Artistas espalham esqueletos de peruca e letreiros gigantes por desertos dos EUA

FERNANDA EZABELLA
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LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) - Foi só deixar o esqueleto sozinho por alguns minutos nas areias de Bombay Beach, numa poltrona cor-de-rosa desfacelada, que logo brotaram curiosos de celulares na mão. A praia, a três horas de carro de Los Angeles ou de San Diego, não tem nada de paradisíaca. Suas águas são tóxicas e malcheirosas, e há peixes mortos às margens. Mas o local é um ponto de encontro popular no deserto do sul da Califórnia para gente interessada em arte, algo intensificado no último ano com o fechamento de espaços culturais vizinhos. Ao lado do esqueleto com cabeça de carneiro, que parece acenar ao espectador, estava uma torre apelidada de “bonolito”. Instalada por um artista desconhecido, é provavelmente uma sátira ao monólito de metal que apareceu no deserto de Utah em novembro. Havia também um antigo balanço de madeira nas águas rasas e um letreiro na areia com os dizeres filosóficos: “a única outra coisa é o nada”. O cenário apocalíptico parece perfeito para os tempos atuais, embora o artista e pesquisador de arte Paul Koudounaris prefira chamar suas criações de “fantasias arqueológicas”. Ele é o dono do esqueleto em questão, um antigo e pesado modelo anatômico feito de cerâmica. O artista leva o “companheiro” para posar em cenários pelo deserto, às vezes com perucas coloridas e caudas cintilantes de sereia. Especialista em ossários e ritos funerários, Koudounaris passou a última década percorrendo o mundo para fazer três livros sobre os temas. Com a pandemia, passou a explorar mais a região onde mora, que engloba o parque nacional Joshua Tree, o vale Coachella e o deserto Mojave. Em vez de ossos, agora busca ruínas deixadas pelas vilas de mineração da corrida pelo ouro do século 19. O que ele descobre desses lugares, posta no Instagram. De quebra, incorpora seu esqueleto para criar fotografias que deslocam o espectador para outra dimensão. Longe do macabro, a maioria de suas imagens tem senso de humor, ainda que algumas sejam inspiradas em quadros religiosos renascentistas. Às vezes, é seu gato de estimação Walter que serve de modelo, dentro de um curioso bagageiro que o transforma num gato-astronauta. “O deserto ainda é, de certa forma, o Velho Oeste. Há tanta coisa aqui que foi esquecida”, diz Koudounaris. “Desertos têm essa personalidade estranha meio trágica. Você nunca vai derrotar o deserto, ele sempre vence. No fim, tudo é reduzido a deserto. É um poder que atrai e desperta uma imaginação romântica.” Em lugares de acesso mais fácil, como Bombay Beach, é difícil não cruzar com visitantes, a maioria de câmera na mão. Apesar da paisagem árida, o local é rico em história. Criada por acidente em 1905, quando desviavam água do rio Colorado, a lagoa Salton Sea foi um resort popular nos anos 1950. Três décadas depois, se transformou em praia fantasma com a degradação das águas, resultado de alta salinidade, seca e poluição. Com o tempo, artistas encontraram potencial para o lugar, cuja toxicidade e salinização dão cores especiais a suas águas e margens espumosas. No último ano, as intervenções se multiplicaram. Instalações surgem do dia para a noite pelas areias. “Confunde a definição do que é arte. A arte torna-se parte da vida diária, e a vida diária, parte da arte”, diz Koudounaris. Para ele, a pandemia criou um certo renascimento de obras de arte na região. “Não precisamos ficar parados em reverência olhando para uma vitrine de vidro de museu. Aqui podemos fazer parte da arte e do processo criativo.” Koudounaris também faz funerais para animais mortos que encontra nas estradas. Ele registra as cenas em fotografias que não considera arte e sim uma forma de luto. A alta mortalidade não é necessariamente relativa aos turistas e sim pelos incêndios de 2020. Ele afirma que muitos animais migraram para cá e ainda estão descobrindo seus novos habitats. Desde os anos 1960, os desertos da costa oeste americana atraem artistas em busca de grandes espaços remotos longe das garras das instituições culturais. Hoje, o movimento é também o oposto. Artistas são levados ao deserto por instituições culturais, como a Desert X, uma bienal que começou aqui em 2017 e ganhou uma edição num deserto da Arábia Saudita em 2020. “O deserto traz uma ideia de possibilidade ilimitada e, talvez, de escrutínio existencial”, diz um de seus curadores, Neville Wakefield. “É um lugar de descoberta justamente porque não tem a intensa presença social e arquitetônica que distraem em ambientes onde há maior concentração humana.” A terceira edição californiana abriu em março e vai até maio, com 13 trabalhos espalhados pelo vale Coachella por artistas de oito países. Judy Chicago, uma das pioneiras da land art, fará uma de suas esculturas de fumaça numa performance em abril. Doug Aitken, John Gerrard, o coletivo Superflex e até uma brasileira, a mineira Cinthia Marcelle, participaram das bienais anteriores. A edição é mais compacta, com menos trabalhos e em locais mais próximos um dos outros para facilitar o transporte e dar mais tempo à introspecção. “Queremos explorar o deserto como um lugar feito de camadas de histórias acumuladas ao longo do tempo, semelhante às camadas geológicas daqui”, diz Wakefield. “Assim, chegamos a certos temas relacionados a justiça social, narrativas ambientais e imigração. É uma exploração tanto da paisagem social quanto da física." Entre os artistas selecionados, estão o angeleno Eduardo Sarabia, com um labirinto em grande escala feito de fibra de palmeira por artesãos locais, e Nicholas Galanin, do Alasca, que aborda a questão dos monumentos e do direito à terra com um gigantesco letreiro que diz "Indian Land", similiar ao de Hollywood. Há outros três artistas latinos: argentina Vivian Suter, o colombiano Oscar Murillo e o mexicano Felipe Baeza. Os trabalhos da Desert X são temporários, mas há muitas criações permanentes para explorar na região, além mesmo de Bombay Beach, que, aliás, também tem sua bienal em anos intercalados à Desert X. Já na cidade de Joshua Tree, o artista Noah Purifoy, morto em 2004, passou seus últimos 15 anos de vida montando instalações de ferro-velho num terreno, hoje conhecido como Outdoor Museum. É um espaço sem cercas, sem câmeras e com entrada gratuita. Apesar de escondido nas franjas da cidade, onde casas e trailers ficam cada vez mais espaçados e o deserto dá as caras, o museu passou a receber mais visitantes no último ano. “Sabemos que o fluxo de pessoas segue bom porque a quantidade de doações na entrada continua boa”, diz Joe Lewis, presidente da Noah Purifoy Foundation. “Nosso único problema é que às vezes as pessoas vêm aqui para beber à noite. Fora isso, não há vandalismo”, continua. Os trabalhos ficam expostos ao calor e à neve, fazendo com que alguns materiais se desintegrem. “Noah dizia que era sua colaboração com o meio ambiente. Mas fazemos uma manutenção anual.” A 30 minutos de carro de Bombay Beach, está outro clássico do deserto californiano, a Salvation Mountain, onde um artista local converteu uma encosta numa pintura de 15 metros dedicada a Jesus. Foi justamente aqui que Koudounaris cruzou com um grupo de modelos quando se preparava para fotografar seu gato. “Elas queriam tirar foto com ele, mas não deixei”, diz, rindo. “Honestamente, esses encontros fazem parte da beleza do que vemos aqui. O deserto não é um lugar estático, estagnado. É um quadro vivo.”