Ato em SP termina com repressão e bombas de gás na véspera do Verão Sem Censura

Mulher é detida durante manifestação contra tarifa do ônibus em SP. Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images

Tente encontrar o erro: começa nesta sexta-feira (17) o festival Verão Sem Censura em São Paulo, cidade que na véspera foi dormir sob o som de bombas de efeito moral e balas de borracha durante um protesto contra o aumento das tarifas de transporte.

O protesto, que saiu do Theatro Municipal e deveria chegar à Avenida Paulista, acabou na República, a 500 metros do ponto de partida. Foi interrompido pela ação da PM, que deteve dez manifestantes.

Embora sob comando do governador João Doria, a repressão, com cenas de violência na capa dos jornais, joga um caminhão-pipa de água fria no projeto do colega tucano, o prefeito Bruno Covas, de transformar a maior cidade do país num símbolo e enclave da proteção da liberdade contra os desmandos do governo federal. 

Só que fica difícil defender a liberdade quando o comandante em chefe do seu partido endurece contra manifestantes -- como em 2013, o argumento de que a ação conteve excessos pode ser contestada com vídeos que circulam nas redes, com imagens de policiais puxando os cabelos e imobilizando mulheres presentes ao ato.

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Horas antes, o governador havia afirmado em suas redes que a população está cansada de “vândalos destruindo o patrimônio público” e prometeu intensificar a fiscalização.

A declaração acontece num momento em que, conforme mostrou uma reportagem da Folha de S.Paulo, o governo paulista tem detido e levado à Justiça os manifestantes. Até mesmo jornalistas que cobrem os atos são alvo de revistas e intimidações. 

Recentemente, Doria regulamentou uma lei proposta na esteira dos protestos de 2013 para supostamente endurecer as ações de black blocs -- e que, na prática, já sufocou até reunião de professores universitários contra a reforma da Previdência. 

A lei veda o uso de máscaras e permite até que empregadores de manifestantes sem documentos sejam contatados em caso de detenção. Também exige comunicação prévia de protestos que reúnam mais de 300 pessoas com cinco dias de antecedência, além de detalhes sobre o itinerário. Falta determinar o que entra e o que não entra nas faixas de protesto e palavras de ordem.

Palavrão, ainda, não dá cadeia.

Em junho de 2013, os relatos de violência contra quem foi às ruas protestar contra o preço da passagem de ônibus ajudaram a engrossar o coro de quem fazia nos dias seguintes atos ainda maiores de descontentamento. Deu no que deu.

O protesto sufocado da última quinta-feira foi o terceiro na cidade, e gerou um caldo ainda maior de revolta contra o governador. A depender de sua reação, esta revolta vai pairar como sombra no festival anti-censura do seu substituto na Prefeitura que neste ano tentará a reeleição.