O que está acontecendo com o Babu no ‘BBB 20’ se chama racismo estrutural

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
Babu Santana no 'BBB 20'
Babu Santana no 'BBB 20'

Em uma reviravolta de eventos, Daniel parece, agora, ser o grande vilão do ‘BBB 20’, acompanhado lado a lado de Marcela. O motivo? Uma série de comentários sobre Babu, que renderam uma conversa extensa sobre racismo no Twitter.

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A tag Babu não é escravo acabou subindo como uma das mais comentadas da última quarta-feira (4), na rede social. E não é sem motivo. Enquanto conversavam na cozinha, Marcela disse que o ator já está há muito tempo na xepa e que gostaria de vê-lo fora de lá um dia. Ao mesmo tempo, Daniel soltou a resposta - muito polêmica - expondo a sua opinião sobre o assunto: “A imagem dele, só vejo lá. Aqui [no VIP], não vejo”.

Mais tarde, a conversa continuou, e Marcela levantou a bola com mais um comentário de cunho questionável. Perguntando se seria válido tirá-lo da xepa, em uma conversa com Flay, ela concluiu que talvez não valesse a pena, já que a convivência tem sido tão difícil e ele parece querer causar desentendimentos. E completou: “Ou a gente põe ele no paredão e ele sai e come o que quiser”, o que tirou risadas dos outros participantes na roda.

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Essas são apenas alguns exemplos de como o ator se tornou um alvo escancarado do racismo feito ironicamente ou não por pessoas brancas que estão no "VIP” — qualquer semelhança com a realidade... Sim, o que tem acontecido com ele é exatamente isso, um escancaramento da mentalidade racista que se tornou senso comum no Brasil.

Se o primeiro comentário de Daniel não deixa isso claro, uma outra frase de Marcela dizendo que colocaria Babu no VIP para “arrumar a cozinha”, ou uma outra pergunta, “de onde ele vem as pessoas brigam por comida todo dia?”, são prova de algo errado não está certo.

O nome disso é racismo estrutural. Isso significa que o racismo faz parte da estrutura da nossa sociedade como a conhecemos hoje. E como isso aconteceu? Depois da abolição da escravatura, em 1888, a população negra que, até então, era escravizada se tornou “livre”, porém, sem quaisquer direitos garantidos. Sem acesso à terras ou qualquer resguardo para fazer a transição de sua condição vida sub-humana para uma em iguais condições aos dos seus patrões, eles foram mantidos em uma posição de inferioridade - e que continua até hoje.

Vale lembrar que a população negra é maioria no Brasil (são mais de 56%, segundo o IBGE), mas essas pessoas seguem sendo vistas como uma “minoria” por conta desse desequilíbrio social - o branco sempre teve mais vantagens, direitos e poderes dentro da nossa sociedade, e isso desde os primórdios da sua criação, quando os portugueses dizimaram a população indígena ao desembarcarem por aqui.

Como resultado, um homem negro como Babu é visto como agressivo, como “chato”, até mesmo como um “monstro” (como disse Gabi), mantendo a sensação de rejeição e a posição de exclusão dele dentro da casa.

Comentários como os de Daniel e de Marcela podem parecer inofensivos, mas é sempre válido o exercício: se Babu fosse um homem branco, loiro, de olho azul, ele receberia o mesmo tratamento? Comparações nunca são o ideal, mas é fato que existe uma valorização e até uma “passada de pano” para os comentários de Daniel, enquanto os de Babu… Basta acompanhar o programa para saber a opinião dos brothers sobre ele.

Babu chorou por conta da forma como as pessoas olham para ele dentro da casa. Um choro embasado, principalmente, por essa visão racista de que o homem negro é “animalesco” é “menos sociável” e é “ameaça” para a população branca. Um homem branco que faz algo errado é visto como “moleque”. Um homem negro que faz a mesma coisa muito provavelmente será considerado um criminoso - e vai acabar na cadeia.

O que acontece com o participante, portanto, é o resultado de uma forma de pensar que exclui, diminui e mantém à margem uma população que, historicamente, sofre por conta da sua cor de pele. Resta esperar o que vai acontecer no próximo paredão, mas, de fato, é difícil pensar que a visão dos participantes vai mudar a ponto de reconhecer que a maneira como alguns deles têm se comportado reflete um racismo muitas vezes sutil, mas sempre presente.