"Nenhuma mulher com a autoestima baixa terá um sexo saudável", afirma atriz

Giorgia Cavicchioli
·11 minuto de leitura
Atriz Jacy Lima usa humor para falar sobre sexo (Foto: Divulgação)
Atriz Jacy Lima usa humor para falar sobre sexo (Foto: Divulgação)

Com humor e muita atitude a atriz e digital influencer Jacy Lima passou a falar de assuntos como sexo, orgasmo, hipersexualização do corpo preto e saúde da mulher em suas redes sociais. Sem tabu, ela ajuda outras mulheres pretas a se descobrirem sexualmente e a entenderem que elas mesmas precisam ser o centro de seu desejo.

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Estereótipos têm um impacto forte no sexo, na nossa sexualidade e na forma que nos relacionamos, pois isso está tão intrínseco e enraizado que muitas acreditam nessas falácias e se cobram para atingir algumas delas

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Para falar sobre esses e outros assuntos, no dia 25 de julho, data em que comemora-se o dia internacional da mulher negra, latino-americana e caribenha, Jacy vai usar o seu Instagram para promover uma live e discutir questões sobre a sexualidade da mulher preta.

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Leia a entrevista completa:

Yahoo: Por qual motivo sentiu a vontade de falar sobre sexualidade na vida das mulheres pretas?

Jacy Lima: Porque a mulher negra sofre de milhares de complexos, principalmente em relação ao corpo, visto que fomos ensinadas que somos feias, rejeitadas, hiperssexualizadas e objetificadas e isso inclui ser mais quente, mais apertada, mais fogosa na cama. Esses estereótipos têm um impacto forte no sexo, na nossa sexualidade e na forma que nos relacionamos, pois isso está tão intrínseco e enraizado que muitas acreditam nessas falácias e se cobram para atingir algumas delas. Em vista disso, afeta a autoestima e nenhuma mulher com a autoestima baixa terá um sexo saudável, intenso e prazeroso, visto que a autoestima é precedente do sexo.

Yahoo: Por qual motivo acha que tem tanto tabu em relação ao tema?

Jacy: O sexo ainda está relacionado à promiscuidade, principalmente se os parceiros sexuais não forem casados e se forem do mesmo sexo, nem se fala. Isso inclusive é ensinado no cristianismo, relacionando sexo ao pecado e à prostituição, caso seja praticado fora do matrimônio. Além disso, há o patriarcado que ensinou que a mulher é propriedade e objeto sexual do homem. Essa cobrança do cristianismo e do patriarcado formou adolescentes e adultos frustrados sexualmente. Isso afeta ambos os sexos, mas principalmente a mulher. Muitos realizam suas fantasias com outros parceiros, pois têm medo do julgamento, do que foi estabelecido como sagrado e alguns se sentem culpados por realizá-las devido a essa construção de opressão sexual. Um exemplo disso, é que existem mulheres que se masturbam, mas se sentem culpadas pelo ato, pois foi ensinado que isso é errado e é feio se tocar.

Yahoo: Por qual motivo existe esse tipo de preconceito em relação às mulheres negras dizendo que elas são sempre "quentes" na cama? Como fazer para desconstruir essa e outras ideias em relação à mulher negra?

Jacy: Eu acredito e atribuo essa responsabilidade ao homem branco que construiu essa ideia no período da escravidão como desculpa para ter relação sexual com as mulheres pretas escravizadas e vinculado a isso está a hiperssexualização e como eram vistas como propriedade, eram obrigadas a se relacionarem com eles, ou seja, muitas eram estupradas. Vale lembrar que a prostituição sempre existiu e, provavelmente, no período só havia mulheres brancas pobres se prostituindo, pois a mulher preta era propriedade dos senhores e essas mulheres brancas não foram estereotipadas como quentes. Como toda mentira dita mil vezes torna-se verdade, essa falácia repercute até hoje e muitos realmente acreditam nela, até mesmo o grupo oprimido, o povo preto, pois fomos ensinados a acreditar nisso e a problemática disso é que você é cobrada a atingir uma expectativa ilusória e a consequência disso é a frustração sexual e claro, baixa autoestima, pois há quem diga para a mulher preta: “Poxa, pensei que você fosse mais fogosa e mais quente”. Há pessoas brancas que são mais fogosas do que pessoas pretas e vice-versa. Isso é uma questão individual e não uma característica de um povo.

