Artistas compartilham histórias sobre incerteza da cena cultural

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - A queda do número de casos de Covid-19 possibilitou que o cenário cultural voltasse a se movimentar, e que diversos eventos, que foram cancelados durante o auge da pandemia, pudessem retornar no Brasil.

Mesmo com essa retomada, artistas e profissionais do ramo mostram-se apreensivos em relação ao futuro da vida cultural.

CENÁRIO INCERTO LEVA PRODUTOR A INVESTIR NA CARREIRA DE ATOR

O produtor cultural André Deca, 51, está apreensivo com o cenário cultural no pós-pandemia. Segundo ele, que trabalha em Brasília há quase 20 anos, uma parte do público não voltou ao teatro, principalmente as pessoas mais velhas.

Para ele, o receio em retornar aos espetáculos é em parte explicado pelo temor, cada vez menor, em relação à pandemia. Outra explicação seria o preconceito contra a classe artística. "Acho que houve uma criminalização dos artistas. As pessoas acreditam que a gente está mamando na teta do governo, o que não é verdade. Viver de arte no Brasil é difícil."

Por causa do cenário complicado na produção, Deca antecipou seu projeto de investir na carreira de ator. Para isso, ele pretende se estabelecer também em São Paulo, onde acredita que irá encontrar mais oportunidades.

Deca cita como exemplo das dificuldades encontradas pelo setor o adiamento da execução de leis que preveem repasses para a cultura. A Medida Provisória 1.135/2022, publicada no dia 29 de agosto no Diário Oficial da União, autorizou o adiamento para 2023 da Lei Paulo Gustavo e, para 2024, da Lei Aldir Blanc.

O produtor diz que a tendência é fazer espetáculos com temporadas menores. "E começar com calma, porque o público está retornando a um hábito, algo que precisa ser incentivado."

NO PÓS-PANDEMIA, ATRIZ EXPLORA CIRCUITO ALTERNATIVO

Na opinião da atriz carioca Julia Lindenberg, 37, a busca por alternativas durante a pandemia possibilitou o surgimento de bons projetos virtuais e a troca de experiência entre os artistas.

"Era uma forma de se conectar com o outro", diz Julia, que tem participações na série "Bom dia, Verônica", da Netflix, e em "Sob Pressão", do Globoplay. "Foi bonito, mas também foi triste, porque o online não dá conta de tudo. Ninguém aguenta mais o virtual."

Para a artista, com a volta dos eventos, tanto o mercado audiovisual quanto a cena teatral no Rio de Janeiro estão aquecidos.

"Há um circuito alternativo com uma qualidade incrível e que não é tão comentado. Seria bom se, nesse retorno ao presencial, a gente pudesse aprender a olhar mais para ele", diz a atriz, que estará na série "Todo Dia a Mesma Noite", da Netflix, marcada para estrear em 2023, sobre a tragédia da Boate Kiss.

Ela vê o apoio de governos como fundamental para o incentivo da arte e da cultura. Sempre que possível, Julia vai a peças, a exposições e ao cinema. Também frequenta eventos de rua com o filho Antonio, 4.

Segundo a atriz, muitos shows tornam pouco acessível a participação de crianças, o que impacta a vida social das mães. "Fazer cultura no Brasil é sempre guerrilha." "É um trabalho árduo ser artista e se manter, principalmente quando se é mulher e mãe."

ROTEIRISTA COMEÇA A ESCREVER SEU PRIMEIRO LONGA EM OFICINA VIRTUAL

Com projetos na Warner Bros, Netflix e Amazon, a diretora e roteirista baiana Ana do Carmo, 24, reserva um horário todos os dias para assistir a filmes e séries. "Não é só lazer, também é trabalho. Estou sempre buscando novas referências."

No momento, Ana escreve seu primeiro longa-metragem, "Sol a Pino", que já lhe rendeu nove prêmios no processo de construção, dentre eles o Prêmio Cabíria, voltado a roteiristas mulheres. O longa conta a história de uma mulher negra que usa a realidade virtual para tentar evitar o sentimento de luto motivado pela morte da esposa.

