Aziz Ansari discute cultura da “lacração” em novo stand-up na Netflix

(Imagem: divulgação Netflix)

Até o início do ano passado, o comediante Aziz Ansari estava no auge. As duas temporadas de sua série ‘Master of None’ foram aclamadas por crítica e público, lhe rendido múltiplas indicações ao Emmy e ele acabara de vencer um Globo de Ouro.

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Numa indústria do entretenimento cada vez mais atenta à diversidade, o ator de origem indiana se destacava como representante de uma minoria e navegava como poucos os mares revoltos dos relacionamentos amorosos hoje em dia - a ponto de ter escrito até mesmo um livro com sua pesquisa séria sobre o assunto, ‘Romance Moderno’, publicado em 2015.

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Tudo isso ficou comprometido por conta de uma acusação de assédio, tornada pública em janeiro de 2018, quando uma mulher relatou ao site babe.net ter sido forçada a fazer sexo oral em Ansari na casa dele, após um jantar romântico. O ator se desculpou publicamente, disse que tinha entendido o ato como consensual, e se afastou dos holofotes por um tempo.

‘Right Now’, especial de stand-up disponível na Netflix desde a última terça-feira e dirigido pelo cineasta Spike Jonze (‘Quero Ser Malkovich’ e ‘Ela’), é sua volta a um projeto de grande alcance depois de tudo isso. E também uma tentativa de mostrar que ainda pode seguir a carreira. Ansari fala do assunto logo no início, mostrando arrependimento e dizendo se sentir terrível por aquilo tudo. “Espero ter me tornado uma pessoa melhor”, reconhece.

Se o efeito em sua vida pessoal só ele mesmo sabe, o que o especial prova é que seu tino para a comédia continua afiado. Em aproximadamente uma hora, o humorista fala sobre as mudanças sociais e culturais nos últimos anos, ironizando não apenas quem acha que tudo é “mimimi”, mas também quem não perde a chance de fazer textões sobre o assunto só para querer “lacrar”.

“Digam o que quiser sobre racistas, mas eles pelo menos são curtos e grossos”, brinca. “Mas brancos que acabaram de perceber as coisas são exaustivos”, completa, satirizando ainda o fato de que espera-se de todos uma opinião sobre tudo hoje em dia.

Quando fala de temas polêmicos, como as acusações de pedofilia contra Michael Jackson incluídas no documentário ‘Deixando Neverland’, ele evita entrar no mérito de julgar o Rei do Pop culpado ou inocente, e procura apontar a ironia disso ter sido transformado em quatro horas de entretenimento.

No momento mais genial de sua performance, o comediante conta a história de um sujeito que pediu uma pizza e, quando abriu a caixa entregue em casa, notou que as fatias de pepperoni tinham sido arranjadas no formato de uma suástica.

Ansari pergunta então ao público do teatro quantas pessoas tinham lido essa notícia e acreditavam que foi uma manifestação de racismo do entregador. Alguns dos presentes aplaudem, concordando. Outros aplaudem quando o ator pergunta se, ao lerem a história, acharem que aquilo era tudo um mal-entendido. Em seguida, Ansari revelou ter inventando o caso, o que não impediu muita gente de dar sua opinião, prova deste estado de espírito desesperado para “apontar o dedo” ou “passar o pano” que já migrou das redes sociais para o mundo real.

Não que o humorista seja contra as discussões e mudanças que vem acontecendo, o que muitos chamam de “politicamente correto”. O ator é o primeiro a apontar piadas que fez no passado e que já não se sentiria bem em fazer novamente. Ele só pede mais calma na hora de tirar conclusões para não agir de forma precipitada.

Assim como ‘Nanette’, da australiana Hannah Gadsby, que virou sensação na Netflix alguns meses atrás, ‘Right Now’ é uma espécie de stand-up reflexivo e intimista. O desfecho, no qual Ansari reconhece a importância de poder estar diante de uma plateia novamente e de valorizar mais cada passo de seu trabalho, encerra o especial de forma honesta e mostra um artista ainda em reconstrução, tentando entender seu lugar no mundo. Como muitos de nós.