Ávine Vinny mostra que é fácil ser "aprendiz" enquanto a mulher é ameaçada

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Ávine Vinny, o famigerado intérprete de “Coração Cachorro”, foi preso em flagrante na segunda-feira (13) porque ameaçou a ex-esposa Lais Holanda, de morte. Quando um homem diz: “Eu destruo minha vida, mas acabo com a tua”, como o músico disse em áudio para Lais, era de se esperar que fossem tomadas medidas essenciais para mantê-lo bem longe dela, e de qualquer mulher. Mas o que aconteceu foi mais um episódio da velha cumplicidade masculina, a mesma que pautou as manifestações públicas de diversos artistas a DJ Ivis, (artista que cometeu um crime ao agredir sua ex esposa e foi detido).

Ávine teve sua prisão relaxada na audiência de custódia no dia último dia 14, a justificativa foi que por ser réu primário, ter endereço fixo de conhecimento da Justiça e “bons antecedentes”, ele não só não ficaria preso como nem tornozeleira eletrônica usaria.

É muito confortável ficar nessa posição de aprendiz, porque se algo errado acontece você pode dizer que não sabia o que estava fazendo

O ponto de importância é que a vítima precisava ser protegida, e claramente não foi, de nenhuma maneira. Fica muito claro que a vida de uma mulher vale muito pouco quando mesmo em uma ameaça de morte, se considere os bons antecedentes e endereço fixo de um homem transtornado e potencialmente perigoso.

Ameaça de morte é algo muito sério, principalmente se tratando de um caso em um país onde o numero de feminicídio é gigantesco. Por coincidência, o Ceará, estado onde os dois vivem e onde o caso ocorreu, tem a segunda maior taxa de feminicídio do país segundo o 15º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lá morrem sete mulheres a cada 100 mil, e na verdade esse número pode ser muito maior, porque nem todos os crimes contra a mulher foram classificados como feminicídio.

Desconstrução, perdão e aprendizado virou o clichê da desculpa básica, que não diz nada e deixa tudo como está

Ávine Vinny estar livre hoje é de um absurdo que só é possível porque o machismo é um problema que também está enraizado nas instituições, e enquanto a mulher não for vista como um ser humano, que merece ser protegida e ter seus direitos garantidos, é muito provável que o feminicídio continue aumentando e os homens sigam tendo punições brandas e altamente irresponsáveis com as vítimas dele.

Até quando iremos passar a mão na cabeça de homens, e homens brancos, principalmente?

Mas, como se não bastasse essa questão, Ávine Vinny postou um vídeo em suas redes sociais em que ele anuncia que vai explicar “tim tim por tim tim” o que aconteceu, e no fim não explica absolutamente nada, mas trata rapidamente de dizer que é um caso resolvido, já que Lais Holanda retirou a denúncia de ameaça, mas o inquérito pode seguir. Ele agradece a sensibilidade da mulher nos seus stories, por ter considerado o histórico de vida dos dois.

É impressionante a paz do sujeito, que até ontem talvez nem a própria liberdade teria mais. É a paz de um homem que sabe que pode fazer o que quiser, porque o mundo está com ele, da Justiça aos amigos, que “sabem quem ele é de verdade e desejam que ele seja abençoado por Deus”. A parte mais emblemática é a que ele solta a frase treinada: “Eu peço perdão, sem dúvidas a gente aprende, pois estou me desconstruindo e construindo ao mesmo tempo”.

Até quando? Até quando esse aprendizado vai acontecer ao custo da violência psicológica e física das mulheres? É muito confortável ficar nessa posição de aprendiz, porque se algo errado acontece você pode dizer que não sabia o que estava fazendo ou estava em um dia ruim e que vai fazer diferente na próxima vez. Existe uma coisa que ao homem não é atribuída: a responsabilidade. Desconstrução, perdão e aprendizado virou o clichê da desculpa básica, que não diz nada e deixa tudo como está.

Você pode pensar: “mas o sujeito só teve um dia ruim, se excedeu, todo mundo erra, considere o lado dele também". O que mais foi feito nessa situação foi considerar o lado dele. A Justiça considerou, parte do público considerou, mas sabe quem recebeu mensagens de ódio, a chamando de interesseira e coisas piores? Lais Holanda. Ela ainda precisou se explicar que não tinha o interesse de acabar com a carreira de ninguém, só queria sua proteção.

Absolutamente todos os dias se considera o lado dos homens em todos os aspectos, mas a mulher, muito pelo contrário, é automaticamente julgada, e no meio do próprio caos, precisa explicar porque fez uma denúncia após ser ameaçada de morte.

Esse caso é um exemplo negativo que mais uma vez reforça para o público que a vida da mulher não tem valor, e se outro homem fizer o mesmo, provavelmente terá as regalias de Ávine Vinny. Podemos continuar como meninos ingênuos, podemos continuar errando, cometendo crimes, pedindo perdão, dizendo que estamos aprendendo e ganhando cada vez mais seguidores. Esse é o eterno aprendizado masculino ao custo da saúde mental, física e da vida dessas mulheres. É preciso falar sobre masculinidades, os efeitos do machismo e sobre feminicídio. Já passou da hora dos homens serem responsabilizados de verdade.

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