Autocuidado é feminismo e resistência: se proteja e proteja seus amigos

Foto: Divulgação

Por Roseane Aguirra

O ano mal começou e o número de notícias ruins não para de chegar. Uma série de acontecimentos como o rompimento da barragem de Brumadinho (MG), deslizamentos de terra e o alto índice de feminicídio estão entre os fatos que abalaram a esperança dos brasileiros nesses primeiros dois meses do ano.

Receba novidades sobre o mundo dos famosos (e muito mais) no seu Whatsapp

Pensando em equilíbrio e bem estar necessários para seguir em frente, diante de dias difíceis ou tristes, surge o conceito de autocuidado. Mas o que é isso, afinal? Autocuidado não tem a ver com o cuidado estético, como fazer as unhas toda semana, mas com equilíbrio mental e o carinho que temos com nós mesmos, como explica a psicóloga Christina Moretti.

“Como o nome sugere, o autocuidado é o cuidado que dirigimos a nós mesmos, então é sempre bom lembrar que cada pessoa é única, diferentes umas das outras e, portanto, o modo de cuidar de si mesmo não é uma fórmula mágica, mas sim uma combinação de hábitos, rotinas e mudanças que devem ser auto percebidos”, explica a psicóloga.

Cuidar de si mesmo parece simples, mas nem sempre as pessoas reservam tempo e dedicação para tal. Moretti aponta que o autocuidado pode ser uma reflexão ou mesmo uma atitude de autopreservação, e que pode fazer uma grande diferença para a saúde física, mental e emocional. Isso é feminismo também.

Autocuidado e resistência

Foto: Ilustração/Priscila Barbosa/Comum/ Rede Tear

A Comum, plataforma de desenvolvimento humano para mulheres, dá o exemplo de que autocuidado e resistência tem tudo a ver. Com objetivo de criar uma rede de apoio mútuo entre mulheres, as organizadoras criaram um conteúdo especial com textos, vídeos e práticas sobre o cuidado de si. O material, feito inicialmente para assinantes, acabou ganhando uma versão gratuita chamada de Mini-Manual de Autocuidado para Mulheres em Linha da Frente.

Leia mais: Janaina Paschoal diz que demorou a aceitar o Dia da Mulher: ‘discriminação’

“2018 foi um ano difícil para nós, mulheres, em um contexto sistêmico: a atmosfera política no Brasil e no mundo apontavam retrocessos e dificuldades importantes”, conta Anna Haddad, advogada e fundadora da plataforma.

“Na Comum, notamos que a comunidade de mulheres estava tensa, deprimida, sofrendo crises, adoecendo, mesmo. Foi quando lançamos um Especial de Autocuidado no fim do ano dentro da plataforma […]. Depois desse percurso, tivemos vontade de criar um material mais conciso e acessível sobre o assunto, considerando que queríamos que ele alcançasse o maio número de mulheres possível”.

Olhar com cuidado para si mesma não é egoísmo

Foto: Ilustração/Priscila Barbosa/Rede Tear

Criado em conjunto com a rede de iniciativas femininas Tear e com ilustrações de Priscila Barbosa, o Mini-Manual traz oito dicas leves. Uma delas diz que olhar com cuidado para si mesma não é egoísmo, mas um ato de amor e autopreservação. Outra diz que é preciso antes cuidar de si para cuidar do outro. Parece óbvio, mas não é. Por isso as dicas são apresentadas em formato de “lembretes ilustrados e leves para um 2019 de coragem e resistência”, como explica Anna.

O conteúdo destaca a importância da união das mulheres como fator que as torna mais fortes. “Acho que muitas de nós não entendem, ainda, a importância de acolher e julgar menos outras mulheres. E muitas de nós, que já entramos em contato com o feminismo, nos apropriamos do discurso de sororidade, mas na prática ainda há muita confusão. Sororidade não tem a ver com a “broderagem” masculina, com acobertar outra mulher, defendê-la mesmo quando ela está errada […]. Tem a ver com empatia, companheirismo e a união na luta por objetivos comuns.”

Além das dicas, o encontro especial realizado pela Comum contou com práticas importantes para o autocuidado, como meditações de respiração e de atenção plena. “Em momentos de muito caos externo, acreditamos que o melhor é voltar para dentro e encontrar um eixo, equilíbrio para poder seguir em frente”, explica a fundadora.

Dicas de autocuidado

Para encontrar o eixo, a Christina indica algumas práticas que podem contribuir para o autocuidado, lembrando que o que serve para um, não necessariamente serve para outro.

“Para sabermos o que é bom pra nós, devemos sempre fazer o exercício de olhar pra dentro e tentar perceber o que nos faz bem, refletir como eu me sinto diante das atividades que realizo e dos comportamentos que decido ter”, diz Christina.

Pensando nisso, confira 5 dicas da psicóloga para aumentar seu autocuidado:

1. Seja compreensivo com você mesmo: é importante aceitar-se como você é, não julgar seus gostos e suas vontades. Faça algo se estiver com vontade de fazer, sempre respeitando seus momentos de descanso, de tristeza, de alegria. Aceite também que você pode mudar, não tem por que insistir em hábitos que não funcionam mais na sua vida.

2. Coloque-se no lugar do outro: deve-se sempre lembrar que quando uma pessoa fala, ela traz o ponto de vista dela, portanto há dois desafios. O primeiro é tomar cuidado e pensar antes de contestar. Pergunte-se: Ela precisa ouvir isso? Eu preciso falar isso pra ela? Ser compreensivo com o outro, praticar a empatia, também faz bem para nós mesmos. A segunda é entender que o que as pessoas falam de você ou para você, pode ser, na verdade, a fala de alguém que não praticou o exercício de se colocar no lugar do outro.

3. Mantenha relações saudáveis: hoje em dia tendemos a nos isolar cada vez mais, com a facilidade que os eletrônicos nos proporcionam. Porém, são nas trocas que nós nos descobrimos e nos impulsionamos para frente. Dessa forma, é importante que saibamos manter relações saudáveis, ou seja, aquela relação em que você pode ser você mesmo, mostrar suas qualidades e defeitos, ser aceito e aceitar o outro, praticar o perdão e a aceitação sobre si e sobre o outro.

4. Não se cobre tanto: é importante colocarmos objetivos atingíveis sobre o que queremos. Colocar objetivos muito maiores do que a realidade acaba nos trazendo frustrações, pois é grande a chance de não conseguirmos alcançá-los. Isso não significa que você deve sonhar baixo, mas sim fazer um melhor planejamento dos seus objetivos. Ir atingindo objetivos simples primeiro nos deixa motivados e confiantes para, aos poucos, conseguirmos mais realizações.

5. Aprenda a relaxar: o relaxamento deve sempre estar presente em algum momento do nosso dia, é essencial para diminuir a tensão, promovendo saúde e bem estar. Cada um tem sua própria forma de relaxar, não tenha vergonha se para você é dançando, vendo séries, jogando vídeo game, indo à igreja, lendo ou até mesmo dormindo. Exercícios físicos também contribuem para diminuir o stress, além de aumentar a autoconfiança, manter o corpo saudável e a regular o sono. É importante encontrar um exercício que te faça sentir bem, não importa se é correndo, nadando ou lutando.