Avanço da pandemia e caos nos dados faz São Paulo tomar medidas a 'conta-gotas' contra Covid

João Conrado Kneipp
·7 minuto de leitura
Health workers walk through the Rocinha slum to test people for COVID-19 as part of a rapid test campaign by the civilian organization "Bora Testar," or "Let's Test" in Rio de Janeiro, Brazil, Thursday, Oct. 8, 2020. Financed by crowdfunding and donations, the organization says it aims to test up to 300 people in the slum. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
Trabalhadores de saúde caminham para testagem de pessoas para Covid-19. (Foto: AP Photo / Silvia Izquierdo)

O crescimento nos números da Covid-19 em São Paulo fez com as gestões Doria e Covas anunciassem medidas pontuais para conterem o que ensaia ser um avanço da pandemia do novo coronavírus. A cautela nas ações ocorre junto ao cenário de incerteza na leitura dos dados após uma pane no sistema do governo federal.

Tanto a capital quanto o estado apresentaram, nos últimos dias, aumento nos indicadores de controle da doença. As autoridades do município e do governo, no entanto, negam que seja o início de uma segunda onda e alegam que a oscilação positiva é resultado de um conjunto de fatores.

Na capital, o índice de ocupação dos leitos de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) dos hospitais públicos por pacientes da Covid-19 está em 49%, o maior já registrado desde 10 de agosto quando era de 50%. Só na última semana, o crescimento dessa taxa foi de 15%, na comparação com os sete dias anteriores.

Na Grande São Paulo, essa taxa de ocupação chega a 49,7%.

O número de internações por Covid-19 em São Paulo aumentou 26% na comparação dos boletins diários dos últimos 15 dias. A procura por atendimento vinda de pacientes com suspeita de infecções pelo novo coronavírus também disparou no mesmo período.

Já no estado, houve aumento de 27,2% na média móvel nas internações de pacientes com Covid-19 nas últimas 2 semanas, passando de 859 pacientes por dia para 1093 infectados internados em média diária. Nos óbitos, o crescimento da média móvel no estado foi de 8% no mesmo período, indo de 88 mortes por dia para 95.

A taxa de ocupação dos leitos de UTI em todo o estado é de 43,5%.

A COVID-19-infected patient is seen at the Intensive Care Unit, in the Albert Einstein hospital in Sao Paulo, Brazil, on November 16, 2020. - Brazil, the second country in the world with the most deaths from coronavirus, is registering an increase in hospitalizations that raises fears of a second wave of the pandemic like the one that is hitting Europe and the United States. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Paciente infectado por Covid-19 é atendido na UTI do Hospital Albert Einstein em São Paulo. (Foto de NELSON ALMEIDA / AFP via Getty Images)

‘ESTABILIDADE’ E ‘RECRUDESCIMENTO’ DA ONDA

Apesar do crescimento dos indicativos, integrantes dos governos de João Doria (PSDB) e Bruno Covas (PSDB) descartaram qualquer possibilidade de decretarem lockdown ou endurecimento das medidas restritivas ao funcionamento do comércio.

Governo e prefeitura de São Paulo também avaliam que, até o momento, os dados apontam para uma situação estável da pandemia de Covid-19, e que as recentes altas significam um endurecimento da primeira onda que atingiu o estado.

“Estamos nesse momento em uma condição de bastante atenção e cautela frente aos dados que sinalizaram tanto um aumento no número de casos, bem como um aumento no número de internações. (...) Apesar desses incrementos (nos indicadores), estamos muito distantes daquilo vivenciado em semanas nos meses de maio, junho e julho, mas que merecem atenção”, avaliou o secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn.

Gorinchteyn rechaçou totalmemte a imposição de um lockdown para conter a alta nos casos. “Isso (lockdown) não foi feito nem lá nos primórdios, nem nos períodos em que nós tínhamos realmente uma taxa de ocupação em unidades de terapia intensiva que superavam 95%, algumas chegavam a 100%”, disse, em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (19).

Na mesma coletiva, o governo Doria anunciou a assinatura de um decreto impedindo que os hospitais agendem novas cirurgias eletivas e que desativem leitos de UTI e enfermaria destinados a pacientes de Covid-19.

Leia também

Ao todo, o estado de São Paulo possui cerca de 7 mil leitos mobilizados para Covid-19, o que até agora não representaria um risco de falta de leitos, de acordo com o coordenador-executivo do Centro de Contingência do Coronavírus, João Gabbardo.

“Estávamos trabalhando com uma ocupação de 39% dos leitos Covid e hoje estamos com 43%, perto de 44%. Houve um aumento de 20%, mas não temos riscos de falta de leitos nesse momento”, afirmou Gabbardo, que classificou esse crescimento como recrudescimento da doença. “Efetivamente, pelos dados apresentados, percebe-se que houve um recrudescimento. Pequeno, mas houve”, completou.