Segundo a artista, a história se coaduna com outros de seus trabalhos audiovisuais ao retratar corpos negros em narrativas nas quais eles raramente aparecem como protagonistas. O seu projeto na Warner Bros, outro longa em desenvolvimento, apresenta uma história com super-heróis negros.

"As pessoas imaginam que nós, artistas negros e negras, só podemos ou devemos escrever filmes relacionados a racismo e dor. Acredito que podemos escrever sobre qualquer coisa, inclusive sobre afeto, amor, viagem no tempo e distopia", afirma.

O roteiro de "Sol a Pino" começou a ser desenhado no primeiro semestre de 2020, na pandemia, época na qual a artista teve a oportunidade de participar remotamente de laboratórios para roteiristas, o que acontece até hoje.

"Não conheço nenhuma sala de roteiro que voltou para o formato presencial. As pessoas perceberam que conseguem trazer colaboradores de lugares diferentes do mundo", diz.

JOVEM PAULISTANO VIRA ESCRITOR DURANTE PERÍODO DE ISOLAMENTO

"A pandemia transformou meus hábitos culturais", diz Ricardo Zalcberg Angulo, paulistano de 19 anos que escreveu seu primeiro romance durante o período de distanciamento social.

A fase de recolhimento foi intensificada por um acidente de carro que restringiu seus movimentos. "Fiquei preso em casa, com os dois braços imobilizados. Não podia fazer muita coisa além de ler. A partir daí, meu interesse pela literatura se consolidou", afirma.

Depois do confinamento, Angulo criou um clube do livro e passou a escrever cartas e outros textos. Além do romance, "Fardo da Lucidez" (editora Labrador, 288 págs.), iniciou outro projeto: um livro sobre a relação de irmãos, em homenagem à irmã gêmea.

Depois da pandemia, além do interesse pela literatura, Angulo também passou a ir a peças teatrais, apresentações de dança e cinema. A mudança de comportamento também aconteceu com seus amigos, que, segundo ele, começaram a falar mais sobre arte.

"Antes eu me sentia inadequado por ser um dos poucos que curtia ler e escrever. Depois, eu percebi que todo mundo tinha um pouco de vergonha de compartilhar o seu amor pela cultura."

O jovem escritor diz se informar sobre o circuito cultural da cidade sobretudo pelas redes sociais, as quais também usa para divulgar seu trabalho.

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CANTORA SE DEDICA À COMPOSIÇÃO E USA REDES PARA FIRMAR PARCERIAS

Na pandemia, a cantora e compositora Sarah Roston, 28, recebeu diferentes oportunidades de trabalho, firmou novas parcerias e se dedicou à composição.

"Para mim, as redes foram muito importantes como lugar de conexão. As lives trouxeram um suspiro, tanto no consumo quanto na realização dos trabalhos", afirma.

Durante o período, Roston, que também é atriz, fez um teste online para a série "Sentença", da Amazon, na qual atuou e contribuiu para a trilha sonora.

Também escreveu, em parceria com o irmão, Saulo, composições para o próximo filme dirigido por Lázaro Ramos, um musical intitulado "Um Ano Inesquecível - Outono", que será lançado pela Amazon Prime Video.

O seu EP "I Bother", que teve lançamento prejudicado pela quarentena, virou parte da trilha sonora da série espanhola "Vis a Vis", da Netflix, e apareceu em outros projetos, como na série "Todxs Nós", da HBO.

Hoje, Roston aproveita para explorar a cena cultural. "Minha rotina tem sido ir para a rua e procurar os artistas", diz. "Para mim, neste momento, dar um rolê de bike é tão importante quanto ir a shows."

O contato com os amigos serve como fonte para descobrir o que acontece no setor cultural. Para ela, a oferta de festivais de música é intensa no momento, mas há pouca diversidade nos eventos.

A cantora, que afirma ser mais valorizada no exterior, reforça a importância de os artistas valorizarem o próprio trabalho. "Eu acho que, a partir da pandemia, os artistas começaram a se dar conta de que quem constrói a indústria somos nós."