Artista finge ser bilionária para fotografar coberturas nababescas em Nova York

·4 minuto de leitura

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - De roupas e sapatos novos, bolsa de grife e maquiagem completa, Andi Schmied saiu do metrô no sul de Manhattan e assumiu seu disfarce. Ela seria Gabriela, uma bilionária europeia à procura de um apartamento de luxo em Nova York.

"Estava muito nervosa. Levava uma velha câmera Nikon, de filme, na bolsa, mas não tinha certeza de que me deixariam fotografar", conta a artista húngara de 32 anos que, naquela primavera de 2016, fazia uma residência artística na cidade americana. Gabriela era a estratégia de Schmied para viabilizar seu novo projeto artístico -registrar a cidade que os ultrarricos veem do alto das novas torres residenciais de Manhattan.

Nesses prédios, de até 500 metros de altura e cerca de cem andares, o metro quadrado pode passar de US$ 10 mil -cerca de R$ 50 mil. No mais alto deles, o Central Park Tower, o mais barato dos sete apartamentos disponíveis em maio custava US$ 6,9 milhões e o mais caro, US$ 17,9 milhões -de R$ 34,6 milhões a R$ 90 milhões. No 53 West, construído em cima do MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova York, uma unidade chegava a US$ 64,7 milhões -R$ 325 milhões.

A ideia surgiu num momento clichê, conta ela, em entrevista por videoconferência, de seu apartamento em Budapeste. "Subi ao topo do Empire State e, primeiro, fiquei hipnotizada com aquela perspectiva, os minúsculos carros e pessoas se movendo lá embaixo. Mas, quando subi o olhar para meu próprio nível, notei outros edifícios da mesma altura e pensei 'alguém ali deve ter todos os dias essa vista que pobres turistas, como eu, experimentam no máximo um par de vezes na vida'. E surgiu a vontade de mostrar a cidade de diferentes ângulos", diz ela.

Mas em Manhattan há só outros três ângulos acessíveis ao público, os do Rockefeller Center, do World Trade Center e do Hudson Yards. Nenhum deles tem, por exemplo, uma vista direta do Central Park. Schmied começou a percorrer a cidade marcando prédios de onde poderia fotografar. "Logo percebi que os mais altos eram arranha-céus de luxo, um universo restrito ao qual pouquíssimos tinham acesso."

A saída de Schmied foi se fazer passar por um desses poucos, o que exigia muito mais que um figurino de grife. O primeiro corretor de imóveis para quem ligou fez várias perguntas sobre seu marido, e ela percebeu que precisaria ter referências que passassem pelas checagens das agências.

Seu amigo Zoltán Foldvári, galerista e antiquário, assumiu o papel de marido. Na internet, uma busca com seu nome leva a negócios internacionais com manuscritos e livros raros, cacife suficiente para um comprador de apartamentos numa faixa de preço entre US$ 20 milhões e US$ 90 milhões, que a falsa bilionária dizia estar procurando.

Mas Schmied precisava também se livrar de outro problema ligado a buscas online. "Precisava de um nome que não levasse a meus trabalhos artísticos." Seus projetos anteriores já haviam tratado de imóveis de luxo, e ela temia que isso despertasse suspeitas.

A solução foi adotar seu nome do meio, Gabriela, mantendo o sobrenome "de solteira", o que evitava problemas quando seu passaporte era checado na entrada dos edifícios. A personagem final, porém, foi sendo construída sobre os estereótipos revelados pelos corretores durante as visitas, diz ela.

A linha central do projeto também foi mudando nos quatro anos entre a primeira visita, em 2016, e a última, semanas antes da primeira onda de Covid-19, em 2020. "No começo, pensava só em mostrar a vista, mas isso foi se desdobrando em muitas questões", diz ela. A cidade que os bilionários veem aparecem em 89 fotografias, a maioria ocupando os 31 centímetros por 46 centímetros das páginas duplas do livro "Private Views: A High Rise Panorama of Manhattan", ou vistas privadas: um panorama de Manhattan a partir do alto, sem tradução no Brasil, mas disponível em andischmied.com. As vistas e alguns detalhes de apartamentos em 25 dos mais caros edifícios da cidade são acompanhadas de diálogos entre Gabriela e os corretores.

O uso de filme fotográfico produziu imagens granuladas que, impressas em papel fosco, evitam um resultado puramente fetichista -"veja como vivem os hiper-ricos!". "Não foi uma escolha racional, mas uma coincidência feliz, porque é o oposto das fotos ultranítidas em papel superbrilhante que se vê nas brochuras", diz.

Outra grande diferença é que no material publicitário é sempre dia de sol, enquanto as vistas reais são também cinzas ou completamente brancas -quanto mais alto o apartamento, maior a chance de se encontrar cercado de nuvens ou neblina. "O que é visto como o cume do privilégio -olhar os outros de cima, no sentido concreto e abstrato- se desfaz", diz Schmied.

Se as fotos já não bastassem para atingir seu objetivo -"mostrar a desigualdade louca desses lugares e como esses prédios são ferramentas para manter e até reforçar essa desigualdade"- o livro traz dez breves ensaios técnicos sobre o zoneamento urbano de Nova York, impacto das sombras, estratégias de marketing et cetera, e sete artigos escritos por antropólogos, sociólogos, historiadores e urbanistas.

Andi Schmied se formou na Escola de Arquitetura Bartlett, em Londres, e já expôs seus trabalhos no Reino Unido, no Japão, na China e na Holanda, além da Hungria. A "arquitetura dos afluentes" é o tema de seu atual projeto, um doutorado na Universidade Moholy-Nagy, em Budapeste.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos