Ator diz que 'Falas Negras' vai dar visibilidade a ícones da negritude

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Izak Dahora, 32, vai interpretar o líder revolucionário haitiano Toussaint Louverture no especial "Falas Negras", que a Globo programa para exibir no próximo dia 20 em comemoração pelo Dia da Consciência Negra. Criado por Manuela Dias e dirigido por Lázaro Ramos, o programa terá 22 atores interpretanto depoimentos reais de figuras históricas que lutaram contra o racismo. Louverture viveu entre 1743 e 1803. Ele foi escravizado até os 30 anos, mas ao ganhar alforria, liderou o levante que conduziu os africanos escravizados a uma vitória sobre os colonizadores franceses. "É muito significativo para um ator saber que interpreta um personagem de relevância histórica ou que integra um projeto de importância histórico-social", avalia o ator, que já interpretou Malcom X, outro nome importante na história do povo negro, no teatro. "Interpretar Toussaint Loverture é uma oportunidade que me deixou desde sempre honrado", afirma. "E, estudando para o projeto, descobri um desses elementos misteriosos entre ator e personagem difíceis de explicar: um dos filhos de Toussaint chamava Isaac". Para conseguir o papel, ele foi aprovado em testes. "Era uma tarde de sexta-feira de muito calor e eu estava arrumando um monte de coisas em casa", lembra. "Respondi à mensagem dizendo que enviaria o self-teste no dia seguinte mesmo. Logo depois, pensei: 'Izak, por que não pediu um pouco mais de prazo, até segunda-feira?'." "Parei tudo o que estava fazendo, mergulhei no texto e o enviei na manhã seguinte, depois de me agarrar à cena pelo restante do dia, o que rendeu uma simbiose muito especial entre mim e aquelas palavras tão contundentes do personagem", conta. "Nem gravei muitas vezes. Minha intuição sinalizou para eu fazer logo o teste. Deu certo, felizmente." O ator, que ficou conhecido por interpretar o personagem Saci no "Sítio do Pica-Pau Amarelo" (2001-2007) e mais recentemente viveu o mecânico Tião de "Éramos Seis" (2019), diz que está orgulhoso de participar de uma obra que visa provocar uma reflexão social. "[O dia] 20 de novembro para mim é uma instituição simbólica de reflexão contra o racismo e a discriminação racial", afirma. "Como sou um ser da cultura, acredito no poder dos símbolos e todo simbolismo de datas, marchas, eventos, enfim." "Creio que eles têm o poder de despertar, de provocar um momento de percepção nas consciências que pode ser o elemento desencadeador de profundas transformações individuais e coletivas", explica. "Mas creio também que o 20 de novembro é sempre também a inspiração e o recado para que o que nele se diz e defende seja desdobrado na prática nos demais dias do ano." Ele ainda se diz feliz de poder servir de veículo para que muitos se vejam representados na tela. "Fico pensando nos estudantes assistindo a esses personagens representados, buscando após a exibição mais informações nas redes virtuais e nos livros sobre os mesmos, discutindo, se reconhecendo, cobrando que suas grades curriculares incluam essas vozes tão negligenciadas", afirma. "E o mesmo se pode dizer das outras faixas etárias, no tanto de informações e conscientizações que o contato com essas personagens emancipatórias pode causar", avalia. "Esse projeto propicia o encontro potente com ícones da negritude, cujas trajetórias têm sido, há séculos, invisibilizadas pelos poderes hegemônicos. Penso que 'Falas Negras' faz parte de um processo histórico brasileiro e internacional irreversível".