O que está acontecendo com o Babu no ‘BBB 20’ se chama racismo estrutural

Babu Santana no 'BBB 20'

Em uma reviravolta de eventos, Daniel parece, agora, ser o grande vilão do ‘BBB 20’, acompanhado lado a lado de Marcela. O motivo? Uma série de comentários sobre Babu, que renderam uma conversa extensa sobre racismo no Twitter. 

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

E nos siga no Google News: Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

A tag Babu não é escravo acabou subindo como uma das mais comentadas da última quarta-feira (4), na rede social. E não é sem motivo. Enquanto conversavam na cozinha, Marcela disse que o ator já está há muito tempo na xepa e que gostaria de vê-lo fora de lá um dia. Ao mesmo tempo, Daniel soltou a resposta - muito polêmica - expondo a sua opinião sobre o assunto: “A imagem dele, só vejo lá. Aqui [no VIP], não vejo”. 

Mais tarde, a conversa continuou, e Marcela levantou a bola com mais um comentário de cunho questionável. Perguntando se seria válido tirá-lo da xepa, em uma conversa com Flay, ela concluiu que talvez não valesse a pena, já que a convivência tem sido tão difícil e ele parece querer causar desentendimentos. E completou: “Ou a gente põe ele no paredão e ele sai e come o que quiser”, o que tirou risadas dos outros participantes na roda.  

Leia também

Essas são apenas alguns exemplos de como o ator se tornou um alvo escancarado do racismo feito ironicamente ou não por pessoas brancas que estão no "VIP” — qualquer semelhança com a realidade... Sim, o que tem acontecido com ele é exatamente isso, um escancaramento da mentalidade racista que se tornou senso comum no Brasil. 

Se o primeiro comentário de Daniel não deixa isso claro, uma outra frase de Marcela dizendo que colocaria Babu no VIP para “arrumar a cozinha”, ou uma outra pergunta, “de onde ele vem as pessoas brigam por comida todo dia?”, são prova de algo errado não está certo. 

O nome disso é racismo estrutural. Isso significa que o racismo faz parte da estrutura da nossa sociedade como a conhecemos hoje. E como isso aconteceu? Depois da abolição da escravatura, em 1888, a população negra que, até então, era escravizada se tornou “livre”, porém, sem quaisquer direitos garantidos. Sem acesso à terras ou qualquer resguardo para fazer a transição de sua condição vida sub-humana para uma em iguais condições aos dos seus patrões, eles foram mantidos em uma posição de inferioridade - e que continua até hoje. 

Vale lembrar que a população negra é maioria no Brasil (são mais de 56%, segundo o IBGE), mas essas pessoas seguem sendo vistas como uma “minoria” por conta desse desequilíbrio social - o branco sempre teve mais vantagens, direitos e poderes dentro da nossa sociedade, e isso desde os primórdios da sua criação, quando os portugueses dizimaram a população indígena ao desembarcarem por aqui. 

Como resultado, um homem negro como Babu é visto como agressivo, como “chato”, até mesmo como um “monstro” (como disse Gabi), mantendo a sensação de rejeição e a posição de exclusão dele dentro da casa. 

Comentários como os de Daniel e de Marcela podem parecer inofensivos, mas é sempre válido o exercício: se Babu fosse um homem branco, loiro, de olho azul, ele receberia o mesmo tratamento? Comparações nunca são o ideal, mas é fato que existe uma valorização e até uma “passada de pano” para os comentários de Daniel, enquanto os de Babu… Basta acompanhar o programa para saber a opinião dos brothers sobre ele. 

Babu chorou por conta da forma como as pessoas olham para ele dentro da casa. Um choro embasado, principalmente, por essa visão racista de que o homem negro é “animalesco” é “menos sociável” e é “ameaça” para a população branca. Um homem branco que faz algo errado é visto como “moleque”. Um homem negro que faz a mesma coisa muito provavelmente será considerado um criminoso - e vai acabar na cadeia.  

O que acontece com o participante, portanto, é o resultado de uma forma de pensar que exclui, diminui e mantém à margem uma população que, historicamente, sofre por conta da sua cor de pele. Resta esperar o que vai acontecer no próximo paredão, mas, de fato, é difícil pensar que a visão dos participantes vai mudar a ponto de reconhecer que a maneira como alguns deles têm se comportado reflete um racismo muitas vezes sutil, mas sempre presente.