Artista e dissidente Ai Weiwei teme nova Tiananmen em Hong Kong

Por Daphne ROUSSEAU
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Artista e dissidente chinês Ai Weiwei durante entrevista à AFP, em 15 de agosto de 2019 em Berlim

O artista chinês e dissidente Ai Weiwei expôs seu medo, em entrevista à AFP, de que não haja "outras saídas" para a crise de Hong Kong a não ser uma violenta repressão aos manifestantes, como ocorreu em Tiananmen, porque, segundo ele, o regime comunista "não sabe fazer de outra maneira".

"Nenhuma previsão é exagerada", afirmou, referindo-se à hipótese, cada vez mais mencionada, de que o governo chinês ordene uma repressão parecida com a que o Exército chinês executou na famosa praça de Pequim em junho de 1989.

Trinta anos depois que "os tanques esmagaram a mais pacífica das manifestações, a estudantes sentados, quando todo mundo observava" na praça de Pequim, a história pode se repetir, segundo o artista, um dos mais firmes críticos do regime chinês.

"Não há outras saídas, não sabem nem negociar nem debater. É a natureza desse regime autoritário. Têm somente a polícia e o Exército", declarou Ai Weiwei, em seu estúdio em Berlim.

Nos últimos dias, o governo de Pequim deixou entrever a ameaça de uma intervenção militar para restabelecer a ordem em Hong Kong, território que o Reino Unido devolveu à China em 1997 e que goza de um certo grau de autonomia.

- "Violência" -

"A violência não é tão somente física, é mental, quando se nega o direito dos manifestantes a debater. Esse tipo de violência é horrível", ressaltou este que já foi um importante artista na China e que enfrentou maus momentos desde o começo da década de 2010 por suas críticas contra o regime.

Em 2011, passou 81 dias preso, depois de ter sido detido no aeroporto de Pequim, onde pegaria um avião com destino a Hong Kong. Em janeiro do mesmo ano, seu ateliê nos arredores de Xangai foi demolido.

Ele teve seu passaporte apreendido por quatro anos e, quando o recuperou em 2015, mudou-se para Berlim.

"Compartilho sua frustração. Estou com eles e sinto que fazem parte de mim", comenta, em referência aos manifestantes de Hong Kong.

Seu estúdio fica em uma antiga fábrica de cerveja de Berlim. Um pequeno exército de estudantes e de jovens artistas, vários deles chineses, preparam com cuidado seus futuros projetos, frequentemente provocadores e de grande tamanho.

Com montagens enormes em torno de objetos representativos da chegada maciça de refugiados, ou obras que representam o dedo médio em praças públicas, Ai Weiwei é um mestre da comunicação e dos "golpes". Seu estilo chegou a causar irritação em alguns círculos da arte contemporânea.

- "O melhor da China" -

Quando as manifestações começaram, em junho, ele enviou três de seus colaboradores para Hong Kong, equipados com câmeras.

No começo, Ai Weiwei queria "entender os líderes e suas motivações" para defender esse movimento, alegre e pacífico. Agora, quer compreender por que alguns manifestantes chegam a até "querer se jogar pela janela" em nome de sua luta pelas liberdades.

"O melhor da China, essa geração educada e comprometida por defender a democracia, está sendo sacrificada por uma sociedade obscurantista. E os outros países agem como se nada estivesse acontecendo", denunciou Ai.

O famoso ativista pró-democracia de Hong Kong Joshua Wong, endossou a denúncia nesta sexta-feira no jornal Bild. "Não entendo como a Alemanha, membro do mundo livre, possa cooperar desse modo com a China", criticou.

Ai Weiwei se sente impotente por apoiar o movimento, a milhares de quilômetros de distância, pelo smartphone. "A tristeza me invade", admite.

Aos 61 anos, ele revelou à AFP que quer deixar a Alemanha, "por múltiplas razões políticas", mas não contou para onde pretende se mudar.