Ativista no Equador, mulher trans se torna mãe e garante: “Me sinto realizada”

Foto: Acervo pessoal

Por Milena Carvalho

Diane Rodríguez, de 36 anos, é equatoriana e ativista dos direitos trans. Depois de se assumir mulher transgênera aos 16 – ela nasceu como Luis Benedicto –, teve uma vida sofrida tomada de bullying e outros tipos de ataques. Contudo, mesmo com os momentos de dificuldades, sempre teve um desejo em mente: se tornar mãe. Em 2016, essa ambição se concretizou. Casada com um homem trans, Jefferson*, eles decidiram não se submeter à cirurgia de mudança de sexo e tiveram um bebê. “Toda realidade começa com um sonho e esse foi o meu. Me sinto realizada”, afirma em entrevista ao Yahoo Vida e Estilo.

Foto: Acervo Pessoal

Para alcançar tudo o que conquistou até hoje, Diane passou por episódios terríveis. Foi expulsa de casa pelo padrasto, se submeteu ao trabalho sexual, largou o curso de engenharia comercial no 2º ano após ser atacada por colegas de classe e sofreu muitas ameaças. “Não podia expor minha feminilidade. É muito mais difícil para uma pessoa trans feminina enfrentar a família e a sociedade”, diz ela, que acabou se formando em psicologia. “É triste, porque países como o Equador, Venezuela e até mesmo o Brasil ainda não nos aceitam totalmente.”

O conflito com os familiares foi tão sério que chegou a apanhar do padrasto e foi obrigada por eles a se “desomossexualizar”. “Obviamente isso não deu certo”, declara. “Quando me assumi, minha mãe chorou muito, como nunca vi na vida. Era como se eu estivesse morta.” Diane ficou separada da família por sete anos. Hoje, segundo ela, conseguem manter uma boa relação.

Medo constante

Por ter trabalhado sexualmente nas ruas, ficou exposta ao mundo das drogas e violência. Sentia medo de que a machucassem. “Somos etiquetas ambulantes”, classifica Diane, se referindo à aparência das mulheres transexuais. “É difícil eliminar nosso traço masculino, então todo mundo se dá conta de que somos trans.” Ela ainda lamenta a perda de oportunidades devido ao gênero que escolheu: “uma vez que você se assume, o sistema tira tudo de você – empregos, estudos e até sua família”.

O temor da militante transparece nos dados de assassinatos de transgêneros. De acordo com a ONG Transgender Europe (TGEu), entre 2008 e 2016, o Brasil, por exemplo, contabilizou a morte de 868 transexuais.

Foto: Acervo Pessoal

O desejo de ser mãe

Apesar de ser casada com Jefferson* atualmente – eles se conheceram pelas redes sociais –, Diane já teve outras relações, tanto com homens cisgêneros quanto transgêneros. A vontade de ter um filho, segundo ela, sempre esteve presente. “Mas nunca imaginei que um dia poderia dizer que tenho um filho que é sangue do meu sangue. É uma oportunidade em um milhão.”

Adotar uma criança também é um sonho da ativista. Apesar de a legislação no Equador ainda dificultar o processo de adoção por mulheres trans, ela considera ser um “plano de vida”. “Sei que vou cumprir. Não sei quando, mas vou.”

Para Diane, orgulho define o que é ser mãe. “Também acredito que sou abençoada. Não em relação à religião, mas sim em uma condição de vida na qual não existia a possibilidade de eu ter um filho”, explica. Para quem deseja assumir esse papel, ela aconselha que será muito difícil, mas não impossível. “Compartilho minha história, pois não quero ser a única mulher trans a ser mãe. Ninguém deve se privar disso.”

*O nome do marido de Diane foi alterado devido à ameaças sofridas pelo casal