Até quando a mulher negra será questionada por sua escolha capilar?

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Camilla de Lucas usou suas redes sociais para falar sobre o peso do racismo em cima da estética da mulher negra. A ex-BBB 21 vem sendo pressionada a deixar de usar suas laces - perucas- por muitos internautas. E aí mora um grande perigo, pois a mulher negra jamais deveria sofrer pressão por sua escolha capilar. 

Por questão histórica do nosso passado escravocrata, o corpo negro sempre foi visto como público, e por isso a branquidade sempre consegue legitimar a sua opinião para as pessoas não brancas — ou seja, valer sua opinião sobre padrões. Mesmo que o Brasil seja um país composto por 54% da população negra, ainda assim espanta o nosso poder de escolha. 

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Camilla com suas laces
Camilla com suas laces

Recordo-me a primeira vez que alguém me perguntou sobre meu cabelo. Foi em 2016, no segundo ano da faculdade - “Mel, porquê você ainda usa cabelo liso”. Eu não tinha resposta para aquele momento e a minha única solução ou reação foi ouvir aquela inconveniente sugestão.

A mesma pessoa perguntou novamente, porém em uma rodinha de amigos brancos, entretanto diferente daquela primeira vez, eu senti que precisa me justificar. “ Ah, eu gosto. Acho que combino mais. Se vocês forem para praia comigo, verão meu cabelo natural”. E foi assim meu 2016 inteiro. Cabe aqui acrescentar que essas perguntas que parecem inofensivas, na verdade, é uma forma de racismo. 

A sugestão era "assumir" meus cachos, já que na percepção dessa bolha universitária, todas as mulheres negras estavam passando por transição capilar. Na época, as propagandas na televisão ganharam essa nova narrativa. E tudo se intensificou muito mais após algumas famosas escolherem não alisar mais. E legítimo, óbvio. Mas também precisamos falar de escolhas e elas são próprias.

O corpo negro é livre

Se tornou um grande problema quando me dei conta que eu sempre sentia a necessidade de justificar, e muitas vezes para a mesma pessoa. Veja bem, o problema não é a dúvida em si, mas a frequência que isso tornou, e como o sentimento de culpa acabava crescendo, já que não escutava os conselhos que pareciam ser inofensivos.

Imagine o cenário em que a mulher branca fosse questionada a todo momento pela cor escolhida ou se vai deixar de alisar. Parece um tanto absurdo isso. Porém, via de regra o corpo branco não é público. E em alguns momentos na moda as tendências de tranças, dread, turbantes ficam em alta e a apropriação cultural também se torna fashion, "trend" e os questionamentos sobre a decisão são bem pequenos. 

Conversar com amigas pretas sobre essa questão, me fez descobri que não eu devia satisfação a ninguém. Já que meu corpo é privado e livre.

Foi libertador saber que ninguém tem o direito de questionar sobre as minhas escolhas. Entender que posso ser quem eu quiser e como quiser. As respostas para esse tipo de pergunta mudaram para: “Porque eu quero, oras”. Fui e sou taxada de grosseira quando falo dessa forma, mas sinceramente não me importo. 

Gloria Maria, Rihanna, Beyoncé, Iza, Ludmilla utilizam cabelos de diversas formas, jeitos e quase nunca foram questionadas sobre a decisão capilar. Pois, o status social e de prestígio que alcançaram - com muito garra - já não cabem aos não negros perguntarem sobre as escolhas delas.

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