Yahoo: Muito se fala sobre a solidão da mulher preta. Por qual motivo isso acontece?

Jacy: Está relacionada à construção midiática e social de que só pessoas brancas merecem ter afeto, construir uma família e são dignas disso. Em relação ao povo preto ficou estigmatizado à criminalidade, à sexualidade e à rejeição. A mídia e a sociedade ensinaram e venderam esse pacote do que é bonito, o que é o status e o que você deve ter na sua vida e isso não inclui a mulher preta, afinal não éramos vistas nem nas prateleiras de bonecas. O padrão era e ainda é a Barbie. Isso gerou uma onda de auto ódio, negação das próprias raízes e uma cobrança interna de ser aquilo que a mídia vendia para ser aceito ou aceita. Vale lembrar também que há outros fatores inerentes a isso: há mais mulheres pretas do que homens pretos na sociedade, muitos homens pretos são assassinados diariamente e o homem preto ocupa o maior índice de encarceramento, há mais mulheres pretas no meio acadêmico do que homens pretos, há muita mãe solo e há o machismo de não se relacionarem com mulheres com filhos e esta mulher ainda tem que trabalhar para sustentar o filho. Em relação ao status ainda é ter dinheiro, poder e mulher e quando falo mulher é a padrão, pois muitos ao atingirem o patamar financeiro precisam da aceitação e para consagrar esse passe, falta a mulher padrão, que provavelmente nunca teve e sempre quis, pois é o que foi vendido pela mídia.

Yahoo: Como mudar essa situação?

Jacy: No que se refere à mudança, claro que ninguém é obrigado a se relacionar com ninguém, mas vale parar pra pensar porque nunca se relacionou com mulheres pretas, principalmente assumi-las, termo e status que não gosto, pois o assumir é uma construção patriarcal e machista em que a mulher tem que esperar, se enquadrar esteticamente e fazer por onde para ser assumida e escolhida por um homem, ou seja, a mulher fica numa relação de inércia e na passiva aguardando como um produto numa prateleira de uma loja para ser escolhida. Então, acredito que antes de pensarmos em sermos assumidas, temos que nos assumir e redefinir essa relação de solidão, pois há a solitude aí pra ser vivida e é fundamental amarmos a nossa própria presença e o próprio afeto. Apesar de Tom Jobim ter dito que é impossível ser feliz sozinho, é sim. Não podemos resumir que felicidade está em aguardar ser assumida, ter alguém, ter uma família, pois vira uma busca incessante e desgastante que podem trazer diversas frustrações. Nós podemos determinar o que é felicidade, pois isso é individual. Temos que ser o nosso complemento para que quem chegar seja para nos suplementar e sair da inércia de esperar ser escolhida. Você pode decidir quem merece ficar ou não.

Yahoo: Acha que o humor é importante para falar de assuntos como esse?

Jacy: Sim e é fundamental. O humor toca em feridas que nenhum diálogo alcança e ele desnuda o ouvinte, pois você percebe através da risada e do comportamento quem já viveu o assunto que está na piada e se ver na situação. Além disso, o humor aproxima e deixa o telespectador à vontade pra falar qualquer assunto, pois sabe que não será julgado e é essa relação que gosto de estabelecer. É fundamental porque aí que o tabu é quebrado. Nesse diálogo que estabeleço descobri que há muito mais tabus sexuais, fetiches, frustração do que imaginava. Mas, como falei, isso é segredo de Estado. Pois eu não julgo, cada um sabe da sua vida, mas a sociedade está pronta pra julgar muita coisa que leio, pois tudo relacionado à sexo ainda é considerado promiscuidade.

Fui abusada dos 5 aos 8 anos de idade, sem ninguém saber, pois como eu era ameaçada e não tinha minha mãe ao meu lado, já que aconteceu no período que ela veio morar no Rio

Yahoo: Quem e o que pretende atingir com esse tipo de papo nas suas redes?

Jacy: O objetivo é atingir a todos que estão entrando na vida sexual, quem tem vida sexual ativa e até quem parou devido à autoestima. A maioria gosta de sexo, de fazer mesmo, mas não conversa sobre o assunto. Perceba que tudo se aprende primeiro a teoria e depois que você adquire o conhecimento mínimo, você parte para prática. Menos o sexo, você é jogado no mundo e aprende na marra ou é educado por filme pornô como se sexo fosse aquilo ali, algo cenográfico, sem graça, e minuciosamente planejado. Sexo é entrega e troca, todos os envolvidos na relação têm que sair satisfeitos e ter prazer no que está fazendo. Nós, mulheres, fomos ensinadas a dar prazer e não a recebe-lo. Então, ainda tem uma mulherada que finge orgasmo, transa sem vontade para o parceiro não transar na rua e, desculpa, se tiver que fazer, vai fazer de uma forma ou de outra e sexo entre parceiros sem consentimento/vontade da mulher, de forma forçada, é estupro marital. Há muita coisa enraizada sobre sexo que precisamos reaprender e desconstruir e o objetivo maior é esse: pensarmos juntos como melhorar a relação para todos e aceitar que todos têm fetiche, tem desejos sexuais. Isso afeta a nossa autoestima e consequentemente nosso comportamento social.

Yahoo: Como foi esse processo para você?

Jacy: Sempre tive um diálogo muito leve e aberto com as pessoas da minha família. Até com muitas gargalhadas sobre o assunto. Então, não cresci em um ambiente que sexo era tabu quando esse assunto passou a ser introduzido na minha vida, aos 10 anos. Apesar disso, como não foi um assunto abordado desde cedo, fui abusada e falar sobre sexualidade na infância é importante, pois evita abuso e estupro. Ao contrário do que pensam, não é ensinar crianças a transarem, mas sim conscientizá-las para que falem caso alguém aja de forma abusiva com elas. Então é preciso falar de forma responsável, leve didática e consciente: “Se alguém tocar aqui em você não tenha medo de falar com a mamãe”. “Só você pode tocar aqui”. Fui abusada dos 5 aos 8 anos de idade, sem ninguém saber, pois como eu era ameaçada e não tinha minha mãe ao meu lado, já que aconteceu no período que ela veio morar no Rio. Me sentia coagida, pois ele falava que aquilo era uma brincadeira, um segredo nosso e se eu contasse pra alguém nunca mais iria ver a minha mãe, sendo que ficar longe dela já era difícil pra mim e meu refúgio era ir pra casa do meu pai, pois lá me sentia mais segura. Esse abuso me trouxe traumas, tais como não entrar em locais que só tinha homem, não ter profissionais da saúde homens, já cheguei a chorar e ter crise do pânico durante a transa, caso eu não confiasse na pessoa. Lembro uma vez, que um rapaz que eu ficava falou que eu era frígida, que parecia que não tinha vontade. Terminamos e eu não queria ser aquilo que ele tinha dito, aí tentei sair beijando um bando de gente, transar não rolou e foi aí que fui procurar ajuda profissional e sem conhecimento da minha mãe, pois ela só soube de tudo quando eu contei aos 18 anos.

Yahoo: Como foi essa desconstrução?

Jacy: Fazer terapia pra quebrar a forma que eu me via sexualmente e construir uma Jacy extrovertida, livre e forte foi fundamental nesse processo, pois isso, inclusive, é uma capa protetora também. Hoje falo abertamente sobre sexo, amo fazer comigo mesma, masturbação, me descobrir diariamente e me recuso a transar apenas para dar prazer. Minha energia e meu tempo custam caro, então quer ter prazer, me dê também, afinal é dando que se recebe. Vale lembrar que apesar de falar abertamente sobre sexo, sou super seletiva. É outro tabu. Já me perguntaram quanto eu cobro o programa, já me ofereceram várias propostas e ainda fui chamada de vagabunda por recusar. Esse é o outro lado, tudo na vida tem seu preço e esse pago com muito deboche, pois o julgamento de terceiros é só um combustível pra eu continuar, pois só nos incomodamos com aquilo que de certo modo faz diferença e essa diferença vem através de mensagens de milhares de mulheres agradecendo por conseguirem se tocar e ir à ginecologista a primeira vez, por se olhar no espelho, por descobrirem outras zonas erógenas do corpo, por pararem de fingir orgasmo, por entender que sua felicidade depende única e exclusivamente de você.