Atores de 'Sintonia' contam como foi gravar em um cenário real da favela do Jaguaré, em SP

Caio Nascimento*


Dez anos depois de um incêndio de grandes proporções devastar casas na favela do Jaguaré, no extremo da zona oeste de São Paulo, a comunidade rodou o mundo com Sintonia - primeira série da Netflix a mostrar um cenário real da periferia da cidade.

Ao todo, 190 países receberam a trama, que fala sobre funk, crime e religião na vida de um trio de amigos que cresceram juntos: o cantor MC Doni (Jottapê), o traficante Nando (Christian Malheiros) e a evangélica Rita (Bruna Mascarenhas).

O caminho dos três se distancia conforme avançam os episódios. Mas, o que poucos sabem, é a relação de respeito e reconhecimento que o elenco precisou construir com os moradores do subúrbio para dar corpo a essa história.

Tudo que aparece no cenário durante os seis episódios de fato existe. Para se ter uma ideia, o mini mercado dos pais de Doni, por exemplo, pertence aos mesmos donos da casa onde o personagem mora na trama. A igreja evangélica da pastora Sueli também é ponto de encontro dos fiéis do bairro e o imponente escadão preto, que liga o morro de cima a baixo, é rota diária de moradores.


"A gente estava ‘invadindo’ o espaço dessas pessoas, chegando com um monte de câmera, caminhão, uma renda de pessoas", diz Christian Malheiros, que morou em Vila Nova, bairro periférico de Santos, no litoral paulista.

"Chegamos no Jaguaré para gravar e os moradores foram muito acolhedores com a gente. É muito delicado virar para a senhorinha que está sentada na porta da casa dela e falar: 'tem como a senhora sair daí que vamos gravar e não pode aparecer gente?'. As pessoas super apoiaram. Quando tinham que fazer silêncio, faziam silêncio", completa.

O ator relata ainda que os moradores compreenderam que as gravações mostravam a realidade deles. "Muitos jovens são Nando, Rita e Doni ali. E me identifiquei tanto que parecia que se eu virasse a rua, eu estaria em casa", diz.

Bruna Mascarenhas, por sua vez, era de Niterói, no Rio de Janeiro, e não conhecia São Paulo - e tampouco tinha referências da 'quebrada' e do sotaque paulista. "Foi importante para construção da [personagem] Rita gravar no local para ver como as pessoas andam, falam, se comunicam e como é viver em uma comunidade", afirma.

O E+ entrevistou ambos os artistas para saber suas impressões sobre os personagens e o reflexo social da série (leia aqui o conteúdo completo).







* Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais