Artistas indígenas e negros têm consagração no circuito em 2021, que volta lotado

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ano que começou com uma explosão de memes virando obras de arte com a tecnologia dos NFTs viu, enfim, o dia nascer para as exposições físicas. Enquanto outras áreas da cultura se debateram para retomar as atividades com público ainda reduzido, devido à pandemia, os museus tiveram filas na entrada e as vernissages em galerias receberam centenas de pessoas.

A edição pandêmica da Bienal de São Paulo, que finalmente abriu depois de um ano de atraso, lotou os três andares do Pavilhão da Bienal em vários fins de semana do segundo semestre. A feira SP-Arte, em novo endereço, ficou cheia no dia de abertura. Os exemplos ilustram o retorno em massa do público ao circuito das artes visuais em 2021.

Não que tenha sido uma volta completa à normalidade. Virou rotina a checagem de comprovantes de vacinação no Brasil e em outros países na entrada dos espaços expositivos, e os frequentadores usam máscara, só tirada na hora de tomar uma taça de espumante. A Art Basel, maior feira de arte do mundo, retomou sua edição em Miami com hotéis lotados, num clima que lembrava o pré-pandemia -exceto pela entrada com hora marcada e pelos testes de Covid que precisavam ser feitos a cada tantos dias.

O clima de festa da retomada não necessariamente se refletiu nas obras expostas. A 34ª edição da Bienal de São Paulo, por exemplo, resgatou trabalhos feitos durante a ditadura, a exemplo das instalações "A Carga" e "Presunto", da artista paulistana Carmela Gross, para refletir sobre uma espiral à brasileira com a ascensão de regimes autoritários ao poder.

São obras que dialogam com outros retratos de um país que não supera as próprias sombras, como o projeto de "A Ronda da Morte", de Hélio Oiticica, ou as sombras alongadas de ditadores, políticos e tanques militares nos trabalhos de Regina Silveira, ambos expostos na Bienal.

É a cara de um Brasil em ruínas e que destrói sua própria memória, tragédia escancarada na exposição do meteorito resgatado do incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro no centro de um dos núcleos da Bienal.

Mas nem tudo eram cinzas. Com as grandes telas coloridas de Jaider Esbell e os mantos de pena de Daiara Tukano, parte de uma rede extensa de artistas indígenas contemporâneos que começam a abrir espaço no circuito oficial de arte, a Bienal ajudou a consolidar a presença dos povos originários nas instituições, algo que já se desenhava há algum tempo.

Um dos principais responsáveis por este movimento foi Esbell, um importante articulador. Foi dele a organização, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, da grande mostra de arte indígena contemporânea "Moquém Surarî", por exemplo. Artista da etnia macuxi, Esbell estava no auge.

Contudo, uma notícia inesperada deixou de luto o mundo da arte no início de novembro -o artista foi encontrado morto em seu apartamento em São Paulo. Em homenagem à sua memória, suas pinturas expostas na Bienal foram cobertas por panos pretos. Uma tela preta foi exibida durante a transmissão online da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que teria a participação do artista numa mesa de debates.

O ano foi marcado também pelo grande reconhecimento de talentos negros por parte do mercado brasileiro. Quase todas as galerias agora têm ao menos um artista negro jovem em sua lista de representados, e as que não tinham foram rápidas em anunciar novos nomes. Um dos maiores exemplos dessa consagração é o imenso hype em torno da galeria paulistana HOA, que se firmou em 2021 com um elenco exclusivamente formado por artistas negros, LGBTQIA+ e de fora do centro.

Os negros que chegaram ao topo da fechada hierarquia do mundo de arte fizeram isso pintando símbolos de ostentação antes reservados aos brancos. Basta pensar, por exemplo, nas telas neon de O Bastardo, artista sensação que retrata personalidades como os músicos Frank Ocean e Mano Brown vestindo roupas de grife. Outros nomes pintaram um cotidiano mais prosaico, como Wallace Pato, da galeria Mendes Wood DM, com suas grandes telas onde anônimos --todos negros, é claro-- bebem e se divertem ao redor de uma mesa de bar.

Esses novos artistas vêm no rastro do sucesso do carioca Maxwell Alexandre, que já está há mais tempo no circuito e agora conquista uma individual num dos espaços de arte contemporânea mais importantes da Europa, o Palais de Tokyo, em Paris. Em São Paulo, seus grandes murais em papel pardo retratando a vida na periferia e fora dela também foram expostos numa importante mostra no Instituto Tomie Ohtake, que passou antes pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, evidenciando a importância institucional do artista.

As obras de Alexandre estiveram também numa mostra na galeria A Gentil Carioca, que abriu uma sede na capital paulista. O espaço da casa carioca em solo paulistano faz parte de uma reorganização da geografia das galerias em São Paulo ocorrida neste ano. Diversos espaços se estabeleceram no centro da cidade e na Barra Funda, criando assim novos polos de arte, levando para estes bairros colecionadores acostumados a comprar nos Jardins.

Um dos novos destinos é justamente onde está localizada A Gentil Carioca, na travessa Dona Paula, junto ao cemitério da Consolação. Nas casinhas daquela rua de paralelepípedos e cara de cidade do interior, também inauguraram o Projeto Vênus e a Lanterna Mágica, além de um espaço para mostras feitas a partir da coleção Moraes Barbosa.

A agitação de novos espaços não ficou restrita ao circuito paulista. Os parisienses finalmente viram a abertura aguardada da Bourse de Commerce, com a coleção de arte contemporânea de François Pinault, diretor do grupo de luxo Kering, após reforma no antigo prédio da bolsa, no bairro movimentado de Les Halles.

O ano também será lembrado pelas tais obras virtuais comercializadas em NFT, uma tecnologia que confere autenticidade para trabalhos que muitas vezes só existem na internet, como animações e GIFs.

Uma colagem de imagens que não existe na vida real se tornou uma das obras de arte mais caras do mundo quando Beeple leiloou na Christie's um trabalho em NFT por R$ 382 milhões. Depois dele, artistas de peso entraram para esse universo e até a Art Basel viu seu mundo físico ser conjugado com a realidade paralela da internet.

Talvez o revisionismo do que é arte e de quem ocupa os espaços de arte continue em 2022, o ano do centenário da Semana de Arte Moderna --está em cartaz nesta virada de ano uma mostra pensando em como a semana impactou artistas brasileiros que também abordam pautas identitárias, e antes uma exposição tentava alargar o conceito do que é moderno, tirando o foco de São Paulo como centro das artes plásticas do país.

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