A mesma avaliação de “recrudescimento” é feita pelo infectologista David Uip — que também integra o Centro de Contigência do Coronavírus. “Não há uma segunda onda em São Paulo, e sim uma continuidade da primeira onda. Agora, há um recrudescimento dessa onda”, analisou o infectologista.

O prefeito da capital repetiu o discurso: negou que a capital esteja passando por uma segunda onda e classificou como estável a situação da pandemia da Covid-19 na cidade, em coletiva concedida na manhã de quinta.

“Estamos em um momento de estabilidade da pandemia na cidade de São Paulo. Há uma estabilidade em relação ao número de casos na cidade de São Paulo, uma estabilidade em relação número de óbitos na cidade de São Paulo, mas há uma variação positiva na taxa de ocupação dos leitos de UTI Covid”, afirmou o prefeito.

João Doria and Bruno Covas, during a press conference on measures to combat the Coronavirus, (COVID-19) on Thursday, November 12, 2020 at the Palácio dos Bandeirantes in Sao Paulo, Brazil. During the press conference João Doria spoke about the São Paulo F1 GP and the Usina São Paulo concession contract, in Rio Pinheiros. (Photo: Roberto Casimiro/Fotoarena/Sipa USA)(Sipa via AP Images)
Governos de Covas e Doria descartaram um eventual lockdown ou endurecimento das medidas restritivas. (Foto: Roberto Casimiro/Fotoarena/Sipa USA)(Sipa via AP Images)

Assim como Gorinchteyn, Covas descartou qualquer necessidade de decretar um lockdown no município. “Não há nenhum número que indique qualquer necessidade de lockdown”, declarou, ressaltando, no entanto, que “não é o momento de ampliar a flexibilização”.

No âmbito municipal, a gestão anunciou a abertura de 200 novos leitos nos hospitais municipais da Brasilândia, na zona norte; de Parelheiros, no extremo sul; e no Irmã Dulce (Bela Vista), na região central.

O secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, rebateu a possibilidade da reativação dos hospitais de campanha ou da paralisação na realização de exames, consultas e procedimentos eletivos, como ocorreu na fase mais intensa da pandemia na capital.

INCERTEZA NA LEITURA DOS DADOS

Um dos objetivos das medidas pontuais anunciadas até agora é ganhar tempo para compreender se o crescimento apontado pelos indicadores é uma chegada de dados represados de dias anteriores ou se representam, de fato, um aumento.

Contribuem para essa desorganização dos dados uma falha no sistema que compila os dados de Covid-19 do Ministério da Saúde e o feriado de Finados, há 2 semanas.

Na semana passada, por conta dos problemas nos servidores do governo federal, o estado de São Paulo ficou cinco dias sem divulgar boletins com números de casos e óbitos por novo coronavírus.

Após a normalização do sistema e a chegada dos relatórios, ocorrida no início desta semana, o governo admitiu pela primeira vez que ocorre um aumento estimado em 18% nas internações.

No entanto, a secretaria de Saúde alega não ter tido ainda um tempo hábil para distinguir se os dados indicam um crescimento real do período ou se é um lançamento de números que estavam travados no sistema ao longo das semanas.

“Não conseguimos entender se eram dados represados e por isso aumentaram (os números de casos e mortes). Ou se, caso realmente tenham aumentado, o quanto aumentaram. Porque esses dados estão sendo inseridos de forma gradual”, explicou o Gorinchteyn.

Além do erro no sistema, outro ponto que pode ter atrasado a liberação dos levantamentos de infectados e mortos é o feriado de Finados e o fim de semana que o antecedeu.

“Na semana do feriado naturalmente temos uma redução dos dados porque os órgaos que compilam esses dados não trabalham no sábado, domingo e na segunda. Porém, quando eles poderiam ser disponibilizados, fomos supreendidos pelo problema técnico”, completou o secretário estadual de Saúde.

Na dúvida, a reclassificação do Plano São Paulo — programa de regras para endurecimento ou flexibilização das medidas restritiva ao comércio e serviços — foi alterada e passará a ser feita a cada 14 dias, Antes, a recalibragem era feita a cada 28 dias.

“O período de 1 mês era adequado na curva descente. Como agora tivemos 2 semanas consecutivas com aumento de internações, mudamos para acompanhar a classificação a cada 14 dias. Se essa tendência (de alta) se mantiver, os indicadores do Plano São Paulo vão demonstrar e teremos sim que tomar medidas mais restritivas”, disse a secretária de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen.