Autora de quase mil gols no Beach Soccer: "A gente joga no Brasil por amor"

Adriele é um dos destaques do beach soccer feminino mundial (Quality Sport Images/Getty Images)

Por Stephanie Calazans

Adriele Rocha é uma paraibana de apenas 21 anos que, mesmo com a pouca idade, já coleciona títulos e marcos: foi campeã e eleita melhor jogadora do campeonato polonês quando vestia as cores do Lady Grembach, em 2018 – primeiro ano em que jogou fora do Brasil –, vice-campeã pelo clube italiano Terracina Feminille em 2019, medalha de bronze com a Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de Praia de 2019, e nomeada duas vezes para disputar o título de melhor jogadora do mundo, também nos anos de 2018 e 2019.

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A jovem, nascida em Tutóia, Maranhão, é hoje uma das principais atletas da Seleção Brasileira e cravou seu nome na história não só por ter uma margem de gols próxima a de Pelé – sendo que, vale ressaltar, ela ainda tem apenas 21 anos –, mas por ter balançado as redes das mais diferentes, difíceis e admiradas formas; como quando faz seus gols de bicicleta.

Pitty (como é carinhosamente chamada) nunca parou para contar oficialmente quantas vezes já balançou as redes (afinal, nem Marta tem todos os seus gols contabilizados), mas sabe que já está na casa dos 900 e, em breve, deve ultrapassar a marca do consagrado rei do futebol, Pelé. Apesar disso, a jogadora afirma que, no Brasil, o incentivo para o esporte é nulo e é preciso “muito amor” para se manter firme na profissão: “Até onde eu sei, a gente joga no Brasil por amor; pagamento mesmo eu nunca tive”.

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Segundo Adriele, que não possui uma segunda profissão (apesar de o Beach Soccer ainda não ser profissionalizado no Brasil), nenhuma atleta recebe ajuda financeira para prosseguir e evoluir no Beach Soccer – o que é um pouco diferente dos atletas masculinos. Para elas, o investimento e o incentivo vêm em forma de cursos, passagens, hospedagens e alimentação.

“Hoje eu consigo ter uma ajuda significativa, me viro com patrocínios, bolsa atleta, mas não ganho como os meninos”, diz. “Falta incentivo, falta mais patrocínio. Nós somos a primeira seleção brasileira de Beach Soccer e logo de cara já fomos medalhistas de bronze nos Jogos Olímpicos de Praia de 2019. Enquanto falta incentivo e patrocínio para nós, os meninos, por outro lado, recebem aos montes”, desabafa. “A gente merece tanto quanto eles, afinal, a gente também sabe jogar e fazer gol”, conclui.

A desigualdade de tratamento, incentivos e recursos financeiros para homens e mulheres é gigante, e o cenário não é diferente nem na Europa. “Há uma diferença imensa”, declara Adriele. “Meninos que estão começando ganham por volta de 3 mil euros (aproximadamente 14 mil reais) enquanto a gente, que está lá vestindo a camisa há tanto tempo, ganha só 500 euros (cerca de 2.300 reais). É uma diferença gritante, mas é preciso se manter otimista: estamos crescendo cada dia mais na Europa e eu acredito que o cenário vai melhorar”.

A positividade é uma marca da atleta que, mesmo tendo percorrido um caminho repleto de dificuldades e preconceitos, sempre se manteve otimista. “Eu sempre acreditei que chegaria na Seleção. Eu não sabia se seria pelo futebol de campo ou pelo de areia, mas sempre acreditei que chegaria lá”, conta Pitty, que ainda revela que nunca participou de treinos profissionais direcionados ao Beach Soccer e que foi sendo levada para a modalidade ao, pessoalmente, começar a se adaptar e adaptar as suas jogadas para o futebol de areia.

“Foi muito difícil conseguir me manter em alto nível para estar jogando futebol de areia, foi muito difícil não ter desistido no meio do caminho e essa é uma das minhas maiores vitórias. Ser hoje uma referência para meninas que querem seguir esse sonho é incrível”, conta Adriele.

Mas se o caminho percorrido não foi fácil, sua família fez questão de suavizá-lo. “Todo esporte que uma mulher decide praticar, ela tem que enfrentar o ‘pé atrás’ da família, ainda mais no futebol, por conta do preconceito, do machismo, da dificuldade de viver da profissão. Mas, para a minha sorte, minha mãe e meu irmão sempre me apoiaram muito, assim como meus amigos, meus primos... Eles sempre iam comigo para o campo, para jogar comigo, para me ver treinar”.

Hoje, vestindo a camisa da Seleção, Adriele afirma sentir algo “indescritível”. “É um sentimento diferente, é uma loucura estar defendendo uma nação. Vestir a camisa, ouvir o hino, é tudo muito emocionante”, conta. “É a realização de tudo aquilo que você treinou, brincou, enfrentou”.

Mas quando o assunto é mandar um recado para as meninas e mulheres que pretendem seguir os seus passos, Adriele mantém os pés no chão: “Estudem e se profissionalizem em alguma área, independentemente de seguirem no esporte”, diz. “Mas sim, é possível sim sair de um lugar humilde e, com fé e dedicação, chegar aonde se quer chegar”, diz. “Chegar na Seleção Brasileira, ser indicada a melhor do mundo e ganhar o prêmio de melhor jogadora da Polônia, é possível e eu consegui. A minha maior vitória é essa”, finaliza.

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