Artistas entoam sua "ode" ao confinamento

Por Philippe GRELARD
Vocalista do U2, Bono, em Navi Mumbai, Índia, em 15 de dezembro

De Michael Stipe, ex-vocalista do R.E.M., a Bono, passando por artistas menos conhecidos, o mundo da música está se mobilizando para lembrar o público da importância de respeitar o confinamento diante da ameaça global do coronavírus.

Algumas canções lançadas há mais de 30 anos ecoam a atualidade. "It's the end of the world as we know it", do R.E.M (1987), voltou às listas de reprodução. E é o seu refrão que o ex-vocalista do grupo canta em um vídeo caseiro, com óculos e uma barba de duas semanas.

Então Stipe adverte: "Estamos entrando no desconhecido com o coronavírus, mas é real, é sério e é agora". E lembra, "depois de conversar com amigos na Itália", como se deve comportar durante o confinamento para impedir que os hospitais fiquem "superlotados".

Outra estrela planetária, Bono, vocalista do U2, filmou-se em frente a uma grande janela de sua casa em Dublin tocando piano, interpretando a inédita "Let your love be known", dedicada especialmente aos "médicos e enfermeiros".

Por trás do óculos cor de rosa, Bono canta uma história de amor, a parábola da quarentena de saúde. O tema, que já tem três milhões de visualizações no Facebook, cita "silêncio", "ruas desertas" e "isolamento" para dizer que "distância" não impede mensagens de amor e apoio.

"É uma pequena melodia que escrevi há uma hora", disse Bono sobre sua balada, a primeira música que compôs em três anos.

Na Espanha, um tema antigo, "Resistiré", da dupla Dúo Dinpamico, tornou-se o hino da luta contra o coronavírus, cantada por milhares de pessoas que saem às varandas todas as noites para aplaudir a equipe médica, dedicada a tentar salvar os doentes em hospitais lotados.

Tema sobre esperança e superação de adversidades, com um refrão que diz: "Resistirei, de pé diante de tudo, me cobrirei de ferro para endurecer minha pele", a música, um sucesso na época de seu lançamento em 1988, tornou-se famosa quando apareceu no filme "Ata-me!" de Pedro Almodóvar, de 1990, cantada por Loles León, Antonio Banderas e Victoria Abril dentro de um carro.

- "Parte do trabalho" -

A artista de Quebec Coeur de Pirate postou no Twitter um vídeo, que já foi assistido mais de 300.000 vezes, em que ela lista as recomendações em tempos de COVID-19 para seu público jovem. "Não rimos (da doença), não beijamos o vizinho, protegemos os outros", entoa.

"Não é de surpreender que os grandes artistas se envolvam nos grandes temas. Eles consideram que isso faz parte de seu trabalho. O Holocausto, os atentados, as catástrofes humanitárias... tudo isso deu origem a muitos trabalhos", comenta à AFP Bertrand Dicale, jornalista francês especializado em música.

Admiral T, de Guadalupe, optou por uma produção "dancehall", com mais de 142.000 visualizações em três dias no YouTube. O cantor lembra que a pandemia não é "ficção científica" e que, como não há vacina, todos devem permanecer confinados.

Na França, a artista Grande Sophie postou no Instagram o vídeo "Ensemble" (juntos), no qual toca violão enquanto canta sobre as restrições que o coronavírus impõe ao país: "Chegamos ao fim da estrada/Nossos costumes nos abandonam".

Todas essas letras sobreviverão à passagem do tempo? Não é certo, de acordo com Dicale, que usa um exemplo de um sucesso francês durante a Primeira Guerra Mundial, "Os alemães são como ratos", e cuja gravadora não se lembra de seu autor, Vincent Scotto.