Autores da Bienal afirmam: "A gente não vai permitir que tirem a nossa liberdade"

Autores comentam sobre a censura a livros LGBTQ na Bienal do Livro do Rio de Janeiro (Foto: Instagram / Clara Alves)

No último final de semana, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro foi marcada por um ato político. Depois que o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, pediu pela apreensão de livros "impróprios" durante o evento - e conseguir o aval da Justiça -, ele virou um ato de resistência. Felipe Neto comprou mais de 10 mil livros da temática para distribuir gratuitamente por lá, e os autores, claro, aproveitaram o momento para se posicionar contra essa ação de censura.

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"Sem dúvidas, essa foi uma edição histórica em muitos sentidos", disse o autor LGBTQ+ Leonardo Antan. "Tanto pelo lamentável caso de censura, como pela forte reação que isso repercutiu. Toda a manifestação das editoras, dos leitores e da organização do evento criou uma rede a favor da liberdade de expressão, formando um movimento de apoio muito bonito e importante".

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Segundo ele, mesmo com as críticas e penalizações do governo, o aumento pela busca desse tipo de literatura foi notável, e o contato com o público, muito intenso e importante. "Ajudou a fortalecer um sentimento que ninguém estava sozinho, mas numa frente contra qualquer tipo de censura", disse.

Para Clara Alves, autora de "Conectadas", a experiência de estar no evento sob uma grande editora, que acima de tudo deu destaque para livros focados nesse tema, foi incrível - mesmo com todos os contratempos.

De acordo com ela, a notícia da proibição da venda de uma HQ que foi considerada "inapropriada" chegou aos ouvidos dos participantes, mas só no dia seguinte, na sexta, é que a notícia da fiscalização se espalhou por lá. "Eu recebi muitas mensagens de amigos meus", explica ela. "Muita gente estava com medo, eu comecei a me sentir muito apreensiva. Na hora eu fiquei pensando se eu deveria sair dali ou ir embora".

Clara explica que a editora chegou a comentar que ia trocar o seu livro de lugar na estante de exposição - de uma prateleira mais baixa para uma mais alta -, numa tentativa de driblar a fiscalização. A prefeitura afirmava que esse livros, considerados impróprios para menores de idade, estavam muito ao alcance das crianças. "Eu pensei se não deveria desistir, mas logo que chegaram as notícias as editoras se movimentaram para tentar impedir. Eu passei por todos os estágios, de medo, de tristeza, de que a gente estava retrocedendo, mas depois vi que está todo mundo lutando contra isso, então, eu vou ficar e continuar vendendo o meu livro para as pessoas".

A movimentação saiu da Bienal e foi direto para a internet. No Twitter, Clara disse que começou a receber inúmeras menções de amigos e influenciadores indicando livros LGBTQ+ e viu threads e mais threads de pessoas falando sobre essas leituras. "Comecei a ver esse movimento de resistência muito forte e acho que isso foi me dando forças para continuar ali", disse.

Leonardo, autor e editor na Rico Editora, explica que a maior parte do seu público são jovens que buscam na literatura LGBTQ+ um lugar de representatividade e acolhimento. Para ele, os livros contém apenas histórias de amor, mas com personagens do mesmo sexo. "Isso não é motivo para censura alguma de qualquer público. O beijo faz parte da vida cotidiana de qualquer ser humano com acesso a informação, seja em meios artísticos, ou de propaganda", diz.

Mesmo diante do clima de apreensão, Leonardo se manteve firme e seguiu trabalhando no estande, conversando com os adolescentes que apareciam por lá para comprar os livros e certo de que o seu trabalho tinha um respaldo legal, apesar das opiniões governamentais. "Foi um ato de censura covarde e com caráter simplesmente eleitoral. Não podemos negar a forte onda conservadora que acontece no país, políticos como o prefeito Marcelo Crivella, apesar de péssimo gestor, se apoia numa pauta de conservadorismo de costumes e usa isso como cortina de fumaça para que casos de corrupção e sinais de sua má gestão sejam invisibilizados em meio a uma polêmica maior", reflete ele.

"Senti que era meu papel ficar ali por aquelas pessoas", reforça Clara. A autora explica que, apesar de tudo o que aconteceu, ainda foi mais importante perceber a receptividade do público ao seu livro - que conta um romance entre duas mulheres -, e o quanto ele foi impactante para jovens que, até então, não se sentiam representadas na literatura. "Eu sei que o livro que eu escrevi também está dando força para outras pessoas, para elas se aceitarem, se assumirem sem medo".

A editora de Clara, a Seguinte, recebeu a visita da fiscalização no último final de semana do evento, mas os fiscais não tiveram qualquer tipo de ação em relação aos livros. Ela, porém, diz que soube de outros estandes que tiveram livros lacrados e marcados com uma etiqueta de "+18", mas não soube dizer se isso foi uma ação preventiva das próprias editoras ou se foi determinação dos fiscais.

"A gente está se opondo, lutando contra, toda essa intolerância, parece que a gente dá um passo para a frente e cinco passos para trás, mas como todo mundo diz: o importante é continuar em movimento”, diz Clara.

As pessoas não vão permitir que a gente retroceda, ninguém está mais na época medieval. A gente não vai permitir que as pessoas tirem a nossa liberdade de ler o que quer e ser quem é

Leonardo reforça também que é preciso ficar atento às situações e falas que são "polêmicas" com o propósito de ser um palanque político, uma pauta contra a "incapacidade de gestão e administração". Falar sobre o que aconteceu é essencial, mas é preciso também ficar de olho às intenções por trás do que rolou por lá. "O que aconteceu na Bienal foi um caso de censura puro e simples, que no primeiro momento não teve qualquer amparo legal ou jurídico. Ainda temos uma constituição e direitos estabelecidos, devemos estar sempre cientes e amparados legalmente para não caímos apenas num discurso de ódio vazio e fundamentalista".