Artista dissidente cubano recebe alta após 29 dias hospitalizado

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O artista dissidente cubano Luis Manual Otero Alcántara teve alta nesta segunda-feira (31) após ter passado 29 dias hospitalizado e incomunicável com o mundo exterior, segundo seus familiares, o que gerou um movimento de solidariedade de um grupo de artistas da ilha.

"Depois de um mês nas mãos da fera, aqui vamos descobrir como está a rua para continuar na batalha", afirmou Otero Alcántara logo após deixar o hospital, em um vídeo transmitido pelo veículo de oposição Cubanet.

O artista performático contou que ficou "literalmente incomunicável por um mês", com pouco acesso à sua família e que "não teve acesso às redes sociais".

"Não estou com meu telefone", ressaltou, em um vídeo postado no Twitter do Movimento San Isidro.

Quando chegou ao hospital, passou sete dias bebendo líquidos e mais uma semana em greve de fome e sede, que deixou de fazer há uns 15 dias, acrescentou.

A equipe médida do Hospital Universitário General Calixto García "decidiu pela alta hospitalar" depois que os cuidados permitissem "sua recuperação integral", disse em um comunicado a direção Provincial de Saúde de Havana.

Otero Alcântara, de 33 anos, "reiterou seu agradecimento ao pessoal encarregado de seu atendimento, que respeitou a vontade do paciente, tanto para os procedimentos médicos, os cuidados, sua nutrição e o tempo de permanência no hospital, o que é respaldado por sua assinatura no histórico clínico", disse o comunicado.

O artista performático, que foi acusado pelo governo cubano de ser financiado pelos Estados Unidos, deu entrada no hospital em 2 de maio, oito dias depois de se declarar em greve de fome para denunciar o confisco de suas obras por agentes de segurança.

Nos primeiros dias, as autoridades divulgaram seu histórico médico para demonstrar que estava em perfeito estado de saúde.

Em seguida, foram publicados nas redes sociais vídeos do artista aparentemente gravados por seus médicos. Mas a família do dissidente afirmou que a comunicação era impossível e que o dissidente era mantido no local contra a sua vontade.

O governo americano pediu sua libertação imediata e a Anistia Internacional o considerou um "preso de consciência".

- "Horas sombrias" -

Em solidariedade, cerca de 20 artistas cubanos exigiram na semana passada que suas obras no Museu Nacional de Belas Artes de Havana deixassem de ser acessíveis ao público.

Mas o museu rechaçou este pedido: "O museu não aceita uma demanda que não atende à vocação de serviço da nossa instituição, nem o interesse do público ao qual se deve".

"A arte cubana está vivendo horas fatídicas (...) A criminalização da diferença não é, nem será, um caminho para a convivência", lamentou na semana passada pelo Facebook o pintor Tomás Sánchez.

Famoso por suas paisagens oníricas de florestas, este pintor de 73 anos, radicado na Costa Rica, expôs seus quadros em França, México e Estados Unidos.

Para as autoridades comunistas da ilha, Otero Alcántara é um "mercenário" pago por Washington para promover a agitação política.

O governo dos EUA faz "uma simulação de preocupação com os direitos humanos, enquanto oculta (seus) verdadeiros propósitos", disse Johana Tablada, vice-diretora para os Estados Unidos do Ministério das Relações Exteriores.

- "Vitória da sociedade civil" -

Desconhecido do grande público até o ano passado, o rosto de Otero Alcántara agora aparece regularmente nos noticiários da televisão estatal cubana, que o acusa de ser financiado e administrado pelo Instituto Nacional Democrático dos Estados Unidos, um centro de estudos dirigido pela ex-secretária de Estado Madeleine Albright.

"Eles mentem", disse Otero à AFP em abril. “O que um artista faz é questionar um problema (...) e é isso que estou questionando como artista e através do meu trabalho”.

Nascido em uma família humilde, esse homem que se define como "artivista" - artista e ativista - realizou nos últimos anos uma série de performances, geralmente provocativas, como cobrir o corpo com excrementos em frente à sede do Congresso de Havana para protestar contra um decreto que regulamenta os artistas.

Em outra, ele se propôs a andar pela cidade por dias com um capacete de construtor, depois que três meninas foram mortas pelo desabamento de uma varanda de um prédio em ruínas.

Sua ação mais marcante foi em novembro passado, quando se entrincheirou com outros membros e apoiadores de seu coletivo, o Movimento San Isidro, em sua casa para denunciar a prisão de um rapper.

Durante 10 dias, o grupo, alguns deles em greve de fome, transmitiu seu protesto pela internet, ganhando audiência internacional.

O despejo do grupo gerou um protesto histórico de 300 artistas em frente ao Ministério da Cultura em 27 de novembro.

Embora alguns deles não compartilhem as convicções ou os métodos de Otero Alcántara, muitos mostram um crescente desconforto com os limites que lhes são impostos.

"Isto foi um feito da sociedade civil cubana e dos artistas que demonstraram uma maturidade e um conhecimento dos seus direitos que não podem mais tirar de nós", disse à AFP a artista plástica Tania Bruguera, de 52 anos, outra das demandantes, que levou sua obra à Tate Modern de Londres e ao Museu de Arte Moderna de Nova York (Moma), e que também pede a retirada de sua obra.

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