproximam perigosamente.

Há, no entanto, pelo menos um problema em "Bacurau". O filme faz crítica (justa) à maneira caricata, simplória, com que os povos dos sertões são encarados por muitos sulistas (e moradores das capitais). Mas, paradoxalmente, retrata os estrangeiros com um reducionismo que incomoda (basicamente, imperialistas que enxergam os latinos como seres inferiores; nem todo norte-americano é Donald Trump, né?). Esquemática e pueril, a cena em que os motoqueiros sulistas se reúnem com os estrangeiros é o ponto fraco de "Bacurau".

Outra questão: por que a personagem de Bárbara Colen ganha tão pouco espaço depois de conduzir o filme em seu início?

Brasil atual

Mas a força de "Bacurau" é maior do que esses problemas. O filme é uma alegoria da insanidade, do surrealismo trágico e da falta de compaixão e tolerância que tomaram o Brasil 2019. Uma das cenas mais impactantes e que representa bem esse absurdo é a que reúne Domingas e Michael (o líder dos estrangeiros, interpretado por Udo Kier).

A serenidade de uma mulher encara a desumanidade de um nazi que porta um facão. Sob o som de "True", um megassucesso dos anos 1980 do Spandau Ballet (trecho da letra "Ah, ah, ah, ah/ Eu sei o quanto isso é verdade/ Ah, ah, ah, ah/ Eu sei o quanto isso é verdade/ Com emoção na cabeça e uma pílula na língua/ Dissolvo os nervos que apenas começaram/ Ouço Marvin a noite toda/ Este é o som da minha alma/ Este é o som"). A cena é um dos grandes momentos do cinema brasileiro recente.

Ao 'Jornal do Commercio', os diretores citaram John Ford, John Carpenter, Sergio Leone, Sam Peckinpah e Paul Verhoeven como referências pontuais em cenas de "Bacurau". As citações não são à toa. "Bacurau" tem muito desses caras porque são os caras que fizeram parte dos filmes que encantaram a geração de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Dá para comparar "Bacurau" com "Tropa de Elite", de José Padilha. Porque estão ideologicamente em lados opostos. Enquanto este último legitima a violência como meio para alcançar a ordem, em "Bacurau" a violência é justificada como o único meio de um povo para combater um inimigo que quer a sua destruição.

‘Tropa’ tem um mocinho claro, toma partido do Capitão Nascimento e de suas escolhas; o policial do Bope faz de tudo (até tortura) em nome da eliminação da desordem, da bandidagem. "Bacurau" não tem mocinhos; tem um povo que se vê ameaçado e que encontra no banho de sangue a única maneira de sobrevivência.