Aumenta o número de crianças fazendo terapia por causa da ansiedade. Como podemos ajudá-las?

Novas estatísticas revelaram que o número de crianças que fazem terapia por causa da ansiedade aumentou 60% em dois anos [Foto: Getty]

O Reino Unido está à beira de uma “epidemia de ansiedade”, com novos dados revelando que o número de crianças que fazem terapia por causa da ansiedade aumentou em 60% nos últimos dois anos.

A organização britânica Childline disse que a angústia crescente entre crianças e adolescentes está levando a números recordes de consultas psicológicas, incluindo milhares voltadas para crianças que sofrem de ataques de pânico.

As estatísticas mostram 13.746 sessões em 2016/17 para crianças sofrendo de ansiedade, incluindo mais de 3.304 lidando com ataques de pânico.

Comentando as descobertas, Peter Wanless, diretor da NSPCC (Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade Contra Crianças) disse ao The Telegraph: “A ansiedade é um problema crescente na vida dos jovens hoje em dia, e a tendência não é de queda. Precisamos ajudar as crianças e adolescentes a encontrar formas de lidar com seus sentimentos ansiosos e não os ignorar, como se tivessem apenas reações exageradas”.

“Uma das formas mais importantes para ajudar aqueles que estão sofrendo, é garantir que eles saibam que sempre têm alguém com quem conversar e que não precisam enfrentar isso sozinhos, motivo pelo qual o Childline é tão importante”.

Qualquer mãe ou pai que tenha um filho com ansiedade sabe o quanto é difícil observá-los lutando contra situações que não parecem assustadoras, como ir à escola ou creche ou se recusar a soltar a perna dos familiares numa festa infantil. No entanto, para as crianças ansiosas, estas situações do dia a dia podem parecer incrivelmente ameaçadoras.

Como ajudar uma criança ansiosa?

“Quando as crianças parecem estar ansiosas, conversar sobre o que está acontecendo pode ajudar, mas nem sempre é suficiente. Isso acontece porque a ansiedade causa uma agitação em seus corpos e em seus cérebros,” aconselha Jane Evans, especialista no tema.

“O estresse e a ansiedade são diferentes,” ela continua. “O estresse é curto e costuma ter um contexto. Uma prova que se aproxima na escola, ou um evento importante para eles, por exemplo. Há um nervosismo e algumas dúvidas, mas com o incentivo contínuo e a prática, a autoconfiança deles começa a se desenvolver”.

“A ansiedade pode ser desencadeada por tudo e qualquer coisa, já que é uma resposta menos racional, que vem do sistema de luta ou fuga. Se uma criança tem dificuldade para voltar, emocional e fisicamente, a um estado de relativa tranquilidade e equilíbrio, ela precisa de uma ajuda extra dos adultos ao seu redor,” acrescenta ela.

Como ajudar uma criança com ansiedade [Foto: Getty]

Jane acredita que, com o tempo, as crianças podem fazer uso de algumas técnicas e recursos simples para lidar com os altos e baixos da vida.

Por exemplo:

  1. Aprender formas divertidas de usar a respiração para sinalizar ao seu corpo e cérebro que “estamos seguros” para sair do modo de luta e fuga. O YouTube tem diversas ideias interessantes, como a “respiração do leão”.
  2. Deitar-se de barriga para cima no chão, ou encostar-se numa parede e respirar, ajuda a aumentar a sensação de segurança.
  3. Posicionar as mãos no alto da cabeça e respirar lentamente, inspirando e expirando.
  4. Posicionar uma mão no coração e a outra no estômago e respirar.

“A melhor coisa é fazer essas atividades com eles quando NÃO estão ansiosos, para que se transformem em hábito,” continua Jane. “Se eles estão relutantes, faça disso uma rotina diária, e eles rapidamente aprenderão, e usarão em momentos de necessidade,” ela explica.

Jane tem algumas teorias a respeito do que está por trás desta “epidemia de ansiedade” entre as crianças. Uma delas é a falta de oportunidade de criar conexões, graças ao fato de que muitos pais costumam estar estressados e distraídos pelo trabalho, pelas redes sociais e pelo ritmo de vida atual.

“Até as crianças pequenas sentem o nosso estresse,” ela explica. “Há níveis mais altos de términos de relacionamentos, casas diferentes, parceiros diferentes e outras crianças, com muitos de nós colados às telas dos dispositivos eletrônicos o tempo todo”.

“Em essência, a vida no século 21 evoluiu num ritmo ao qual nós simplesmente não conseguimos nos adaptar, especialmente no caso das crianças, cujos cérebros e corpos estão em desenvolvimento e precisam de tempo para brincar e interagir emocional e fisicamente com seus pais e familiares”.

Jane diz que a ansiedade das crianças pode se apresentar de diferentes formas, incluindo irritabilidade, dificuldades para dormir, necessidade exagerada de agradar aos outros, dores e cólicas no estômago, sensação de calor e afobamento, perda de apetite ou compulsão alimentar por alimentos doces ou gordurosos, preparação prévia seguida de checagens excessivas, comportamentos distraídos, chorosos, negativos, repetitivos ou de isolamento.

“Meu melhor conselho é DIMINUA O RITMO!” continua Jane. “Faça com que a vida seja menos caótica e com que você seja capaz de ter conversas curtas e simples, baseadas em sentimentos, e aprenda a respirar em família, em todos os sentidos da palavra!”